Você não será Mark Zuckerberg…e está tudo bem!

por: Bia Granja

Quando estava no meu último ano do colegial (o Ensino Médio de hoje), fui fazer intercâmbio nos Estados Unidos. Passei pelo último ano da High School, que é o semelhante deles ao Ensino Médio nosso. No modelo norte americano, existe um projeto que consiste em a escola oferecer um dia de estágio em uma empresa na qual o aluno tenha interesse em trabalhar. Naquela época, meu desejo era ser arquiteta. Como era uma cidade muito pequena (5 mil habitantes) e não tinha nenhum escritório de arquitetura, me descolaram um dia de trabalho em uma loja que vendia móveis.

Quando recebi a notícia na época, fiquei bem frustrada. Fui até à loja no dia seguinte bem triste, já tentando me conformar com o “mico” de passar o dia acompanhando a venda de racks de TVs e armários embutidos (o que não é nenhum problema, só não tinha nada a ver com arquitetura).

Em cidades pequenas, com exceção das redes de fast food e supermercados tipo WalMart, os demais negócios são bem locais, familiares, criados e tocados pelos moradores. A tal loja de móveis não era diferente. Um casal já em idade avançada havia fundado a loja do zero quando jovens e se dedicavam a ela há incansáveis 40 anos. A loja não era grande, não gerava uma riqueza gigantesca, mas estava lá, viva e produtiva há algumas décadas.

Não aprendi nada sobre arquitetura, mas passar aquele dia ali com aquele casal me mostrou algumas coisas importantes sobre o que é tocar um negócio, e muitas delas eu só realizei depois que tive o meu próprio. O que ficou claro pra mim é que ser empreendedor tem muito mais a ver com a mentalidade da pessoa do que com aspectos empresariais e de gestão da empresa. E quando eu penso em como podemos trazer o tema do empreendedorismo pra sala de aula, acredito que é nesse sentido que temos que focar.

O que é esse “mentalidade”, ou seja, essa cultura empreendedora?

1 – Ter iniciativa
Ser empreendedor é dar o primeiro passo, e o seguinte, e o seguinte… Sem depender de ninguém, sem esperar que outro alguém faça ou te peça pra fazer. É diferente do que acontece quando vamos trabalhar em uma empresa onde cada um tem a sua função definida. Empreender é fazer! É colocar a mão na massa sozinho, e entender que o resultado depende exclusivamente de você. É ir lá e criar a sua loja de móveis, e fazer ela te sustentar durante 40 anos.

2- Criar sua própria carreira
Falamos muito disso nos meus últimos textos aqui no Entretanto. Quase metade das carreiras que existem hoje vão sumir em menos de três anos! AQUELA vaga NAQUELA empresa não vai necessariamente existir pra todo mundo. Ajudar os alunos a enxergar isso, a entender e explorar habilidades, e a estarem habituados a sempre buscarem novos conhecimentos e conectando ideias é ESSENCIAL para ajudá-los a se prepararem para criar o seu próprio mercado.

3- Saber viver com incertezas
Empreender é arriscado. A gente não tem garantia de nada, não tem empresa grande por trás, não tem 13º, vale-refeição ou férias remunerada. Muitas vezes você nem sabe se aquilo que você está empreendendo é de fato algo que vale a pena ser empreendido. Mas você acredita e vai colocar muita coisa em jogo pra tentar concretizar esse sonho. Ensinar alunos a lidarem com esse ambiente de incerteza é importante para prepará-los paro mundo.

4- Ser capaz de aceitar o fracasso
Em algumas culturas, falhar tem um peso negativo muito grande. Nós não gostamos de falar sobre nossos fracassos, sobre nossos erros. Vemos como algo vergonhoso, humilhante, o fim da linha. Mas não tem que ser. Errar é normal e faz parte. Temos que falar mais abertamente dos insucessos, banalizar os fracassos, para que possamos nos desprender desse estigma e recomeçar sem medo. Nos reinventar, desapegar do que foi e recomeçar. Seja uma nova empresa, um novo serviço, produto ou um novo modelo de negócio. A época da escola é geralmente quando se alimenta esse estigma do “perdedor”, do “fracassado”… E por isso também é um excelente momento pra quebrá-lo. Nem todo mundo vai ser o Mark Zuckerberg, e está tudo bem.

5- Lembrar do aspecto transformador
Empreendedorismo como um todo tem um poder transformador muito grande. Quando se abre uma empresa, geramos novos empregos, riquezas, movimentamos a economia e o país. Dependendo do que vamos empreender, temos a oportunidade também de inovar, de criar algo disruptivo e de impacto. Levar esse pensamento paro aluno pode inspirá-lo determinantemente. E precisamos de mais jovens inspirados 🙂

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