Um drama e três personagens

Um drama e três personagens

por: Celso Antunes

– Minha impressão sobre essa aluna? A pior possível! Apática, desinteressada, revela sérias dificuldades em aprender e agudos problemas de memória, pois somente assimila após desgastante insistência e, menos de um mês depois, já não mais é capaz de se lembrar do que sabia. Além dessas dificuldades de aprendizagem e retenção, não se interessa por nada, passando pelos fatos sem aos mesmos se ligar. Durante as aulas mergulha em seus devaneios e o que ouve, entra por um ouvido e mais que depressa pelo outro sai. Incapaz de acompanhar o desempenho dos colegas mais fracos de sua turma, não pode permanecer na série e que se encontra e somente uma avaliação absurda, se é que houve alguma avaliação, poderia explicar porque está na classe em que está.

– Minha impressão sobre essa aluna? A melhor possível! Dinâmica, interessada e protagonista de todos os desafios propostos, aprende com imensa facilidade e revela uma curiosidade sem limites. Com genial poder de associar o que aprende ao mundo real, é destaque onde quer que se apresente, admirado pelos colegas e de méritos reconhecidos pela maior parte de seus professores. Proprietária de uma memória dinâmica sabe descobrir o que aprendeu para contextualizar diante do que deseja saber. Na aula, se mostra muito organizada, ouvindo com atenção e esforçando-se sempre para ajudar colegas com mais dificuldades. Embora com a mesma idade de seus colegas, pensa, pesquisa, cria e aplica como os melhores alunos de séries mais avançadas. Em um sistema escolar em que o nível intelectual e corporal dos alunos fosse aferido pela competência e pela dedicação, certamente estaria em série mais adiante.

– Esperem um pouco. Por favor, ajudem-me a compreender. Ouvi com atenção o seu depoimento, professora Marlene, e com igual atenção também ouvi o relato do professor Eduardo. Estou atônito sem entender nada, ou envolvido por uma perversa brincadeira de vocês dois. É da mesma aluna que se referem?

– Surpresa e vítima de brincadeira é como também me sinto, senhor Diretor. Fui sincera e busquei ser transparente ao falar da Tânia Mara. Sei que é péssima aluna e confesso que não compreendo o absurdo desse julgamento feito pelo Eduardo, meu colega da Educação Física. Como pode descrever essa menina, afrontando minha forma de percebê-la. Então dúvida que Tânia Mara é a pior aluna da classe? Reafirma as tolices com que há pouco a elogiou?

– Prezada colega Marlene. Senhor Diretor. Nunca fui tão sincero como agora sou e em meus pensamentos existe apenas a certeza da coerência e a clareza da verdade. Tânia Mara é aluna inteligente e dedicada, adolescente admirável esperta e criativa. Dedica-se com extremo vigor a todas as aulas quando se descobre protagonista e não apenas ouvinte, quando suas competências e inteligências são instigadas e exigidas e não omitidas pela mediocridade de repetições maçantes. Aprende com extrema facilidade a graça dos movimentos corporais e domina com esperteza e criatividade a linguagem dos sentidos. Possui excelente memória para reter tudo quanto efetivamente tenha significação e aplicar o que guardou para transformar-se e transformar o mundo real em que vive e modela, critica e intervém…. Quem se interessa pela linguagem dos movimentos e bem a aprende, aprende com igual facilidade qualquer conteúdo, de qualquer disciplina, quando motivada.

– Calma lá, professor Eduardo. A Tânia Mara pode ser excelente e dinâmica na Educação Física que o senhor ministra, mas é péssima aluna na Língua Portuguesa que ensino…

– Não, professora Marlene. Desculpe o incômodo da correção, mas não existe inteligência aguda sem desafio, significação plena sem protagonismo, excelente memória particularizada em apenas alguns itens. A qualidade da verdadeira e significativa aprendizagem, de qualquer aprendizagem, e a excelência de todas as memórias humanas estão sempre associadas à plenitude da motivação e não as especificidades das disciplinas curriculares. Desculpe, mas não é a Tânia Mara que é má aluna, são suas aulas e seu conceito de educação que não evoluiu. Nenhuma pessoa verdadeiramente inteligente não se sente sonolenta e apática diante de aulas mortas, temas maçantes, memorizações inconsequentes.  Aprenda a dar mais vida às suas aulas e, depressa, perceberá quanto Tânia Mara e todos os seus alunos desabrocharão…

– Professora Marlene, professor Eduardo. No debate aberto, não há como ser neutro e não cabe a hipocrisia de não tomar partido. O Eduardo tem razão, todos os seus alunos, todos os professores desta casa e esta direção já perceberam que na linguagem serena e na harmonia sincera dos movimentos compreendidos, se revela a força da inteligência humana e que sem estímulos desafiadores não existe compreensão do cérebro e ação do corpo. Quem aprende a aprender, apreende qualquer conceito de qualquer disciplina e os aplica em qualquer situação desafiadora. O mundo reverencia os Jogos Olímpicos como forma explícita da diversidade e da grandeza da inteligência e da superação humana. Falta apenas a teimosia de alguns professores para assumi-la plenamente.

Conteúdo originalmente publicado no site do professor Celso Antunes. 

Receba nossa News