Professores empreendedores!

por: Luciano Meira

O discurso contemporâneo sobre a educação acadêmica, particularmente no ensino básico, tem alimentado o que entendo serem dois mitos acerca dos professores e suas relações com a escola. O primeiro é que somos resistentes, os anticorpos das mudanças que a escola precisa implementar em resposta ao mundo em evolução permanente, na cultura digital por exemplo. O segundo mito está fundado na ideia segundo a qual toda a mudança deveria assentar-se sobre práticas de ensino centradas no aluno.

 

O mito da resistência, é verdade, tem certo fundamento. Sim, é muito difícil transformar modos de ensino bem assentados nas nossas zonas de conforto, mesmo quando os resultados não justificam a manutenção de antigas práticas. A renovação tímida dos métodos e ambientes da escola gera, inclusive, narrativas que comparam professores a médicos viajando no tempo desde um passado longínquo até nosso presente, em um enredo no qual estes últimos seriam inúteis nos hospitais atuais, ao passo que os professores de séculos atrás não teriam dificuldades com a escola atual.

 

Mas essa narrativa nem é engraçada como parece pretender e ainda encobre algo fundamental sobre a inércia da escola à mudança: a sociedade como um todo (a academia, a indústria, os governos) desenhou quase nada especificamente para a escola ao longo do último século, diferentemente de todo o redesenho e recursos empregados para evoluir as salas de cirurgia. Por exemplo, muitos até nos esforçamos na criação de práticas pedagogicamente convincentes para os smartphones em sala de aula, mas esse é um artefato de uso genérico cujas funções não foram especificamente pensadas para a sala de aula.

 

Ainda assim, inventamos cenários de aprendizagem baseados em aplicativos para dispositivos móveis, mas os currículos regulados pelos gestores das redes e o tempo escolar nem sempre são facilmente hackeados para incluir o novo. Além disso, em relação especificamente a esses dispositivos, sete estados da federação já legislam contra seu uso na sala de aula!

 

Em resumo, eu diria que estamos diante de um contexto pouco propício à mudança e isso nos faz parecer mais resistentes do que somos. Mas, acredito que temos uma saída, várias na verdade, e todas estão conectadas ao modo como lidamos com o segundo mito: a educação centrada no aluno.

 

Parece óbvio e totalmente aceitável que o aluno deva estar no centro dos processos de aprendizagem na escola. De fato, há base teórica sólida a legitimar essa ideia, em geral formulada no campo das teses construtivistas de desenvolvimento e validada por um sem número de modelos e práticas educacionais centradas no indivíduo. Penso, entretanto, baseando-me em teses formuladas no campo dos estudos sócio-históricos e do dialogismo, que há uma alternativa melhor articulada com a cultura de mídias autorais, distribuídas e compartilhadas desses mesmos alunos. Essa alternativa seria uma educação centrada na construção de relações entre alunos e professores.

 

Nesse sentido, a aproximação dos professores dos universos imaginados, criados, explorados, argumentados e refletidos pelos alunos reposicionaria ambos em relação aos processos de aprendizagem que realmente deveriam importar para a escola.

 

Mas, como começar a promover uma educação centrada nas relações professor-aluno? Imagine que nós professores nos transformássemos em “empreendedores” de nossas salas de aulas, realizando cada vez menos exposição de informações, a fim de liderar um movimento de engajamento dos alunos no tratamento de situações e problemas significativos.

 

Pensando assim toda a escola como um empreendimento (não uma empresa, embora as escolas das redes privadas também o sejam necessariamente), o professor seria como um CEO e sua sala de aula uma startup, ele ou ela liderando os alunos-colaboradores na criação e na conquista de objetivos específicos, fazendo uso dos recursos disponíveis a fim de desenvolver projetos baseados na resolução de problemas de interesse dos alunos e de relevância para o currículo, continuamente adaptados de modo a fazer sentido localmente, ao mesmo tempo que conectados com questões globais e conceitualmente mais abstratas.

 

Um reposicionamento assim dos atores na escola coloca centralidade na relação professor-aluno e, ao mesmo tempo, pode funcionar como gerador de inovação. Você já sabe por onde começar? No próximo texto falaremos sobre porque é preciso inovar, o que conta como inovação na escola e como começar!

 

Luciano Meira
professor de psicologia, UFPE
bolsista de desenvolvimento tecnológico, CNPq
chefe de ciência e inovação, JOY STREET

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