25/08/2020

Reflexões Fundamentais para a Universidade do Futuro (ou do presente)

Juliano Costa*

Definitivamente, a Universidade está em xeque. Ou melhor dizendo, o modelo universitário construído ao longo dos últimos 200 anos está em xeque. E a razão para os questionamentos a respeito do sentido e da função da Universidade hoje em relação ao futuro tem a ver com três temas fundamentais que foram, a seu tempo, os definidores da concepção de Ensino Superior no mundo: as Universidades como centros de preparação dos indivíduos para o mundo do trabalho, as Universidades como ambiente único e praticamente exclusivo da produção e da propagação do conhecimento científico e acadêmico e as Universidades como ambiente de desenvolvimento de habilidades fundamentais para praticamente todos os campos da sociedade – das Artes à Física.

Porém, como bem apontado por diversos pensadores contemporâneos (a exemplo de Zygmunt Bauman, com sua teoria de mundo líquido) e de renomadas publicações (a exemplo da Harvard Business Review, com as discussões e definições sobre o mundo V.U.C.A.) a segunda década do século XXI veio fortemente marcada por uma premissa que, na filosofia clássica, seria atribuída a Heráclito de Éfeso (540 a.C. – 470 a.C.): “tudo muda, tudo flui, o fluxo perpétuo é a principal característica da natureza”.

E o que isso implicou para as Universidades e o Ensino Superior como um todo? Ora, a fluidez do mundo líquido contemporâneo, a sua volatilidade (os fenômenos podem sair do controle por um tweet), incerteza (nenhum planejamento de 3 anos hoje sobrevive a mais de 12 meses), complexidade (infinitas variáveis dificultam imensamente a tomada de decisão) e ambiguidade (não existem mais verdades absolutas e até pontos de vista conflitantes podem coexistir no mesmo ambiente) fizeram com que todos os pilares em que os centros de ensino superior fossem balizados ficassem abalados.

ESTRUTURA ABALADA


A ideia de que as Universidades preparam os estudantes para o mundo do trabalho foi o primeiro pilar a ser atingido, pelo simples fato de que o mundo do trabalho foi completamente afetado pelo frenesi de desenvolvimento tecnológico dos últimos 20 anos. Não apenas na questão do desenvolvimento cada vez mais veloz de hardwares e softwares, mas pela entrada avassaladora de temas de ficção científica no dia-a-dia da sociedade: Inteligência Artificial, Machine Learning, Data Science, Data Mining, etc foram temas que deixaram o campo dos filmes de Ridley Scott e entraram no cotidiano dos jornais, das revistas populares e especialmente de programas de alta aderência social, como redes sociais, ferramentas de mensagens instantâneas, programas de
streaming e serviços de alimentação.

Isso demandou dos trabalhadores – em todos os níveis – inéditas e diferentes competências e habilidades que a Universidade não havia mapeado em sua formatação de preparação para o mundo do trabalho e para a empregabilidade como um todo. Letramento digital, inteligência socioemocional, cultura baseada em dados, pensamento ágil, mentalidade digital foram variadas competências que surgiram no ambiente comum de trabalho mas não permearam todos os cursos do Ensino Superior, ficando restrito – no melhor dos casos e de forma limitada – a cursos específicos ou centros de excelência ao redor do mundo.

Agora as Instituições de Ensino Superior buscam se mover para restaurar esse pilar. Instalam centros de pesquisa dentro dos campus para entender como implantar de forma transversal competências digitais, como operar a transformação digital de seus ambientes e como implantar a mentalidade de crescimento tanto no seu corpo docente quanto discente. A necessidade de reinvenção bate à porta e exige – tanto por questão de sobrevivência quanto de relevância – velocidade, sabendo ainda que o mercado de trabalho pode sofrer outra mudança rápida e a Universidade terá que responder na mesma velocidade.

O segundo pilar que gerou algum abalo foi a ideia de que as Universidades são os centros exclusivos de produção e propagação do conhecimento científico. Em grande medida isso continua sendo verdade (medicina, engenharia, biologia continuam sendo campos em que a Universidade é a autoridade), porém no que diz respeito aos temas relacionados à tecnologia e à programação em geral, ao empreendedorismo e à negócios, dentre outros, a sociedade se apropriou desse conhecimento e a criatividade somada à um conhecimento relativamente simples de linguagem informacional produziu ideias que romperam completamente os casulos e laboratórios universitários.


Em garagens espalhadas pelo mundo surgiram redes sociais que atingiram bilhões e faturam bilhões, programadores sem diploma se transformaram em funcionários estratégicos de grandes corporações mundiais e a ciência de dados avançou mais fora da Universidade do que dentro dela.

 

Além disso, a popularização e praticamente universalização da internet deu voz à pessoas que – sem qualquer embasamento acadêmico – se tornaram referência em modos de pensar, de agir, de se comportar e até mesmo de crer no mundo.

É claro que aqui não estamos operando juízos de valor. O fato de, como disse Humberto Eco, as “mídias sociais [terem dado] o direito à fala a legiões de imbecis” (discurso na Universidade de Turim em cerimônia de recebimento do título de doutor honoris causa) não altera o fato do tamanho da relevância que essas mídias tem na mentalidade e na ação coletiva, nas eleições gerais e no futuro da propaganda. Nesse sentido o processo de inovação espontâneo que nasceu na sociedade civil organizada, nas empresas privadas, nos institutos governamentais ou mesmo nos microempreendedores gerou questionamentos profundos se a Universidade continuava a ser o centro de excelência na produção e divulgação do conhecimento ou se ela estava cada vez mais “distante da realidade” e “fechada em seu próprio universo”.

Como será a universidade do futuro? Acesse o Braincast e confira o episódio que debate sobre como será o perfil das instituições de ensino superior em um cenário em que as pessoas precisam de uma educação que ocorra ao longo de toda a vida, de forma acessível (considerando o investimento pessoal de tempo e dinheiro que isso demanda) e com resultados eficazes para a empregabilidade.

 Como resposta à essa pressão as Instituições de Ensino Superior vêm tentando se reinventar: criando centros de pesquisa digitais e em mídias sociais, em diferentes áreas do conhecimento; buscando atrair grupos privados ou mesmo indivíduos específicos para participar de projetos interdisciplinares; ampliando sua presença digital para sair de suas fronteiras e atingir o público em geral com cursos livres e abertos; criando soluções de oferta de conhecimento em blocos menores – microcredenciais, microcertificações, diálogos com a sociedade civil – para entrar nesse cenário de oferta aberta de conhecimento e pluralizar o consumo da sua produção acadêmica.


NOVAS COMPETÊNCIAS 

 

Finalmente, para além do conjunto de funções explícitas que as Universidades possuem e são reconhecidas socialmente – preparação para o mundo do trabalho e produção acadêmico-científica – um tema mais específico tem pressionado muito os programas curriculares e as práticas pedagógicas do ensino superior: as competências e habilidades necessárias ao exercício das “profissões do futuro” que já estão surgindo no mercado mas ainda não encontram eco dentro das Universidades como linha de formação profissional e humana.

Essas competências são definidas em diferentes categorias e processos: soft skills, practical skills, functional skills – diferentemente das competências cognitivas conhecidas como hard skills – fazem parte desse novo portfólio que tem surgido como necessidade curricular e formativa e também processos mais ágeis de produção do conhecimento e criação de soluções, tais como metodologias ágeis, modelos de aprendizagem ativa e colaborativa, processos estruturados de desenvolvimento criativo, velocidade, mudança de mindset, todos com nomes conhecidos e facilmente identificáveis no mercado: design thinking, scrum, XP, canvas, kanban e tantos outros criados fora da academia.

A aparente dificuldade que o Ensino Superior vem percebendo é a de como incluir essas novas competências e processos nos currículos dos seus cursos tradicionais (geralmente focados em hard skills), sem comprometer a qualidade científica e acadêmica dos processos formativos, ao mesmo tempo em que dá celeridade e visibilidade à importância do equilíbrio de entregar à sociedade profissionais de diversas áreas que dominem a ciência necessária ao exercício da profissão e atividade social, junto às habilidades que promovam inovação de impacto e humanamente melhor do que antes da entrada no ambiente acadêmico. Um desafio enorme dada a estrutura e organização que a Universidade tomou ao longo dos últimos dois séculos. A pesquisa da Pearson “The Future of Skills” trata bem disso e é uma leitura fundamental para quem quiser se aprofundar no assunto.

O que percebemos como movimento do Ensino Superior no sentido de incorporação dessas novas competências e habilidades bem como adoção de metodologias ágeis para pesquisa e desenvolvimento é que algumas áreas do conhecimento têm tido mais sucesso em transformar seus modelos curriculares e práticas pedagógicas (comunicação, marketing, tecnologia da informação) enquanto outras áreas têm resistido de forma mais intensa a incorporar esse cenário à seus programas, por diversos motivos. De qualquer maneira não imaginamos que seja possível qualquer profissional do futuro que não tenha alguns aspectos dessas habilidades em seu currículo e na sua formação profissional, como parte central, transversal ou paralela à sua formação para o mundo do trabalho.

Nossa conclusão aqui após essa breve exposição é que definitivamente o Ensino Superior precisa se reinventar num curto prazo e ofertar à sociedade uma percepção de valor que vá além do seu já reconhecido valor científico e acadêmico, tanto no campo curricular, quanto no campo da empregabilidade e do valor social que o sujeito pode trazer à sociedade após a sua passagem pela Universidade.

A Universidade do presente precisa se tornar a Universidade do Amanhã, hoje.

 

 

*Juliano Costa é Vice-presidente de produtos educacionais da Pearson Latam. 

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