17/03/2021

Professor de tecnologia ou professor tecnológico?

Por: Eduardo Devai

 

Qual a diferença entre um professor de tecnologia, um professor tecnológico e um professor que usa tecnologia? Dizer que a pandemia mudou tudo é um eufemismo. Realmente, já percebemos que nada será igual. Mas será que todos mudaremos na mesma direção? Usar tecnologia não se resume a enviar e-mails ou elaborar uma aula em uma apresentação de Slides ou Powerpoint.

A introdução da tecnologia na Educação provocou uma reestruturação da prática pedagógica que desencadeou uma dissonância entre o tradicionalismo, que ainda permeia nossas salas, escolas e aulas, a falta de infraestrutura presente em muitas escolas – não só das redes públicas de ensino – e da inovação frenética, muitas vezes mal guiada. O uso de termos como ensino híbrido, metodologias ativas, ensino remoto, atividades não-presenciais, roteiros de aprendizagem etc. se tornaram comuns no vocabulário dos professores – sejam eles da rede pública e privada.

Drives, compartilhamento, faça o upload, QR Codes, URL, botão direito… a lista de termos novos se misturou aos problemas: “a rede está instável”, “meu computador não liga”, “por que não carrega?”, “eu juro que mandei”, “por que não tá aparecendo?” etc. É nesse contexto que surgem os diferentes perfis profissionais que compõem atualmente o ambiente escolar.

No momento temos que usar tecnologia. Isso não é mais uma alternativa. Sejam os grupos de comunicação – Whatsapp da vida – ou pelas inacabáveis aulas e reuniões via Meet, não podemos mais fugir. Seremos, se já não somos, todos professores usuários de tecnologia. Qual será o uso pedagógico dessas novas ferramentas?

Qual palavra redefine o professor neste novo contexto? Essa escolha deve refletir também o papel da sua relação com a tecnologia – já que a simbiose está consolidada. Sempre ouvimos que o professor será um mediador entre o aluno e o conhecimento. Mais que isso: seremos mediadores do aluno, do conhecimento e das tecnologias. O malabar destas três instâncias é o que caracteriza um professor tecnológico.

Utilizar novas estratégias não significa estar sempre introduzindo novos aplicativos ou plataformas, mas pensando em estratégias com meios já consolidados ao mesmo tempo que introduzimos novas ferramentas aos alunos e professores. Uma palavra que muito me atrai na definição do novo papel do professor é a de curador. Define-se: aquele que cura; cuida. Um curador é alguém que seleciona. Que escolhe.

Talvez o desafio recaia sobre o professor de tecnologia de uma forma completamente diferente. Eu tento ensinar Geografia e História. Você ensina Matemática ou Português. No nosso dia-a-dia encontramos nos nossos alunos enormes defasagens dos conteúdos específicos das nossas disciplinas. Os professores de tecnologia também. Apesar da popularização do uso de redes sociais e aplicativos diversos, o uso pleno e democrático das tecnologias é algo distante do que esperamos. Desenvolver conceitos como cidadania digital, fake news e o combate ao cyberbullying não pode se separar de procedimentos como enviar um email, reconhecer um vírus ou converter um arquivo.

Recentemente, professores na E.E. Professor Norival Vieira da Silva, da cidade de Ourinhos (SP), tem tido contato com a ferramenta Google Forms. Como toda novidade, o desafio tem produzido uma miríade de reações. Qual será o melhor uso para essa ferramenta? Em encontro de pares verificamos que ao incrementarmos nossos formulários com imagens, textos fracionados em diferentes formatos, gráficos, tabelas e mapas, tivemos um retorno mais consistente de acertos do que nos quais só foram dados os exercícios.

O professor – seja ele de humanas, exatas ou linguagens – pode incorporar esses elementos com o intuito de aumentar a quantidade de elementos que mediaram o aluno com a questão e habilidade proposta. Ao usarmos elementos não-verbais na nossa aula, permitimos o aprendizado de alunos com maior defasagem de letramento e aos poucos contribuímos para o nivelamento dos alunos.

Podemos transformar nosso Forms em um museu; em um jardim botânico; um laboratório de química; até um jogo que ensina sobre o Antigo Regime. Aumentando a nossa curadoria de opções ofertadas aos alunos, reduzimos a necessidade do aluno mergulhar sozinho numa rede interminável de informações muitas vezes desconexas. Orientamos o aluno a uma trilha de conhecimento que pode ser organizada pelas diferentes secções criadas dentro do Forms.

Está bem, mas e o aluno sem acesso às atividades em casa? E o aluno que nunca fez uma atividade via Google Forms? Como estamos trabalhando em sistema de rodízio e o total de alunos é reduzido, podemos apresentar os roteiros de atividade um por um para os alunos, familiarizando-os com o ambiente. Vale destacar nesse ponto a necessidade de comandas precisas, que evitem confundir o aluno. Outra vantagem é que o Google Forms permite imprimir as atividades no mesmo molde que foram elaboradas.

Curiosamente, trata-se de uma ferramenta relativamente antiga e de uso comum, mas que aliada à uma boa mediação de conteúdos e uma colherada de criatividade permite produzir bons resultados pedagógicos.

 

Eduardo Devai é professor coordenador de área em Ciências Humanas na Escola Estadual Norival Vieira da Silva.

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