15/07/2021

Geração C: quem são e pra onde vão

Por: Sérgio Campelo

Toda estigmatização é perigosa, mas essa fase pandêmica deixará marcas indeléveis nessa geração que no futuro levará consigo as experiências desse período e as lacunas deixadas pela perda do aprendizado dentro das salas de aulas, junto com seus colegas e seus professores.

Vamos tentar aqui falar apenas dos aspectos que podem ser positivos desse período, porque negativos nós temos vários. Segundo pesquisa encomenda pela Fundação Lemann ao Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados para o Brasil e a África Lusófona, vinculada à Fundação Getúlio Vargas, os alunos do ensino fundamental serão os mais prejudicados pela pandemia, principalmente os mais pobres e os que habitam as regiões norte e nordeste, pardos, negros e indígenas, com mães que não finalizaram o ensino fundamental. Além disso, em um cenário mais negativo, estima-se uma perda equivalente ao retorno à proficiência brasileira que atingimos no Saeb há quatro anos, nos anos finais do ensino fundamental.

Mas quem é a chamada, pejorativamente e de forma irresponsável, geração C? São as crianças que vivenciaram a covid19, e levarão suas cicatrizes para o futuro. Pejorativo, o termo deprecia uma geração que  já está sofrendo os males do período pandêmico e, tratando apenas das crianças brasileiras, também sofrem com o descaso de um governo que não prioriza a formação educacional e nem o conhecimento científico. A categorização C é irresponsável pois é uma delimitação desrespeitosa para com as crianças, que, além de passarem por todos esses males, podem ser estigmatizadas no futuro pelo período por suas dificuldades e carências nos próximos anos.

E será que podemos incluir todas as crianças de forma uniforme dentro dessa geração? Será que as crianças que estudam nos colégios privados com grande apoio educacional e emocional podem ser colocadas junto às crianças mais pobres, largadas à própria sorte pelo governo federal apesar do esforço hercúleo de alguns poderes estaduais e municipais? Onde estão todas essas crianças mais pobres da educação pública, seja nas grandes capitais ou nos grandes rincões espalhados pelo país?

Alinho aqui na sequência a segunda pergunta: para onde vão essas crianças? Depende de como iremos tratá-las. Como descrito nos parágrafos anteriores, as crianças mais pobres, nessa pandemia, estão fora das escolas, e muitas sem telas, sem internet, sem conexões, enfim, sem a devida estrutura física para que consiga desenvolver suas atividades escolares. Onde elas estão? E se não sabemos onde elas estão, como saberemos para onde elas irão?

É urgente retomar o caminho do aprendizado escolar para nossas crianças,  e reafirmo a frase “a escola deveria ser a última a fechar e a primeira a abrir”. Sabemos que essa pandemia nos trouxe desafios e problemas que não são fáceis de resolver, mas torna-se fundamental que todos nós, responsáveis pelo futuro dessas crianças, nos unamos na cobrança de ações efetivas por parte dos gestores públicos, seja para a rápida vacinação dos professores e na estrutura adequada para o retorno das crianças às salas de aula, amenizando, assim, o estrago sem precedentes para a educação infantil e fundamental brasileira.

Sérgio Campelo é professor e Especialista em Comunicação pela ECA/USP.

Colaboração

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