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10/05/2019

A empatia é um exercício que liberta

Rosemari Glowacki

Começo esse texto citando Charles Hadji:

“Pensar ou (re)pensar a educação implica em acreditar na possibilidade de todos sermos educáveis; e, além disso,  acreditar na intervenção educativa. “É por ser inacabado que o ser humano é imediatamente educável (…) Falar de educabilidade é insistir sobre a necessidade da intervenção humana para o desenvolvimento do sujeito”. (HADJI. 2001. P. 3).

Somos educáveis, a intervenção positiva é possível. Mesmo neste cenário que acompanha a sociedade contemporânea de aceleração, ansiedade, depressão e transformações, a sociedade moderna vem sofrendo alterações em sua estrutura em altíssima velocidade. As escolas têm tentado acompanhar todas essas alterações e recebem diariamente cobranças em relação à formação de alunos-cidadãos cada vez mais críticos e atuantes.

Mais uma vez, as instituições escolares estão refletindo a dicotomia teoria X prática. Isso vem acontecendo de forma lenta. Para que as mudanças que tanto almejamos se concretizem, é preciso acelerar esse processo.

Na Dinamarca, por exemplo, país referência em educação infantil, e também um dos lugares onde as pessoas são mais felizes pelo “World Hapiness Report 2016” (“Relatório da felicidade no mundo 2016”, em tradução livre), a empatia é tema central discutido com os alunos ao longo dos anos na escola.

No sistema dinamarquês de ensino, “aprender” empatia é algo tão importante quanto aprender matemática ou literatura. Os currículos das escolas são construídos de tal forma a incorporá-la como uma disciplina fixa e estruturada. Porém, apesar da relevância do tema, levar a empatia para as escolas brasileiras ainda é um desafio.

Talvez esse desafio se imponha pela urgência de o próprio professor desenvolver tais habilidades sociais. Tornar-se o protagonista das mudanças necessárias é um grande desafio para os educadores. Anita Abed é uma psicóloga que há anos atua no Brasil com o desenvolvimento de pessoas e realiza trabalhos que buscam alinhar o aspecto emocional ao processo de aprendizagem.  Seus artigos e trabalhos buscam uma nova forma de inspirar professores e alunos. Além dela, outros tantos têm contribuído.

A literatura que estuda essas interfaces da aprendizagem X teoria X prática é bastante significativa. Temos muitos outros autores trabalhando o tema, como Henri Wallon, Edgar Moran, Anita Abed,  Zilda Del Prette, Almir Del Prette,  Anita Nowak,  Howard Gardner, dentre muitos outros.

Mas é preciso que a comunidade escolar discuta o tema, estude e mantenha-se atualizada. É urgente que o discurso da impotência seja substituído por falas enformadas de novas teorias, pelo discurso da esperança. Mais que isso: é preciso sentir! Sim, leitor (a), sentir! Porque empatia primeiro se sente! Trata-se de um exercício.

Ainda segundo ABED (2014):

“Infelizmente, as instituições de educação formal, no Brasil e no mundo, não vêm acompanhando esse ritmo alucinado de transformações. A escola como “a instituição responsável por transmitir conteúdos” não cabe nesse contexto, os paradigmas que sustentam a ação educativa precisam se adequar aos novos tempos e aos novos estudantes que as escolas recebem dentro de seus muros. (…) Conclusão: não há como preparar as crianças e jovens para enfrentar os desafios do século XXI sem investir no desenvolvimento de habilidades para selecionar e processar informações, tomar decisões, trabalhar em equipe, resolver problemas, lidar com as emoções…”.

(Re)pensar a educação e as relações é outro tema explorado por Morin (2003), em Os sete saberes necessários à educação do futuro.

“O “chão da escola” precisa se transformar, mas é certo que nenhuma mudança será viável se os professores não tiverem o suporte necessário para assumir o papel de protagonistas privilegiados deste enredo, o que não é tarefa fácil, nem simples. Afinal, somos “seres do nosso tempo”, a maior parte dos educadores de hoje vivenciou uma escolarização tradicional, muitas vezes mecânica e esvaziada de sentidos. Ser “autor de mudanças” exige dos professores o desenvolvimento de suas próprias habilidades. Estes, para tanto, precisam que os gestores da escola cumpram seu papel na valorização, formação e apoio da equipe docente (…)”. (ABED, 2014, p. 8)

Sabemos que novas ideias podem transformar vidas. E a escola é um agente capaz de promover essas transformações, já que curiosidade e determinação são qualidades que podem, sim, ser ensinadas.  Chegou o tempo de ensinar também em nossas escolas a persistência, o autocontrole e empatia. Essa última, uma das mais impactantes habilidades.

Ampliar a fronteira de ação e auxiliar o professor a desenvolver a empatia parece ser o caminho para que nossos (as)  estudantes aprendam sobre essa prática. Somos seres sociais, exemplo e treino são benéficos para o desenvolvimento atitudinal.

“A empatia é a força mais poderosamente perturbadora do mundo, só fica atrás do amor”.

A frase é da professora e pesquisadora canadense da Universidade de Michigan Anita Nowack. Para ela, que pesquisa este sentimento, a empatia é a chave para a sobrevivência da raça humana.

Vivemos tempos de intolerância e falar sobre empatia e como o exercício de nos colocar no lugar do outro nos fortalece é libertador. Tal comportamento evitaria muitos problemas vividos na escola: bullying e depressão são alguns. Apesar de sermos seres cheio de falhas, podemos ter a tendência a simpatizar apenas com aqueles que se parecem conosco, ou pensam como nós. Os demais não inspiram nossa empatia.

Libertar-se desse padrão mental é algo que precisa de fato acontecer. Só assim veremos  reflexo na sala de aula e próximas gerações. É incrível o poder do professor, mais incrível ainda que ele não se empodere nesse sentido. O estudante nem sempre respeita a fala do seu mestre, porém seu exemplo constrange, inspira.

Ou pensamos empaticamente, ou a violência, a intolerância e o bullying ganharão força. Sem gastar um segundo imaginando como o outro se sente, suas experiências ruins da infância, os problemas pelos quais passou e sem respeitar sua história não avançaremos. O que precisa ficar claro é que não há verdade absoluta e que toda questão tem no mínimo duas versões, dois pontos de vista. “Se aprendemos a simpatizar melhor uns com os outros, poderíamos conseguir a paz”, afirma ainda Novak.

É preciso agir, só sentir empatia não é suficiente.

Leitor(a), vamos para a maior academia do mundo chamada vida, praticar esse exercício libertador?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem. São Paulo: 2014. BARNETT, M. A. Empatía e respuestas afines en los niños. En N. Eisenberg & J. Strayer (Orgs.), La empatia y su desarrollo (pp. 163-179). Bilbao: Desclée de Brower. 2008. BOEMER, M. R. Empathy — a phenomenological approach. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, 1984. CABALO, V.E. El papel de las habilidades em el desarrollo del las relaciones interpessoales. SP: ARBytes, 1997. Del Prette, A. & Del Prette, Z. A. P. (2013). Habilidades sociais, desenvolvimento e aprendizagem: questões conceituais, avaliação e intervenção. São Paulo: Alínea. MORENO , J. L. Fondements de la sociometrie. Boulevard, Presses Universitaires de France, 1970. Psicodrama. 3 ed. Buenos Aires, Ediciones Horme S.A.E., 1974. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003. PORVIR (Desenvolvido em parceria com o Instituto Ayrton Senna). Especial Socioemocionais. Disponível em: <http://porvir.org/especiais/socioemocionais/>. Acesso em: 31 junho. 2018. UNESCO. Educação: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI.

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