18/09/2020

Educador Social: um pouco da minha trajetória

Professor conta experiências com o projeto Aula Pública

Por Paulo Magalhães*

Para ser um educador social, precisamos nos reinventar e utilizar ferramentas pedagógicas para intervir nas problemáticas dos indivíduos que visam a promoção e a integração social de pessoas em situação de risco. No caso, na Região do Glicério, onde residem meus alunos, pais e toda a comunidade dessa região tão vulnerável.

Estive depois de cinco meses no Glicério, com Cristiane Paião, editora da Globo News, para uma matéria jornalística para a TV e Maria Lucia, aluna da EJA (Escola de Jovens e Adultos)  e avó de dois alunos nossos. A visita tinha o objetivo de uma matéria em que fui convidado para falar sobre as aulas remotas e o território. Quando cheguei me deparei com uma terra arrasada posso dizer, encontrei um bairro desconfigurado pelo que havia deixado antes da pandemia do Covid -19.

Muitos imigrantes nas ruas sem seus equipamentos de segurança, como máscaras e crianças correndo de um lado a outro. Fui andar pela região para me certificar o porquê dos alunos não estarem utilizando os meios digitais para acessar suas aulas online. Encontrei alguns alunos que havia trabalhado com eles em sala de aula, apenas nos meses de fevereiro e março. Muitos não me reconheciam, apenas por nome quando solicitava os conteúdos via online. Muitos já haviam crescido nesse meio tempo, crianças crescem rápido.

Muito comércios fechados e alguns moradores me solicitavam cestas básicas, principalmente os adultos da EJA, além da derrubada de casas centenárias na Vila Suíça para construção de prédios, assim como nas ruas adjacentes, Rua dos Estudantes e Conde de Sarzedas, terei que reconstruir minhas relações no território, pós-pandemia.

Paulo Freire, um lutador incansável da luta diária contra o apagamento do indivíduo nos territórios e na erradicação do analfabetismo, seguimos sua luta!

RECONSTRUÇÃO

Estaremos prontos para reconstruir o território e as relações que foram apagadas por essa pandemia, que deixou algumas vítimas no Glicério. Cheguei em casa arrasado depois dessa visita, chorei e me fortaleci pelas vidas dessas crianças, adolescentes e adultos. Me vi sem esperança, por tantos problemas que o nosso país e humanidade atravessa, mas não posso desistir preciso continuar a resgatar essas pessoas carentes e vulneráveis do Glicério, onde se encontra nossa escola.

E, como educador, os motivos que me levaram a realizar o projeto da “Aula Pública” foi acreditar no serviço público, ter a certeza de que podemos aprimorar o atendimento aos nossos alunos e acreditar que a transformação se passa pela educação. Há mais de vinte e cinco anos, tenho me posicionado e lutado pela melhoria da escola pública, sempre tendo como base o pensamento de Paulo Freire, e enxerguei na Aula Pública uma forma de apropriação do espaço que abre a brecha para que as crianças e adolescentes se reconheçam como sujeitos ativos no processo histórico. A Aula Pública é uma forma de resistência contra as tentativas de apagamento da história e dos moradores do Glicério.   

“Nas condições de verdadeira aprendizagem, os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo”. Percebi desde o primeiro dia que entrei em sala de aula, que poderia contribuir para melhorar a sociedade e fazê-la acreditar que o caminho da mudança está atrelado à educação. Ao mesmo tempo, e desde muitos anos, a violência urbana tem sido a tônica do bairro do Glicério, na região central de São Paulo, e que possui um quadro social devastador de famílias que fogem à estrutura nuclear tradicional e por isso são denominadas desestruturadas, além da situação de vulnerabilidade em que se encontram.

A maioria dos alunos da escola municipal de ensino fundamental do bairro (a EMEF Duque de Caxias) reside ou possui parentes que moram em pensões, abrigos, cortiços ou vivem em situação de risco, morando embaixo de viadutos. Foi exatamente nesse contexto de perceber no Glicério a ausência do poder público e, por conseguinte, a carência de políticas públicas, e uma comunidade calejada pela violência, esquecida de seus direitos e deveres constitucionais, demos o pontapé inicial na relevante tarefa de sair da sala de aula. Essa mudança de espaço teve como objetivo fazer com que os alunos pudessem se reconhecer na e junto à comunidade, de modo a construir uma consciência coletiva do que ali estava estabelecido, e do que poderia ser melhorado e preservado para que o espaço público fosse devidamente apropriado por eles.

A questão trazia à tona o papel do indivíduo na sociedade, ou melhor, que papel o aluno pode ter ou deveria exercer na sociedade? Uma emergência estava posta: oferecer ao aluno a voz dos sujeitos históricos que fazem a história acontecer no cotidiano das realidades em que estão inseridos, uma aprendizagem que seria processual e persistente com visitas pelo bairro e por espaços públicos da cidade que deveria vê-los como cidadãos de fato. Assim, através da Aula Pública, tornou-se possível contribuir de forma mais eficaz para a formação intelectual e cidadã dos alunos, incentivando a compreensão e o entendimento de questões políticas da sociedade brasileira a partir de dados da sua região. Este projeto, na medida do possível, tem contribuído para formar líderes, desdobrando-se na vertente do objetivo inicial: compreender e fortalecer o processo de transformação do espaço e sua real ocupação, além de melhorar os índices de aproveitamento escolar.

Tudo começou em 2010, quando cheguei à EMEF Duque de Caxias e resolvi enfrentar os novos desafios nessa escola – dou aulas na disciplina de geografia, no ciclos I aulas compartilhadas (4º e 5º anos) e no ciclo II  (6º anos ao 9º anos), além de aulas na EJA – Escola de Jovens e Adultos. 

Vivenciei na época todo tipo de agressão dos alunos, os professores eram arredios e não permitiam trocas de ideias. Direção transitória, coordenação nova e eu professor recém-chegado: um labirinto para desvendar. Na primeira semana, fui apresentado à coordenadora pedagógica Andrea Mattos, que me perguntou se eu não queria encabeçar um projeto com uma exposição educativa chamada “A cidade esconde o rio: a história da várzea do Tamanduateí”, seria uma parceria entre a escola, a Fundação Energia e Saneamento e a Diretoria Regional de Educação Ipiranga da Prefeitura Municipal de São Paulo. A partir desse projeto, teria que começar a vasculhar o território. 

A própria comunidade não olhava com bons olhos nossos alunos fotografando o bairro ou algum aluno tentando entrevistar moradores. Às vezes, ouvíamos na rua pessoas em rodinha perguntando “quem é esse cara?”. Mas a relevância de sair da sala de aula fez com que nossos alunos reconhecessem a importância de preservar o espaço público e de reconhecer, através dele, o seu papel na sociedade. Já nessas primeiras visitas, foi possível contribuir para a sua formação intelectual e cidadã e incentivar a compreensão e o entendimento tanto de questões políticas da sociedade brasileira quanto da região. 

Naquela época, moradores e trabalhadores do Glicério não entendiam o que a gente estava fazendo, não deixavam tirar fotos, nem se dispunham a contar histórias. Foi apenas em 2016, ano do surgimento do Aula Pública, que o bairro que não estava preparado para receber os estudantes em seus espaços públicos mostrou-se receptivo ao trabalho. Atualmente, estamos quebrando uma armadura muito grande, pois a população não só está mais receptiva a tudo isso como também ajuda a promover a Aula Pública, hoje reconhecida tanto dentro quanto fora da escola, além de incorporar a disciplina de geografia em todos os cantos do bairro. Começamos vasculhando o território timidamente e sabíamos também dos riscos: a região apresenta altos índices de violência, com destaque para roubos e tráfico de drogas. 

Desde o primeiro instante, percebi que minha atuação como professor teria de ser eficaz para ser transformadora. Assim, instigar no público-alvo o desejo de mudar os baixos índices de qualidade de vida precisaria ser iniciado na base, ou seja, na comunidade. A metodologia usada não poderia ser nos moldes tradicionais. Como não havia um modelo definido, criei um formato que abordasse as circunstâncias da realidade, um ideal de existência humana e alcance de resultados a curto, médio e longo prazos. Foi assim que os sete passos do projeto Aula Pública se tornaram realidade:

1) preparação de materiais (trabalho prévio e busca de conteúdos formativos) e sua logística no território (rede de proteção formada por pais, professores e amigos da escola);

2) pacto com os estudantes (somos parte de um processo na construção de uma sociedade inclusiva);

3) parcerias com a comunidade (estreitamento de laços entre os professores, gestão e vínculos com a comunidade);

4)
envolvimento da comunidade escolar nas aulas (os saberes produzidos partem da realidade objetiva, sendo o conhecimento prévio dos envolvidos o gancho para a produção do conhecimento cognitivo);

5)
articulação da aula com o currículo (utilizar a autonomia que o currículo oferece e produzir a aula de modo a aproximá-la da real conjuntura social);

6)
coragem e humildade (ousar e aprender constantemente, rever e refazer a partir dos erros se necessário, motivar e ser motivado pelos saberes populares);

7)
registro do percurso (registrar os acontecimentos de maneira que se tornem fontes históricas – escritas ou não – criando uma memória de relatos é fundamental para as futuras gerações).

Os temas das aulas podem ser variados: cartografia, ocupação insalubre, moradia, imigração, preconceito, paisagem local, história do bairro etc. Diante desse quadro sui generis, no processo de debate com os estudantes, há aprendizagem sobre habitação, diferenças étnico-raciais e étnico-culturais, imigração e seus impactos culturais, processos migratórios no Brasil, dinâmica populacional, desigualdades sociais, instâncias do poder público e canais de participação social, o que revelou o ponto nevrálgico que fomenta soluções imediatas. 

Nessas atividades, utilizamos textos formativos, mapas, fotos, desenhos, cartazes, maquetes em caixas de sapatos. Durante o projeto, trabalhamos as aulas teóricas com vídeos das visitas ao bairro e principalmente um vídeo feito pela TV Cultura sobre nossa Aula Pública, que falava sobre a questão dos imigrantes no bairro e relatos de alunos sobre a moradia no Glicério e seu impacto na paisagem, assim como a relação do brincar com o morar. 

Se o objetivo central do projeto era que os alunos e participantes conhecessem a história e o desenvolvimento local e, com isso, pudessem se reconhecer no processo histórico, acreditamos que a meta foi alcançada e foi um pouco além, uma vez que a Aula Pública cria laços significativos com a comunidade ao conectar o bairro com a escola, impactando diretamente para a redução da violência urbana. Um dos êxitos do projeto também se traduz na voz ensurdecedora da comunidade que passa a ser ouvida no processo de escuta de suas perdas e conquistas ao longo do tempo e como a escola pode mediar esses contraditórios. Portanto, ressaltar a cidadania e a história da cidade de São Paulo e de seus bairros é fundamental nesse processo de dar voz aos sujeitos anônimos que fazem a história a partir de seu cotidiano.

Conseguimos sensibilizar os alunos, os professores, a gestão da escola e a comunidade do Glicério de que a transformação passa pelo direito à cidadania. Ocupar o espaço com uma aula pública e discutir os problemas da comunidade revitaliza as ações e fortalece o processo educacional. Transformamos o Glicério, um bairro degradado, com ações educativas simples. As crianças voltaram a usar a bicicleta e a bola no bairro – o que pode ser visto como um detalhe simplório, mas há alguns anos isso não acontecia. Uma moradora relata que uma das ruas era ocupada por pessoas que consumiam drogas e hoje está sendo ocupada por crianças e professores da EMEF Duque de Caxias. Há uma conquista de espaço, e disso não restam dúvidas. 

Queremos conscientizar sobre a importância da educação e orientar as pessoas para que percebam que precisamos desconstruir no Brasil a lamentável capacidade histórica de negar o direito ao saber. 

O projeto Aula Pública tem se renovado sistematicamente e vem acompanhando a trajetória de alguns alunos, com a clareza de que atravessar os muros da escola é um dos possíveis caminhos promissores para o debate que se impõe nas sociedades do mundo atual: qual o papel da escola no processo de transformação imposto pelo social e como a ocupação do território urbano pelos estudantes pode mudar as realidades de forma propositiva? Não por acaso, decorrente desse projeto criamos na comunidade do Glicério uma interligação escola-aluno, este último antes visto como sujeito desprovido de conhecimento, desconhecedor de seus direitos e deveres passa a ser percebido atuante em vários campos formativos e representativos. Isso não ocorreu em um passe de mágica, cabendo ao projeto a responsabilidade de ter gerado na comunidade, especialmente nos estudantes, um aprendizado constante sobre a cidade, além de oportunizar às pessoas que visitam o bairro nos finais de semana contribuir para a construção do conhecimento.  

Sinto orgulho e percebo que saímos da zona de conforto e conseguimos sensibilizar a todos com essas ações. Ocupando os espaços por meio de uma aula pública, revitalizando as ações e fortalecendo o processo educacional. Fica o legado de que ocupar cada vez mais uma região insalubre como o Glicério ou um centro urbano com ações inovadoras pode tornar possível a sensibilização da comunidade, abrindo a escola para recebê-la com ações voltadas à recuperação da cidadania e projetos diferenciados que possam acolher a todos indistintamente de suas nacionalidades. 

Por último, a relação com a cultura é um dos pilares do projeto. Quando defendemos ir além dos muros da escola, queremos garantir uma aula sobre a preservação do patrimônio material e imaterial e da história do bairro, afirmando o direito à cultura e à liberdade. A necessidade de ver uma sociedade mais justa e que possa ser respeitada. Meu interesse como professor é transformar a região do Glicério em um bairro educador, onde a violência urbana dê lugar ao aprendizado nas ruas. As crianças que estou formando estão ganhando estímulos para andar em museus, salas de exposições, conhecer e reconhecer o seu bairro.

*Paulo Magalhães é professor de geografia e responsável pelas aulas públicas na região da Glicério, no bairro da Liberdade/SP. 

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