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03/10/2019

Educação para as mídias: O discurso de ódio e a liberdade de expressão na sala de aula

Há um paradoxo contemporâneo: ao mesmo tempo em que se prega valores democráticos tão caros como a liberdade de expressão, o discurso de ódio vem ampliando seu lugar de forma gratuita por não aceitar opiniões divergentes que, muitas vezes, ganham proporções violentas, virtual ou fisicamente. Nesse retrocesso, percebe-se implicações óbvias: a fragilidade da democracia e intensificação da desinformação. E como os alunos têm se comportado diante disso? Será que estão imunes aos riscos que a desinformação e o ódio podem trazer?

Vale destacar que a expressão de nossas ideias é uma virtude presente na Declaração Universal dos Direitos Humanos, além de ser garantida pela Constituição de 1988, como um poder fundamental que não pode ser alterado. E, mais recentemente, em 2014, ela passou a constar na lei que regula o uso da internet, o Marco Civil (Lei n°12.965/2014), no qual assegura entre diversos direitos e deveres, no artigo 19, que “todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. O artigo garante que para um conteúdo ser retirado da internet não basta haver contestação, contudo é preciso recorrer ao sistema judiciário, seguindo, assim, o princípio de liberdade de produção, acesso e compartilhamento da informação.

Não por falta de leis, no entanto na prática, nos esbarramos em(im)posturas que denotam o desrespeito ao direito do outro se pronunciar. A informação deve e precisa ser percebida como um valor. Afinal, como formar juízos, ideias para que possamos tomar decisões que protejam e melhorem a vida dos alunos, da família, da comunidade e que nos lance ao futuro?

Após décadas de lutas de gerações a favor da liberdade de expressão, não cabe a ingenuidade em acreditar que a liberdade de expressão é a qualquer preço. Ela é um bem inalienável, porém é preciso calcular as consequências de palavras, carregadas de sentidos, que podem devastar a autoestima, a moral e a vida de alguém. É um crime com vários níveis: de uma simples opinião mal colocada, ao bullying, à perseguição etc. Isso tem que ser mais debatido na sala de aula para ampliar a consciência e para que os estudantes possam se proteger e se tornarem mais colaborativos.

Não dá para ignorar essa temática no ambiente escolar, seja nas reuniões com os docentes ou durante as aulas. Ignorar essa discussão, num contexto que se supõe a formação para práticas sociais, é igual a fingirmos que não percebemos os smartphones ou tablets nas mãos das crianças. Parafraseando Mc Luhan, um crítico literário do início do século XX: as mídias são extensões do corpo dos jovens. E essa extensão não é apenas física (o celular que vive na mão), mas também há uma expansão do espaço social (virtual e não físico) onde se implicam benefícios (espaço de direito à informação, novas formas de aprendizagem, ampliação do tempo, entre outros) e os riscos (da desinformação e consequente perda da democracia) . É necessário educar para essas mídias e para esses novos espaços levantando outras questões fundamentais como: a era da pós verdade, discurso de ódio e liberdade de expressão, fake news e desinformação, o funcionamento e papel da imprensa; a importância da análise dos vários lados dos fatos, das vozes sociais implicadas e o que a democracia tem a ver com tudo isso.

A escola não depende de equipamentos de ponta para poder trazer a pauta sobre o comportamento diante das redes sociais, por exemplo. Até porque ter uma superestrutura tecnológica a serviço da educação não garante eficácia, nem significa que a escola esteja antenada com o mundo. A instituição de ponta é aquela que, além do mínimo de suporte tecnológico, cria estratégias que elevem as questões vividas pelos jovens em sua rotina para prepará-los a fazer escolhas; é a que educa para o contexto multimidiático e multimodal, para a modernidade – ou pós-modernidade.

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) encara a tecnologia como uma competência que deve atravessar todo o currículo como estratégia de ensino. A educadora e colunista Débora Garofalo acrescenta que “a proposta é trabalhar como uma intervenção social que contextualize o uso da tecnologia ao conteúdo aplicado, desenvolvendo essa que é uma das dez competências gerais citadas pelo documento”. Como competência geral da educação básica o documento defende que: “Utilizar tecnologias digitais de comunicação e informação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas do cotidiano (incluindo as escolares) ao comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos e resolver problemas.”

Ou pela BNCC ou pelo compromisso ético com a informação, com a democracia do presente e do futuro, convido os professores a buscar mais informações sobre o assunto para ver como inserir essas temáticas nos planos de aulas que já estão elaborados!

Referências e sugestões:

A BNCC: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/

Indicação de curso gratuito sobre Educação midiática:

https://vanzolini.org.br/noticia/fundacao-vanzolini-e-palavra-aberta-lancam-curso-sobre-educacao-midiatica/ Sobre Mc Luhan: https://pt.wikipedia.org/wiki/Marshall_McLuhan

Mais sobre Débora Garofalo:

Como a BNCC prevê o uso das tecnologias na sua disciplina?

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