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17/09/2019

Dúvidas entre realidades

Por Eduardo Devai

Será que meu aluno da escola pública consegue os mesmos resultados da escola particular? Duvido. Mas será? Esse incômodo me perseguiu por meses durante meu planejamento bimestral. Trabalhar com as duas realidades me imprimiu um certo preconceito quanto ao potencial dos alunos, uma vez que o acesso às tecnologias digitais é lugar-comum em uma realidade e ficção científica na outra. Seria possível implementar práticas pedagógicas como aulas invertidas? Ensino híbrido? Rotação por estações? Com alunos muitas vezes acostumados à aula “gls” (giz, lousa e saliva)? A desigualdade social pesou fortemente em estabelecer esse preconceito, já que para o aluno da escola pública o acesso a computadores e à internet é precarizado pela renda da família.

Então um dia compartilhei minha dúvida com um aluno do 8° ano da E.E. Esmeralda Soares Ferraz em Ourinhos (SP) e me deparei com uma pergunta para a qual não tive resposta: por que não? Então vamos lá. Decidi então inverter a prática pedagógica e permitir ao aluno dominar o seu ritmo de aprendizagem. O planejamento bimestral foi feito considerando atividades diárias, desafios espontâneos que permitissem a integração de habilidades da Língua Portuguesa – uma das grandes fragilidades da educação brasileira – e por fim uma atividade de fechamento ligada à recuperação do espaço físico da escola a ser feita pelos próprios alunos. Importante destacar aqui que a temática desenvolvida em sala era referente à questão ambiental.

No tocante a integração de conteúdos da Língua Portuguesa e Geografia, foi apresentado pelo Professor Coordenador da UE a necessidade de abordar as habilidades menos atingidas nas avaliações externas – como a capacidade de identificar informações implícitas em um texto ou charge. Propusemos então que os alunos identificassem na charge abaixo o conceito de​ desenvolvimento sustentável ​que havia sido tratado em sala nos últimos dias.

Tirinha: Armandinho e a Natureza | Artista: Alexandre Beck.

Respostas dos alunos:

“É que ele está querendo dizer que precisa ter um ‘desenvolvimento sustentável’, ou seja, achar uma maneira de preservar a natureza agora e futuramente para que ele consiga fazer o que ele quer” E. 14 anos.

“Isso faz referência ao desenvolvimento sustentável, o desenvolvimento sustentável se refere a ter uma boa qualidade de vida não esgotando os recursos naturais para que as gerações futuras não sejam prejudicadas”. I. 13 anos.

O protagonismo do aluno se manifestou ao longo das aulas de modo surpreendente, à medida que os alunos: a) começaram a interagir com o computador como mais que apenas uma ferramenta de entretenimento e sim como uma fonte de pesquisa; b) aumentaram sua iniciativa de se ajudarem sem a necessidade de recorrer ao professor; c) desenvolveram autonomia para a descoberta de novas palavras; e d) apresentaram melhoria de comportamento.

Sendo assim, nossa dúvida foi sanada. Sim. É possível ter na escola pública os mesmos resultados que se espera de um aluno da escola particular. Quem sabe até melhores.

Entretanto

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