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22/08/2019

Como inovar em sala de aula

Paulo Roberto Magalhães

Um dos problemas que nossos estudantes do Glicério têm vivenciado e talvez o mais importante, seja a questão da moradia, uma vez que a violência urbana tem sido a tônica da região na qual eles residem. O bairro vive um quadro social devastador que acampa um leque de famílias que fogem à estrutura nuclear tradicional e por isso são nominadas “desestruturadas”, além da situação de vulnerabilidade em que se encontram.

Diante desse quadro sui generis, no processo de debate com os estudantes, a moradia revelou o ponto nevrálgico que fomenta soluções imediatas.  A partir daí, fizemos uma síntese teórica sobre moradias em sala de aula utilizando mapas, fotos, desenhos, cartazes, maquetes em caixas de sapatos configurando a sala de aula e casas de quatro cômodos, pois muitos dos alunos, não tem ideia desses espaços.

Durante as aulas teóricas, trabalhamos com vídeos das visitas e relatos de alunos sobre o problema da moradia no Glicério. Os alunos confeccionaram também, Mapas Mentais, que desenvolveram a criatividade nos estudantes e os transformam em cidadãos mais atuantes. Trabalhamos também com cartazes sobre o projeto e apresentações sobre o tema em sala. Criaram desenhos que representavam as moradias no Glicério, além de desenhos que diferenciam a zona urbana da rural.

Fizeram eles sobre nossas orientações caixas de sapatos com casas de quatro cômodos e salas de aula utilizando tampinhas de refrigerante, caixas de fosforo, e material reciclável através de plantas baixas de uma residência e de uma sala de aula, utilizando a projeção de escala. Pois, os alunos, não tem ideia da divisão de uma casa, pois muitos deles moram em ocupações, pensões ou embaixo de viadutos.

Após, toda a síntese teórica em sala de aula com mapas, fotos, desenhos e cartazes e maquetes feito pelos alunos, foi necessário levá-los para uma volta aos pontos mais importante do Bairro como a Rua dos Estudantes, as Vilas Centenárias do Glicério assim como as escadarias Anita Ferraz, onde existem poucas casas geminadas. Falamos sobre algumas vilas que foram desaparecendo no Glicério além de visitas em algumas moradias e ocupações no bairro.

 

Crédito: Tiago Reivax

Fomos também ao Solar da Marquesa de Santos, ver uma mostra que exibe cerca de 72 itens da coleção de bens móveis adquirido para recompor o ambiente da Casa do Bandeirante em 1954, simultaneamente ao seu restauro, em diálogo com as fotografias históricas do evento.

A mostra propõe uma reflexão sobre os mitos e tradições que construímos dentro de uma determinada visão de mundo num contexto passado. Ocorreu também uma aula pública, tema esse, “Moradia, ocupações e água no bairro do Glicério”. A partir do trabalho com os 4ºs e 9ºs anos do Ensino Fundamental. Nesta edição a aula pública contou com a participação do escritor Sérgio Túlio Caldas, comentando sobre seu livro “Água – Precisamos falar sobre isso”.

É relevante afirmar que havia uma motivação dos estudantes para com a questão escolhida, desse modo, os alunos foram orientados a trabalhar com vídeos, os quais eles mesmos seriam os produtores, haja vista, que o projeto implicava em desenvolver uma autonomia até então inexistente. Antes de iniciarmos as filmagens, os alunos produziram desenhos de um bairro ideal na medida de seus sonhos individuais. A partir dessas imagens, saímos as ruas para filmar as   condições de moradia, do entorno e das pessoas por nós abordadas. Foi revelado nos vídeos relatos sobre os problemas de insalubridade, de riscos á saúde e á segurança.

O passo seguinte ainda ocorreu extraclasse e configurou-se na confecção de mapas mentais, que propunham desenvolver a criatividade para a ação seguinte: a articulação da imagem que eles tinham de moradia com o mapa mental e real e o vídeo da realidade concreta e objetiva na qual eles estão inseridos. Decorrido esse primeiro momento, partimos para a elaboração de maquetes e cartazes com propostas que é possível independente da questão financeira, construirmos uma vida com qualidade em todos os sentidos.

Os estudantes do 9º ano, auxiliaram o professor na exposição do tema, pois, participam do projeto desde o 5º ano, e contara que costumam andar com as famílias pelo bairro, compartilhando o que aprenderam sobre ele nas aulas públicas.

O trabalho foi desenvolvido em um semestre, primeiramente foi confeccionado pelos alunos os mapas mentais para isso saímos com os alunos nas Vilas Centenárias em frente a escola, para que eles tivessem uma ideia melhor sobre sua localização.  Utilizamos desenhos que oferecem aos alunos visão de uma planta de sala de aula ou uma planta baixa, trazida pela professora Fabiana Santos

Utilizamos cartazes para as confecções dos trabalhos sobre a história do bairro; Confecções de  mapas mentais, caixas de sapatos (15), Tampinhas de refrigerantes (100), papel vegetal (02 blocos), cola, tesoura, réguas, caixas de fósforos (100) , papel de seda várias cores, papel crepom várias cores, caixa de papelão (05) para confecção dos moveis da casa e sala de aula.

Como proceder durante essa aula:

1 – Levamos os alunos para fazer percorrer o bairro, visita monitorada aos seus principais pontos, 50 alunos por vez, seguindo os setes passos de uma Aula Publica no bairro, vídeo feito pelos alunos durante o trajeto.

2 – Fizeram mapas mentais, da sua casa a escola em um local aberto, pode ser na quadra, pátio, ou um espaço de brincar fora da escola.

3 – Prepararam cartazes sobre o tema proposto

4 – Assistiram documentários relacionados ao tema do projeto (no caso nossos filmes sobre moradia)

5 – Trabalharam com plantas baixas de uma casa ou uma sala de aula,

Público alvo: 100 alunos participaram do projeto aproximadamente

Material indicativo de como o aluno deve seguir para sair com os alunos no território

 

Os setes passos para uma aula pública no território.

1 – Prepare materiais, logística e o território

2 –  Faça um pacto com os estudantes

3 – Busque parcerias com a comunidade

4 – Envolva a comunidade escolar nas aulas

5 – Articule sua aula com o currículo

6 – Tenha coragem e humildade

7 – Peça que alunos registrem seus percursos

Trabalhamos o pensamento cientifico, crítico e criativo: comunicação, argumentação, empatia e cooperação; responsabilidade e cidadania.

Confecção de cartazes e pesquisa sobre o problema da moradia

Vídeos relacionados a moradia com participação dos nossos alunos e filmados por eles, quando fomos conhecer uma moradia insalubre no bairro onde está inserida a escola, tudo expressamente organizado.

Confecção dos mapas mentais em folha de papel vegetal e exposição dos mesmos.

Sequência das atividades:

Confecção das salas de aulas e casa com quatro cômodos, chamadas de plantas baixas, os alunos a partir dessa confecção perceberam como é a divisão de uma casa ou organização de uma sala de aula, fizeram todos os moveis e as paredes com papelão, além de terem utilizado tampinhas de refrigerante e caixas de fósforos.

Os estudantes do 9º ano participaram da aula como auxiliares do professor de Geografia contando sobre as curiosidades do Glicério. A maior parte destes estudantes participam de aulas públicas com geógrafo desde o 6ºano e já possuem bastante intimidade com os assuntos do bairro.

A escola onde o professor trabalha tem uma peculiaridade: há muitos alunos imigrantes e refugiados, característica que faz com que os conhecimentos sobre urbanização, geografia e vida em sociedade se tornem cada vez mais latentes, necessários e as aulas muito mais ricas. Na unidade há estudantes da Bolívia, Haiti, Marrocos, República Dominicana, Colômbia e Síria, entre outros países.

É importante ressaltar que além da preocupação com a moradia, como a questão do lixo, quando fizemos visitas programadas na Coper-Glicério. Realizamos aulas nas ruas acompanhadas por Sergio Tulio Caldas, autor dos livros “Água – Precisamos falar sobre isso”, “Terra sob Pressão – a vida na era do aquecimento global”.  Surgiu a ideia de alertar outras famílias da comunidade escolar sobre as consequências do descarte irregular de lixo e as más condições das instalações elétricas das ocupações, fatores que contribuíram para o incêndio e posterior desabamento do prédio citado acima. Preocupados com a vulnerabilidade, os estudantes se mobilizaram   e decidiram elaborar uma aula publica nas ocupações no centro da Cidade.

A participação dos estudantes ocorreu de forma homeopática e processual, ou seja, nos anos iniciais, realizamos diversas idas a museus, exposições, entornos de comunidades carentes e inclusive mostras de diferentes estados do Brasil. Todas essas atividades extraclasse objetivavam tirar os alunos de sua zona de conforto e ajudá-los no processo de reflexão à cerca da realidade social.

Da reflexão para a inferência junto a realidade concreta foi um passo, ou melhor, o aluno passou a conquistar sua autonomia, não só enxergando o problema como propondo uma solução para o mesmo. Ao ganhar as ruas e ocupar o espaço urbano, essas atividades se traduziram em diferentes ações educativas, na medida em que oferecemos uma educação baseada em valores sociais, capaz de fortalecer e solidificar as competências e habilidades do jovem para uma vida saudável e de qualidade, preparando-os para a contemporaneidade.

É preciso justificar que os estudantes perceberam que a questão da moradia, além de ser injusto, é um processo tratado com bastante descaso. Portanto, o sentimento de impotência e a necessidade de se fazer algo foram o estopim para a mobilização e elaboração do projeto em pauta.

Agradecimentos as professoras Joyce Santos, Fabiane de Castro, Thais Ribeiro Santos e Thatiane Bocci.

Entretanto

Entretanto Educação
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