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10/01/2020

A leitura como emancipação e habilidade sociocomportamental

Por: Karine Aragão

 

É na relação interativa que se constrói o sentido do mundo, por isso, a atividade de leitura ultrapassa a simples decifração de códigos, exige do sujeito que se inscreva no seu cotidiano como signo, apto a atribuir significados e, também, a significar.

O leitor, em uma relação que pretende a troca, não pode ser como o espectador do teatro tradicional, que somente olha, não conhece e não age. Deve ser um participante ativo, em vez de ser voyeur passivo. Deve comparar o que sabe ao que aprende de novo.

O leitor emancipado olha, age, observa, seleciona, compara, interpreta. Relaciona o que vê com muitas outras informações de outras cenas, em outros tipos de lugares. Apropria-se da história a partir de uma tradução sua do mundo, de reelaborações. Consegue narrar-se. A mudança parte da consciência de que ainda há tempo de mudar.

A vontade é potência de se mover, de agir segundo movimento próprio, antes de ser instância de escolha e de combinação de ideias. “O homem é uma vontade servida por uma inteligência.” (Rancière, 2002: 137). A vontade de mudar é o estopim.

O desejo nos move

O emancipado não é, necessariamente, um intelectual. Homens emancipados são Homens individuais.

A Leitura, como atividade abstrata, não cria, por si só, soluções para problemas sociais, políticos ou ambientais, mas possibilita ao sujeito a participação em diferentes contextos que convocam a interação com o outro, o discernimento para perceber o conteúdo veiculado, a mensagem, os possíveis interlocutores, as ideologias e intertextualidades, as associações de ideias, a compreensão de situações postas, observando, consequentemente, o papel social desempenhado por cada unidade de interpretação.

Uma sociedade emancipada ideal é uma sociedade de artistas e obras que se propõem a mudar os referenciais do que é visível e enunciável, mostrar o que não era visto, mostrar de outro jeito o que não era facilmente visto, correlacionar o que não estava correlacionado, com o objetivo de produzir rupturas no tecido sensível das percepções e na dinâmica dos afetos. Esse é o trabalho da ficção (Rancière, 2002: 87):

Ficção não é criação de um mundo imaginário oposto ao real. É o trabalho que realiza dissensos, que muda os modos de apresentação sensível e as formas de emancipação, mudando quadros, escalas ou ritmos, construindo relações novas entre a aparência e a realidade, o singular e o comum, o visível e sua significação.

Esse trabalho muda as coordenadas do representável, muda a percepção dos acontecimentos sensíveis, a maneira de relacioná-los com os sujeitos, o modo como o mundo é povoado de acontecimentos e de figuras. Contribui para desenhar uma paisagem nova do visível, do dizível e do factível. Formas dissensuais que se empenham em mostrar o que permanece invisível em uma enxurrada de imagens.

Pensar a Leitura como experiência de desrealização, de ensaios de vida, não representa uma visão inocente e idealizada, mas pressupõe a busca por obras que desloquem o leitor dos automatismos, de um ponto de vista estável, onde o espectador seja confrontado com seu próprio descentramento. Narrativas que suscitem um vazio entre o significante e o que pode ser significado.

Ler significa descortinar, mudar de horizontes, interagir com o real, interpretá-lo, compreendê-lo e agir sobre ele. Infelizmente, as práticas leitoras adotadas em sala de aula, muitas vezes, parecem corresponder ao uso estrito: há a compreensão do sistema linguístico, mas não a assimilação da informação.

Leem-se anúncios, quadros de indicação óbvia, como não entre, proibido o uso de celular, e, mesmo assim, pessoas entram onde não é permitido e usam celular em locais inapropriados.

Ao não levar em conta essas mensagens, esses leitores mostram que deixam de observar o contexto, de perceber o entorno, premissas fundamentais para afirmação de uma consciência crítica que possa articular situações, opiniões, fatos, que propicie condições de intervenção, de decisão, que seja transformada em conhecimento e saber. “Quem está informado pode, com mais rapidez e clareza, fazer escolhas.” (YUNES, 2010: 08).

Perceber a capacidade que a Leitura tem de fortalecer a cidadania pode ser o estopim de um ciclo de mudanças para que ela não seja vista apenas sob a via da escolarização.

Ler é interrogação, dúvida, ampliação diante das perspectivas iniciais das palavras. O problema da escolarização da Leitura transborda da escola para a sociedade, onde a prática da leitura é automatizada e padronizada.

A leitura, que romperia padrões, permitiria novas interpretações das circunstâncias e colocaria a informação a serviço da vida pessoal e social, se esgota no pragmatismo dos deciframentos, onde a relação do leitor com o mundo se esteriliza, no incansável processo de tentar adivinhar o que o autor quis dizer ou de ter que decorar dados temporais sobre a publicação da obra, ou até, sobre a biografia do escritor.

As informações decoráveis sobre o texto ganham destaque, valorização; e perde-se espaço para a intuição, para as emoções. A sensibilidade fica relegada, como se o homem fosse composto apenas pela razão e pela lógica de causa e consequência.

As interações possíveis entre o leitor e seus múltiplos interlocutores, sejam os personagens ou pessoas reais de seu convívio, não são valorizadas como reconhecimento de outrem, de um outro sujeito que também tem o direito de pensar, de dizer, de querer.

Retira-se da leitura uma potencialidade importante: a solidariedade com o que é pensado e exposto pelo outro.

A Leitura, quando não é subtraída em sensibilidade e em alteridade, abre caminhos para que o leitor exercite-se enquanto sujeito ativo e consciente, o que contribui para promoção da qualidade de sua vida social.

Entretanto

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