28/04/2020

A construção da pessoa negra nas aulas de Língua Portuguesa

Por: Jadson Lima Jesus da Silva
Orientação: Glória de Fátima Lima dos Santos

 

Assim que descobri o que de fato é Língua, percebi que sempre fui apaixonado por ela, ou melhor, por elas… Das estrangeiras às Línguas de Sinais, tudo sobre língua me chama à atenção. Meio que por acidente iniciei minha carreira como professor de língua estrangeira aos 21 anos de idade. Cada palavra aprendida parecia uma trufa, sim, uma trufa, recheada de novidade e com um sabor que fazia da linha língua-músculo uma ponte que se unia à Língua Inglesa. Na sala de aula descobri mundos, cada aluno era um lugar a ser explorado, no melhor sentido da palavra. Revivi em meus alunos a minha experiência de quando comecei a estudar inglês, vozes baixinhas quando questionados sobre as lições, olhares de curiosidade e dúvida se encontravam diante do professor.

Somente quando meus pés pisaram na Universidade, percebi que de fato eu nasci para ser professor. Acompanhei atento cada estratégia, macete, metodologia, abordagem e demais formas de se conceituar “ajuda em sala de aula”, eu tinha em mão a receita para o sucesso de como ser um bom professor de línguas… Fatídico dia em que entrei numa aula de sintaxe, em meio às orações coordenadas, que por momentos nesse texto fiz uso, entendi que eu também seria professor de português… Sim, Língua Portuguesa. Caiu-me o chão… Português é língua e eu precisarei ensiná-la.

Tratei de comprar logo uma gramática normativa e passei a revisar os termos que lá no período da escola eu havia memorizado. Da acentuação gráfica às análises sintáticas, nada me enchia os olhos, pelo contrário, me enchia o peito de angústia. Como a língua pode ser tão? Tão maçante? Tão sem vida? Cada folha daquela gramática desconversava com as aulas de inglês que costumava dar. Fui murchando… Negava a existência do ensino de português enquanto caminhava rumo ao estágio da tal língua da qual sou filho.

Quando dei por mim, já havia chegado o dia… Estava eu sentado numa sala de aula cheia de alunos que diante de uma lousa sem fim, copiavam e gravavam regras que regem o uso da língua a qual dominam desde pequenos. Soou irônico para mim, a lousa dizia “Não a vi”, e a turma “Não vi ela”, a lousa gritou “estupefato” e o silêncio reinou. Tal qual na torre de Babel, ninguém entendia nada, paradoxal é que escola e alunos desconversavam dentro da mesma língua.

Saí daquele lugar pensando em como eu poderia fazer a diferença… Apenas sabia que eu não queria retornar para aquela sala de aula e ser mais um professor que é ofuscado pela lousa. Dando uma breve pausa no meu relato, digo que, se por um dia esse texto venha a cair em mãos de professores que se sintam incomodados devido o cenário (professor-lousa) que aqui sinalizo, tenho algo a dizer: esse texto é para você! E antes que desista de dar continuidade nessa leitura, tenho algo em minha defesa: esse texto é pra você não desistir! Caro colega, se assim já posso chamá-lo, não demonizo o uso da lousa, em salas de aulas desprovidas de tantos materiais, quase sempre a lousa é a única alternativa. Por outro lado, milito para que professores de língua façam de suas aulas um palco que reflete um pouco da vida real.

Foi com essa perspectiva que cheguei ao estágio no dia seguinte. Sentei-me no lugar de sempre e observei mais uma aula de língua portuguesa. Naquele dia o gritar da lousa não mais me frustrou, nem mesmo me fez medo, eu já sabia que iria fazer diferente quando chegasse minha hora. Terminada as primeiras observações, tive o primeiro encontro com a turma. Num sábado de sol qualquer plano vem à mente de um pré-adolescente, exceto ir à escola, e foi justamente o plano impensável que se realizou.

Diante de mim estava uma turma de aproximadamente 22 estudantes dispostos ir para casa em menos de meia hora de aula.

Iniciamos as oficinas de estágio no mês de novembro, dessa forma, a temática trabalhada foi sobre a consciência negra no Brasil. Assim que soube do tema nas reuniões com a professora orientadora, gelei… Passei a vida escolar inteira ouvindo falar da “bondosa” princesa Isabel que libertou o povo negro, e nos meses de novembro, lá vinha a princesa Isabel rodeada de colegas-escravos gratos por sua bondade. Aquelas encenações/desfiles organizados pela escola percorriam o bairro onde cresci, as crianças negras eram escravas, as brancas simbolizavam os portugueses e os membros da realeza… Tamanha era a ignorância que, negro como sou, fui índio duas vezes nessas encenações. Relembrar esses fatos me causa um embrulho no estômago, porém, não julgo os professores que se empenhavam naquilo, em suas cabeças estavam recontando e enaltecendo uma história (cruel) que moldou a terra de Santa Cruz. Revisitar essas memórias me faz pensar em tudo que eu não farei como professor.

Cheguei à sala de aula com a proposta de trabalhar a Consciência Negra por meio da construção de infográficos, um desafio gigante para uma turma que possuía dificuldades de leitura. Trabalhar a construção de infográficos parecia uma atividade impossível, até que demonstrei a turma o quanto eles se deparam com esses textos quando estão com os celulares em mãos. Iniciei apresentando estatísticas retiradas de um jornal que evidenciava numericamente o abismo entre a população negra e branca no Brasil. Aspectos como desigualdade salarial, violência, acesso a serviços públicos e representatividade na mídia foram os tópicos debatidos em sala.

A construção dos infográficos se deu desde o primeiro ao penúltimo encontro. Cada grupo ficou responsável por um tópico debatido em sala, da escolha da paleta de cores à produção textual, tudo fora criado pelos alunos. Não pense você que tudo ocorreu a mil maravilhas, foram horas de insistência, minha voz agora era quem gritava causando, penso eu, inveja na lousa… “Posso ir ao banheiro?” “Posso beber água?”, “É claro que não…” respondia eu sorridente, desarmando as faces aborrecidas dos questionadores.

Dentre todo o processo de produção dos textos infográficos o que mais eu gostava era a etapa em que as experiências de alunos negros vinham à tona. Histórias tristes nas quais cabelos crespos e pele negra são inferiorizados… Sempre que tinha uma brecha dava um jeito de mostrar a aqueles sujeitos quanta beleza havia neles e logo percebia que poucos ouviram sequer na vida um elogio quando se tratava desse assunto.

Enquanto acompanhava os grupos nas tarefas ouvia: “Nossa, professor! Seu cabelo é tão bonito…” ou ainda “Tô pensando em deixar o meu crescer também…?”.

Quando chegou ao fim o período das oficinas de estágio, os resultados colhidos foram bastante proveitosos, mas nada supera a mudança que vi em determinados alunos. Vi cabelos antes tímidos, esvoaçantes nos corredores, vi laços, tranças, mas em especial rostos antes apagados cheios de alegria por serem quem são. Não digo que fui a peça principal da mudança, nem mesmo fui um herói, o mérito foi de cada aluno que se sentiu seguro para dar passos mais firmes. Ensinei sobre infográficos, mas também falei da vida como ela é.

Tenho certeza de que não reproduzi aquilo que vi quando aluno. Falei sobre ser negro na vida real, há mazelas, mas também muita beleza envolvida. Não houve princesa Isabel aclamada por escravos, mas houve uma bondade real. Ser um professor negro de cabelo crespo dentro da sala de aula fez a diferença para alguns, melhor dizendo, minha presença foi representatividade para aqueles que nem mesmo sabia sobre sua negritude.

Quanto à minha preocupação sobre ser professor de língua materna, essa tem desaparecido com o tempo. A gramática que comprei me é bastante útil, os termos e conceitos gramaticais que aprendi tem funcionalidade em minha vida pessoal e profissional. Sou um bom professor de inglês, sou extremamente apaixonado pelo que faço, entretanto, descobri que também sou um bom professor de português, como cheguei a essa conclusão? Eu ensino “Língua Portuguesa” e ensinar língua é o que me move, pois é por meio dela que conto minha própria história na qual sou o sujeito determinado.

 

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