Mestres interrogadores, alunos pensantes

por: Celso Antunes

“A estatística é como o biquíni; o que mostra é interessante, mas o que esconde é essencial”. Essa afirmação tem tanto de velhice quanto de paternidade: há mais de trinta anos é repetida aqui e ali, e para sua originalidade atribuem-se diferentes autores, de escritores à políticos, de economistas à apresentadores.

Mas, em verdade, o que interessa nessa afirmação não é seu tempo de uso ou autoria, mas dois fatos: é a mesma, indiscutivelmente, engraçada e principalmente representa uma afirmação verdadeira. Não há como negar que as estatísticas podem ser manipuladas segundo interesses ou pontos de vistas específicos e, dessa forma, colocar-se à serviço de quem a interpreta. É por essa razão que o dado que apresentamos abaixo merece toda ressalva e admite interpretações diferentes das que sendo empregada por este professor, neste texto. Além disso, são estatísticas válidas para parcela de crianças dos Estados Unidos e, ainda que se suspeite que devam ser similares às brasileiras, o entorno de sua exploração ocorreu em espaço diferente do nosso.

Betty Hart e Todd Ridley, educadores norte-americanos, estudaram 42 crianças, filhos de profissionais liberais, operários e pessoas dependentes da ajuda pública, gravando sua fala e submetendo-a a diferentes baterias de testes. Observando-as durante primeiros dois anos e meio de vida, constatando estarrecidos que filhos de profissionais liberais ouviam em casa, em média, 2.100 palavras por hora, os filhos da classe operária, no mesmo espaço de tempo ouviam 1.200 palavras, enquanto filhos de pessoas carentes ouviam somente 600 palavras.

Não acreditamos que se pesquisa análoga pudesse ser feita no Brasil apresentaria resultados muito diferentes. Sabemos que em lar onde vivem advogados, médicos, professores e outros profissionais liberais fala-se muito mais com a criança que em espaços empobrecidos, onde existem recados e ordens, raramente diálogos. Isso importa e importa bastante.
Considerando o formidável estímulo que é para a mente e para os pensamentos de uma criança as palavras que ouvem dos adultos com os quais interagem, esses estudos são, no mínimo, assustadores.

Em síntese, crianças desta ou daquela classe social podem nascer como com sua constelação de neurônios em ordem e absolutamente perfeitos, mas sua capacidade de dizer e de pensar se mostrará profundamente afetada a partir dos dois anos e meio, porque as mais carentes entre elas tendem a crescer em ambiente onde a conversa é restrita, a fala pouca e a comunicação extremamente objetiva.

Conhecendo o que hoje se conhece sobre o poder da argumentação no desenvolvimento da infância, essa estatística impressiona, pois, o que mais compromete o desenvolvimento cerebral da criança indigente é bem menos a precariedade das condições de higiene em que vive e a pobreza do alimento que consome, mas principalmente a carência de estímulos cerebrais que deveriam receber na admirável fase da explosão da linguagem infantil. As mesmas estatísticas norte-americanas apontam que da mesma forma como ouvem e falam bem mais, os filhos de pais profissionais liberais recebem elogios entusiásticos e positivos cerca de trinta vezes em uma hora do convívio, esses estímulos são exatamente o dobro recebido pelas crianças filhas de pais operários que, por sua vez, propõem feedback positivo aos filhos, cinco vezes mais intensamente que o proposto entre a classe menos assistida.

Como a metáfora do biquíni, esses dados a se comparados com estimativas que ocorrem no Brasil – e nada nos faz crer que aqui seja diferente – é muito mais importante que aparentam ser. O que mostram assusta, mas o que escondem estarrece. Toda criança que cresce em um lar “falante”, que é desafiada a pensar, descobre em seus pais verdadeiros propositores de questões, desafiadores de dúvidas, contadores interativos de histórias, que os envolve tanto na tarefa de escutar quanto na de dizer, opinar, sugerir e também propor será sempre uma criança neurologicamente privilegiada em relação a outras que crescem carentes de desafios, meras cumpridoras de ordens, que por pouco serem estimuladas a ouvir, tem sempre poucas experiências em sua grandeza do pensar.

Mas, como o próprio aforismo estatístico destaca, as pesquisas servem também de alerta pessoal: você desafia seu filho ou seu aluno a pensar? Propõe perguntas? Incita-o a dizer? Leva-o pela trilha dos sonhos? Instiga e dá asas a sua curiosidade? Acompanha as lições que faz? Cobra o porquê das tarefas que executa?

Se as respostas forem afirmativas, parabéns. Seu lar ou sua sala de aula podem ser materialmente modestos, mas a educação que você promove não está uma única linha distante daquela que melhor poderia ser.

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