Jogos, brincadeiras e alunos com necessidades especiais

por: Lucinéia dos Santos

Sou professora de Educação Física e penso em como um programa de jogos para alunos com necessidades especiais não difere em princípios e conteúdos dos jogos destinados aos alunos não-deficientes. A diferença está nas estratégias metodológicas utilizadas, e estas deverão priorizar as características de desenvolvimento biológicas, afetivas e cognitivas, suas necessidades, interesses, capacidades e limitações individuais, decorrentes da deficiência e/ou determinadas pela realidade histórica e pelo meio sociocultural.

 

Tendo em vista o processo de inclusão no contexto escolar, eis algumas sugestões dentro do conteúdo Jogo (COLETIVO DE AUTORES, 1992):- jogos que possibilitem o reconhecimento de si mesmo e de suas próprias
possibilidades de Se-Movimentar;

 

– jogos que possibilitem a identificação da capacidade de movimento com os
materiais/objetos para jogar;
– jogos que promovam a estimulação sensorial, permitindo o desenvolvimento da
percepção do corpo em movimento, como expressão de linguagem;
– jogos que promovam a reflexão sobre um movimento que poderá ser representado
verbalmente como forma de facilitar seu domínio e sua conceituação;
– jogos que possibilitem a reflexão das relações sociais: criança/família, criança/escola,
criança/sociedade, criança/criança;
– jogos que, pela exploração das condutas motoras básicas, promovam o
reconhecimento das alterações das funções vitais produzidas pelo esforço físico;
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– dinâmicas em grupo que possibilitem a criação de jogos, definindo coletivamente os
objetivos e as regras;
– jogos que possibilitem a organização coletiva e a reflexão sobre a importância da
convivência social, por meio da análise e do julgamento dos valores morais estabelecidos nas
regras construídas.

 

Promover uma educação diferenciada, uma educação capaz de encarar o lúdico como um fator motivante, como uma ponte facilitadora da aprendizagem, estimulando a aprendizagem cognitiva, afetiva e psicomotora dos alunos, que são seres pensantes e atuantes, cheios de emoções e sentimentos e que interage todo o tempo entre si e com o meio.

 

Leia mais sobre o aprendizado de aluno com necessidades especiais.

 

É preciso motivar o aprendizado através da ludicidade, pois ela é capaz de transformar as aulas repetitivas, cansativas e monótonas em aulas significativas, nas quais o aluno pode trabalhar também conteúdos conceituais, temas transversais, procedimentos e atitudes. Através do conteúdo jogos, também desenvolvemos nos educandos a capacidade de pensar, refletir, abstrair, organizar, realizar e avaliar. No atual cenário de “desencanto escolar”, motivar seria a palavra chave para o resgate de interesse pelo aprender/fazer “o novo”, pois etimologicamente a palavra motivo vem do latim “movere, motum” e significa aquilo que faz mover. Em conseqüência motivar significa também, provocar movimento.

 

Especificamente, quando falamos de “Inclusão”, o jogo é um grande aliado contra  os males que afetam o desempenho corporal provocados pela inatividade, principalmente nos  casos de deficiência física ou mental. Não existem substitutos para o movimento. A realização  consciente de diferentes atividades de resistência, força, flexibilidade e coordenação motora  proporciona uma melhora geral da aptidão física e sensação de bem-estar, pois trabalhar a  musculatura tem importância decisiva para a capacidade de rendimento psicofísica. Mas,  dentro deste cenário podemos citar alguns objetivos mais específicos para o desenvolvimento  psicomotor e cognitivo das “crianças especiais”:

 

– apropriação do esquema corporal;
-noções espacial e temporal;
-habilidades motoras básicas;
-lateralidade;
-coordenação motora;
-atenção;
-percepção sensorial e memória;
-equilíbrio e controle muscular;
-criatividade

 

Ensinar crianças e jovens com necessidades especiais é um desafio. Nos últimos dez  anos, período em que a inclusão se tornou realidade, o que se viu foi a escola atendendo a esse novo aluno, ao mesmo tempo EM que “aprendia” a fazer isso. Com a Educação Física não  foi diferente. Hoje, ainda são comuns casos de professores que recebem um ou mais alunos  com deficiência (física e mental) e que se sentem sozinhos e sem apoio, recursos ou formação  para executar um bom trabalho. Mas, a tendência felizmente, é de mudança. Os gestores  estão mais preocupados com essa questão, buscando recursos e pessoal de apoio, fazendo da  inclusão um projeto da escola. Dessa forma, melhoram também as condições de trabalho dos  professores.

 

O trabalho que a Educação Física vem desenvolvendo com as pessoas deficientes, na  última década, oportunizou a abertura de novos campos de trabalho e pesquisas, prova disso é o fortalecimento do Comitê Paralímpico Brasileiro e a quantidade de atletas com necessidades especiais existentes.

 

Foram pensadas formas de abordagem de modo a construir caminhos para a inclusão.  Para que todos os alunos sejam realmente incluídos nas aulas de Educação Física, não basta  apenas estar no mesmo espaço físico ou participar de algumas atividades, mas ele deve fazer  parte do grupo e participar de todas as atividades desenvolvidas durante a aula, mesmo que  necessite da ajuda e apoio do professor e de outros colegas. Esse apoio, entretanto, não deve  transformar-se em superproteção, pois esta, em vez de contribuir, tende a dificultar o  processo de inclusão. A presença do adulto deve ser para intercambiar as trocas entre os  alunos e o ambiente.

 

Os conteúdos trabalhados devem ser o mesmo para todos, o que poderá ser mudado  são as estratégias e os recursos. Para enfrentar momentos em quadra de aula, que fogem da  rotina, também é preciso compreender que cada criança/adolescente tem características  específicas e os alunos com necessidades especiais muitas vezes não nos dão o feedback do  que e como aprendem. Devemos oferecer a esse aluno a oportunidade de aprendizagem  individual e coletivo que lhe permitam, nas ações perceptivo-motoras, reconhecer a si próprio,  os elementos constitutivos do seu corpo e quais são suas possibilidades de ação diante dos  instrumentos e dos objetivos socialmente criados. Valorizar regras e combinados, já é um  ótimo meio de começar. Definir a programação do dia, o que pode e o que não pode, ainda  que essas crianças tenham o próprio ritmo, aos poucos faz com que percebam e tomem consciência de que precisam estar com o grupo, fazem parte de um grupo.

 

Leia mais sobre aulas dinâmicas em sala de aula.

 

Estimular o aluno significa oferecer a ele experiências do Se-Movimentar que permitam auxiliá-los no desenvolvimento de suas capacidades físicas e cognitivas. A  estimulação deve consistir de atividades que visem a intensificar a atuação do ambiente sobre  a criança de maneira que seu desenvolvimento ocorra o mais próximo possível de sua idade  cronológica. Deve basear-se em ações perceptivo-motoras com caráter socializador e lúdico, tendo em vista, atingir os objetivos de formar um indivíduo participativo, criativo, autônomo,
independente e crítico.

 

O desenvolvimento do aluno começa pelo reconhecimento de sua própria capacidade  de Se-Movimentar, pois é via organização corporal que todo ser humano estabelece relações  com os objetivos e os indivíduos que fazem parte de seu ambiente.  Nesse processo de intervenção, primeiramente devem ser estimuladas as formas como  os alunos podem agir sobre os objetos com a finalidade de aprender, reconhecendo suas  propriedades, identificando suas múltiplas possibilidades de utilização individuais e coletivas,  estabelecendo relações, ao mesmo tempo que, executam ações comunicativas para  aperfeiçoar sua linguagem, à luz das reflexões em torno das atividades executadas de forma a perceber o seu Se-Movimentar.

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