28/04/2019

Entretanto Entrevista: Paulo Roberto Magalhães

Inaugurado em 1961, o Edifício Wilton Paes de Almeida foi um marco da arquitetura modernista de São Paulo. Sem manutenção e ocupado por integrantes do Movimento Social de Luta por Moradia, o edifício sofreu um colapso após um incêndio, além da tragédia com as famílias que estavam no local, o desastre escancarou o problema de falta de moradia na cidade.

Bem próximo ao local, está a EMEF Duque de Caxias, no bairro do Glicério e o professor de Geografia, Paulo Roberto Magalhães, que percebeu dentro da sala de aula o problema. Muitos alunos tinham conhecidos na ocupação e sentiam necessidade de falar sobre o ocorrido. Paulo optou por desenvolver uma abordagem sobre o tema por  meio de aulas públicas e mostrar que atravessar os muros da escola é o caminho certo na transformação da sociedade.

Como foi a concepção desse projeto?

Esse projeto nasceu da necessidade de interagir alunos do Fundamental I e II, com as novas concepções do Currículo da Cidade, que propõe o direito à educação que implica a garantia das condições e oportunidades necessárias para que os estudantes tenham acesso a uma formação indispensável para a sua realização pessoal, formação para a vida produtiva e pleno exercício da cidadania. Quando resolvemos trabalhar a questão da moradia na Cidade de São Paulo, e especificamente no Glicério, já víamos com uma bagagem de pesquisa e visitas a alguns locais como cortiços, ocupações irregulares e pensões localizadas na região próxima à Praça da Sé, sempre acompanhados com alunos da EMEF Duque de Caxias dentro do planejamento escolar.

O projeto desenvolveu-se em etapas, primeiro foram as aulas teóricas e depois as práticas. Quais as características de cada etapa. O que foi tratado exatamente?

Durante as aulas teóricas, trabalhamos com vídeos das visitas e relatos de alunos sobre o problema da moradia no Glicério. Confeccionamos também, um Mapa Mental, que desenvolve a criatividade nos estudantes e os transformam em cidadãos mais atuantes. Trabalhamos também com cartazes sobre o projeto e apresentações sobre o tema em sala, com o apoio da professora Fabiane do 5º ano. Criamos desenhos que representavam as moradias no Glicério, além de um estudo planejado sobre o colapso do prédio do Largo Paissandu. Discutimos as questões relativa aos problemas das moradias insalubres e a questão do prédio Wilton Paes de Almeida. Acabamos envolvendo toda a escola nesse projeto e viramos capa da revista Nova Escola. 

Após, toda a síntese teórica em sala de aula com mapas, fotos, desenhos e cartazes feito pelos alunos, foi necessário levá-los até o Largo Paissandu, onde fizemos de fato a aula pública para estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental. O tema da aula foi sobre as moradias no centro da cidade, a Imigração no Glicério, a vulnerabilidade em relação a esses temas e fato ocorrido no Largo do Paissandu com a queda do prédio ocupado por moradores sem teto. Após as aulas teóricas e relatos, fomos conhecer de perto a situação.

Foi tratado durante o curso uma forma diferenciada em abordar de maneira mais aprofundada o ocorrido nas aulas de Geografia. O centro da capital paulista vive há anos um drama habitacional permanente: o descompasso entre a alta dos aluguéis e os baixos salários da população, a falta de políticas de moradia e a especulação imobiliária desenfreada empurram milhares de famílias brasileiras e estrangeiras para ocupações em edifícios em péssimas condições de moradia. O desabamento do prédio sensibilizou os alunos porque muitos vivem em situação semelhante. Surgiu, então, a ideia de alertar outras famílias da comunidade escolar sobre as consequências do descarte irregular de lixo e as más condições das instalações elétricas das ocupações, fatores que contribuíram para o incêndio e posterior desabamento.

Essa mobilização resultou também em uma aula pública que passou pelo Largo do Paissandu, realizada para as turmas do 8º e 9º anos. O desabamento me deu a chance de aprofundar a conversa sobre outros temas que integravam o projeto. A discussão encaixou perfeitamente, pois o fenômeno das ocupações irregulares é consequência da dificuldade de acesso à moradia. O debate se mostrou tão relevante para a realidade dos alunos que decidi incluí-lo em meu planejamento regular e aprofundar as discussões nos grupos. Vale ressaltar que a disciplina de Geografia costuma ser definida – em tom pejorativo – como um mero ensino de atualidades. Mas seu papel não é só o de relatar fatos recentes. “A atualidade geográfica propõe ao aluno uma análise do acontecimento que o relacione com processos desenvolvidos em outros tempos ou espaços”, explica Sueli Furlan, doutora em Geografia Física pela USP e especialista no ensino da disciplina.

A abordagem não é nova: desde a década de 1980, a Geografia passou a incorporar uma visão mais crítica da realidade. “A BNCC recupera o trabalho com procedimentos geográficos, como a análise de mapas que desenvolvem o pensamento espacial dos estudantes”, lembra Sueli. Essas mudanças na minha disciplina ocorreram, a partir do currículo da cidade de São Paulo, na área de Geografia, que vem sendo desenvolvido com o nosso projeto a partir do Ciclo Autoral (7º ao 9º ano), que destina-se aos adolescentes e tem como objetivo ampliar os seus saberes e permitir que compreendam, a realidade na qual estão inseridos, explicitem as suas contradições e indiquem possibilidades de superação, é o que venho fazendo com minhas aulas públicas no território educativo da cidade de São Paulo.

Qual a melhor forma de tratar temas delicados como falta de moradias com alunos?

Para tratar temas delicados, tão presente na vida de nossos alunos que moram no Glicério, precisamos nos envolver e abrir a escola para comunidade.  É exatamente isso que estamos fazendo desde o surgimento do projeto “Aula Pública”, que é conectar a escola a comunidade e leva-los a reconhecer-se através dessa pratica o respeito ao bairro e aos espaços educativos da cidade, e assim garantir acesso aos direitos básicos da sociedade garantido sua cidadania. É um longo caminho que venho trilhando desse 2010, quando coloquei os pés na EMEF Duque de Caxias.

Com a implantação do projeto fizemos com que os alunos conhecessem a importância de se preservar o espaço público e reconhecer através dele o seu papel na sociedade, contribuindo para que ele fosse o ator principal dessa transformação, através das visitas nos espaços públicos em que vive, além de favorecer sua formação intelectual e cidadã e que compreendam e entendam as questões políticas da sociedade brasileira, bem como da sua região, especificamente.

O projeto estimulou a formação de líderes e fortaleceu o entendimento da valorização do espaço e de sua ocupação. Tem se inovado a cada dia e vem acompanhado de uma trajetória de alguns anos (desde 2010 até os dias de hoje), com a clareza de que atravessar os muros da escola é o caminho certo na transformação da sociedade e na ocupação do território urbano pelos alunos da EMEF Duque de Caxias.

Criamos na comunidade do Glicério uma interligação entre os temas propostos tão delicados antes não nos deixavam tirar fotos e nem se dispunham a contar histórias. Hoje, a aceitação aumentou, e quebramos uma armadura muito grande, pois a população não só está mais receptiva a tudo isso como ajuda a promover a Aula Pública, nos espaços educativos.

A EMEF Duque de Caxias reúne mais de mil estudantes do primeiro ao nono ano do Ensino Fundamental. À noite, recebe turmas de Educação de Jovens e Adultos. São 36 salas de aula e mais de 90 funcionários. A escola recebe também uma grande quantidade de alunos estrangeiros, mais de vinte nacionalidades entre sírios, marroquinos, colombianos, dominicanos, haitianos entre outras nacionalidades. Tratar de temas tão delicados vem de um trabalho constante que venho desenvolvendo ao longo da última década no bairro do Glicério e que conto com o apoio de algumas organizações do bairro e de professores da nossa EMEF, além de pessoas da própria Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME).

 Como o ensino de geografia se encaixou no contexto do projeto?

A disciplina de Geografia se encaixou perfeitamente no projeto, pois ela tem nos dado a clareza de que podemos transformar a educação a partir dos relatos vivos. Durante minha formação percebi que podia aproximar meu conteúdo das atividades locais assim como incorporar a comunidade a minha disciplina.  A Geografia vive da atualidade nesse novo momento, não podemos viver de uma geografia que vira as costas aos problemas sociais brasileiro, desde os anos de 1980, a Geografia passou a incorporar uma visão mais crítica da realidade.

Estamos também embasados em teorias e conceitos estruturantes como os de território, paisagem, natureza, lugar e região tão bem representados nos estudos de Milton Santos, Thiago Macedo Alves, Edgar Morin, Manuel Correia de Andrade, Ana Fani Carlos, Lana S. de Cavalcante, Roberto Lobato Corrêa, Ronaldo Duarte, Otavio Ianni e Ruy Moreira, entre outros autores de referência e que são utilizados em minhas aulas de Geografia.

Quais as principais conclusões do projeto, do ponto de vista do ensino?

Os resultados atingidos nos mostram que estamos no caminho certo, conseguimos sensibilizar os alunos, os professores, a gestão da escola e a comunidade do Glicério de que a transformação se passa pelo direito à cidadania. Ocupar o espaço através de uma aula pública e discutir os problemas da comunidade revitaliza as ações e fortalecem o processo educacional. Transformamos o Glicério, um bairro tão degradado, com ações simples, olhando uns nos olhos dos outros. Hoje, nossas crianças voltaram a andar de bicicleta e jogar bola no bairro. Através do projeto, incentivamos a participação da comunidade. Ressaltar a cidadania e a história da cidade de São Paulo e de seus bairros é fundamental nessa conquista. Ganhamos a rua e ocupamos espaço.

Aprendemos que mudar é sair da nossa área de conforto e quando defendemos ir além dos muros da escola, queremos garantir uma aula sobre a preservação do patrimônio material e imaterial e da história do bairro afirmando o direito a cultura e a liberdade.

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