fbpx
28/04/2019

Educação midiática: uma referência para ir além de “formar alunos críticos”

Rodrigo Ratier*

Mesmo com suas polêmicas e imperfeições, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) oferece alguns caminhos férteis para a renovação do ensino no país. Vou me ater a um ponto que me é caro: a noção de educação midiática. É importante que o termo tenha adquirido relevância no documento norteador dos currículos. Afinal, as mídias são hoje parte central de nossa vida. Crianças e jovens em idade escolar são nativos digitais, o que significa que muitos deles possuirão mais familiaridade do que nós com as ferramentas midiáticas disponíveis. O que não significa que possuam competências midiáticas – e é aí que a escola pode incidir.

Em programas de comunicação e educação, muito se fala em formar alunos com “senso crítico”. Penso que, de fato, esse é um dos grandes desafios da educação no atual cenário de transição tecnológica. Mas o que é ser crítico? Por causa do uso indiscriminado da palavra, “crítico” tornou-se um termo de significado fluido, onde cabem todas as aspirações nobres que almejamos com nossas iniciativas pedagógicas. Por causa dessas limitações, problematizo, em minha dissertação de mestrado, a questão da criticidade, buscando uma reconceituação do termo e inserindo-o num contexto que permita analisar mais globalmente as competências midiáticas.

Nesse ponto, recorro à contribuição do venezuelano José Martinez de Toda, ainda pouco conhecida no Brasil. Sua tese de doutorado Le Sei Dimensioni Della Media Education (“As seis dimensões da Midiaeducação”) foi publicada em 2002, mas segue atual. O autor oferece um instrumento para a aferição dos resultados das experiências educativas sobre mídia: a comparação das características do sujeito antes da intervenção pedagógica (“quiçá pós-moderno, fragmentado, consumista, pragmático”) e depois dela.

Baseado em levantamentos da literatura mundial, Martinez de Toda explica que o sujeito depois de uma iniciativa de comunicação e educação deve ser, idealmente, um “sujeito multidimensional”, possuidor de seis competências: sujeito ativo (faz a comparação do texto da mídia com seu próprio contexto), conhecedor (tem um grande conhecimento sobre a mídia), maduro (libera e controla sua imaginação a partir dos estímulos da mídia, sabe o momento de se desconectar), social (passa a fazer parte de grupos e comunidades interpretativas de construção de sentido), crítico (capaz de julgar e criticar a mensagem da mídia a partir de sua identidade cultural) e criativo (recria textos e escreve novas histórias).

Como se vê, Martinez de Toda considera tanto o polo da recepção (a forma como vemos a mídia) quanto a produção (a forma como fazemos mídia). Essa condição híbrida é a forma na qual se encontram nossos alunos, também alçados à condição de mídia pela digitalização e pela cultura das telas: não apenas recebem conteúdos, mas também o reproduzem, comentam, compartilham, criam suas próprias produções. São, conforme diz o futurista Alvin Tofler, prosumers, neologismo em inglês que indica a junção de produtores e consumidores.

Nesse sentido, é oportuno ter uma definição bastante precisa do que significa ser crítico e não esquecer que há outras competências igualmente importantes a trabalhar. Vamos considerar isso no planejamento de nossas aulas?

* Doutor em Educação pela USP, professor de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Este artigo adapta trechos da dissertação de Mestrado “A Centralidade da Comunicação na Socialização de Jovens”, do mesmo autor.

 

 

Entretanto

Entretanto Educação
Avalie o artigo
[Total: 1    Média: 5/5]
COMPARTILHE
PARTICIPE
Faça seu login
Avalie o artigo
[Total: 1    Média: 5/5]
COMPARTILHE
Recomendados
Outras matérias da mesma editoria