07/12/2020

Como anda a saúde mental dos educadores na pandemia? Pesquisa traz respostas sobre o tema

Danielle de Souza Costa, PhD e psicóloga

Em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a Pearson se perguntou como estava a saúde mental dos educadores de sua rede de parceiros nesses duros tempos de pandemia. Cento e um educadores da rede participaram da pesquisa científica, sendo que 70 apresentaram dados válidos para análise e é desse grupo os resultados que vamos apresentar aqui. Todos foram voluntários do estudo e, por isso, somos muito gratos.

A pesquisa foi realizada entre 10 de setembro de 2020 a 03 de novembro de 2020 por meio da plataforma Surveymonkey. A maioria dos participantes declarou ser do sexo feminino (84%), ter escolaridade equivalente ao nível superior (83%), ser casada (78%) e trabalhar entre 4 e 8 horas por dia (62%). A maior parte dos voluntários diz lecionar em uma (50%) ou duas (30%) modalidades do sistema educacional, sendo as principais Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio. Contamos com a participação de profissionais ocupando outros cargos, como coordenação pedagógica (11%) e diretoria (11%), porém 64% eram professores.

Nesta pesquisa, saúde mental seria definida como o nível de bem-estar psicológico de uma pessoa. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)¹, a saúde mental é um componente integral e essencial da saúde, portanto, é mais do que apenas a ausência de transtornos mentais ou deficiências:

“A saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe suas próprias habilidades, pode lidar com as tensões normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e é capaz de contribuir para sua comunidade. A saúde mental é fundamental para nossa habilidade coletiva e individual, como humanos, de pensar, se emocionar, interagir uns com os outros, trabalhar e aproveitar a vida.”

A saúde mental de uma pessoa depende de muitos fatores, incluindo aspectos biológicos, psicológicos e sociais que lhe influenciam ao longo de toda a sua história de vida. Para avaliar o estado de saúde mental dos participantes, usamos duas estratégias: perguntar sobre possíveis diagnósticos recebidos ao longo da vida, incluindo atualmente, e através do Inventário Breve de Sintomas, o BSI².

Os transtornos investigados na pesquisa seguem os parâmetros indicados no DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais³. Vinte e nove porcento (29%) relataram ter ou já ter recebido algum diagnóstico de transtorno mental. Desses, a maioria (87%) relatou apenas um transtorno mental na vida. Entre os transtornos investigados, foram selecionados com maior frequência insônia (20%), ansiedade generalizada (18%), depressão (16%) e transtorno de pânico (14%). Esse perfil não parece muito distinto daquele encontrado no país e ao redor do globo, o qual sugere que problemas de saúde mental estão entre os fardos mais significativos afetando a funcionalidade dos seres humanos4,5.

O Inventário Breve de Sintomas (BSI) avalia o nível de estresse negativo, incômodo ou angústia percebidos pela pessoa em relação à 53 problemas ou sintomas psicológicos que ela possa ter vivido, nos últimos 7 (sete) dias. Quanto mais problemas a pessoa tiver vivido e maior a angústia (de nenhuma à extrema) que ela percebe sentir em decorrência desses problemas, maior será a sua pontuação no Inventário Breve de Sintomas (BSI). Sendo assim, pontuações mais altas indicam maior distress psicológico (isto é, menos saúde mental). No BSI, 7% dos participantes apresentaram um escore elevado de Gravidade Global (igual ou superior ao percentil 95) e 16% um escore de desconforto acima da média brasileira (entre percentil 75 e 95)6. Entre as dimensões investigadas, problemas como queixas somáticas, sensações de inadequação e inferioridade pessoal, autodepreciação, dúvida de si mesmo, incômodo perceptível durante interações interpessoais e alienação interpessoal parecem trazer um sofrimento maior para a maioria dos participantes com escores mais altos no BSI. A necessidade de melhorar a qualidade de vida no campo psicológico é percebida por cerca de 37% dos participantes.

A educação é o maior recurso de mudança positiva de uma nação7, cuidar do capital mental de nossos educadores faz apenas sentido. Em todo tempo.

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  1. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/mental-health-strengthening-our-response
  2. Derogatis, L. R. (2019). BSI – Inventário Breve de Sintomas. São Paulo: Pearson Clinical Brasil.
  3. American Psychiatric Association. (2014). DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Artmed Editora.
  4. Lopes, C. D. S. (2020). How is Brazilian’s mental health? The importance of birth cohorts for better understanding the problem.
  5. Souza, M. D. F. M. D., Duncan, B. B., Schmidt, M. I., Kieling, C. C., Naghavi, M., & World Health Organization. (2018). Burden of disease in Brazil, 1990–2016: a systematic subnational analysis for the Global Burden of Disease Study 2016. The Lancet. London. Vol. 392, no. 10149 (Sept. 2018), p. 760-775.
  6. Serpa et al. (2020). Brief Symptom Inventory: reporting Brazilian populational parameters during COVID-19 pandemics. Archives of Clinical Psychiatry (São Paulo). Artigo aceito para publicação.
  7. Dyakova M, Hamelmann C, Bellis MA, Besnier E, Grey CNB, Ashton K et al. Investment for health and well-being: a review of the social return on investment from public health policies to support implementing the Sustainable Development Goals by building on Health 2020. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2017 (Health Evidence Network (HEN) synthesis report 51)

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