06/08/2021

Bilinguismo: possibilidades e perspectivas para hoje e o futuro

Dominar um segundo idioma é abrir mais que portas: é adentrar a um universo de possibilidades. Em atenção às demandas do bilinguismo para agora e para o futuro para a vida e trabalho, convidamos Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV e integrante da Comissão Global sobre o Futuro do Trabalho, da ONU, para falar sobre os aprendizados na pandemia, as melhores práticas em ensino de idiomas e a importância de uma educação equitativa e qualitativa. Confira a entrevista:

 

Que aprendizados o início da pandemia deixou neste último ano sobre onde o Brasil precisa chegar quando o assunto é bilinguismo?  

A pandemia nos ensinou que compartilhamos a mesma condição humana e muitos dos problemas. O vírus, infelizmente, não conhece fronteiras e logo se espalhou por todo o planeta. Para resolver problemas planetários, nós precisamos de cooperação científica entre universidades, acesso à informações de processos de prevenção e do que vem se passando globalmente. E até para garantir aprendizado em casa, já que as escolas foram fechadas em quase 190 países, foi importante ter acesso ao que fizeram os países que foram afetados pelo fechamento das escolas antes de nós, como eles ligaram com o protocolo sanitário, por exemplo. 

Por isso, fica ainda mais claro que o bilinguismo é importante, ou seja, dotar as novas gerações não apenas da nossa bela língua que é o português, mas também de alguma língua que lhes permita se comunicar internacionalmente. Junto com isso, proporcionar aos jovens conhecer costumes, cultura e arte de outros países. 

O que significa educação equitativa e de qualidade e qual o impacto que isso tem no futuro do trabalho? 

Eu participei ativamente no desenho e na formulação da estrutura do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 (ODS4), quando fui diretora global de educação do Banco Mundial, ele não apenas diz que nós temos que ter acesso à educação ou garantir acesso de todos para a educação, mas diz que tipo de educação é essa. E daí vem a definição que ela tem que ser inclusiva, equitativa e de qualidade. O que quer dizer? Que nós temos que, por um lado assegurar aprendizagem de qualidade pra todos, e por outro lado garantir que não haja uma educação de segunda linha para aqueles que vêm de meios mais vulneráveis, que estão menos motivados ou que têm outros desafios para aprender. Ou seja, nós vamos ter que equilibrar a excelência com a equidade. 

No contexto do acesso à outras línguas, como por exemplo o inglês, isso significa permitir que a criança ou o adolescente seja exposto pelo menos a outro idioma desde o início do Ensino Fundamental. Não é possível se aprender uma língua tão diferente da nossa, como o inglês, simplesmente oferecendo no Fundamental II ou no Ensino Médio.  

É importante lembrar que o inglês, em particular, é uma língua franca. Ou seja, ela permite comunicação entre diferentes povos. Então, é muito importante que se exponha a criança, se ofereça à criança o aprendizado de uma segunda língua no começo do Ensino Fundamental, ou até, se possível, na pré-escola, mesmo em escola pública, como fez o Rio de Janeiro, que começou a oferecer inglês no Fundamental I e agora o Estado de São Paulo inicia um esforço na mesma direção. 

Ainda na área do desenvolvimento de um segundo idioma, que oportunidades os jovens que estão entrando no mercado de trabalho podem perde caso não desenvolvam um segundo idioma? 

O mercado de trabalho também se encontra globalizado e cada vez mais ele se globaliza. Nesse sentido, poder falar por vídeo chamada, por telefone com pares de outros países dentro da mesma profissão se torna extremamente importante. Por isso as empresas, de uma maneira crescente, vêm pedindo domínio de outras línguas, especialmente inglês e espanhol. Há que se evidenciar muitas vezes em entrevistas de seleção esse domínio. Esse é mais um motivo para se olhar com atenção para a possibilidade do bilinguismo. 

Tendo em vista as tendências de consumo de educação, o que os empresários do setor de Educação precisam estar atentos para oferecer as melhores formas de aprendizagem de um segundo idioma?  

Para construir um bilinguismo de verdade, é importante que não se ensine apenas a Língua Inglesa ou a Língua Francesa, dependendo da opção do bilinguismo. É importante que algumas outras disciplinas sejam ensinadas na segunda língua, e que haja um processo de comunicação entre o professor e as crianças na língua em que se está ensinando.  

Também é fundamental ter uma biblioteca escolar com livros acessíveis, não só digitais mas também físicos, na segunda Língua que está sendo ensina. Que o ambiente de cada sala de aula contenha também textos escritos e informações nos dois idiomas. 

É importante contar com professores que sejam nativos ou falem com fluência próxima ao dos nativos na segunda Língua escolhida. Explorar o teste oral para contratação desses professores também será importante. Para isso, vai ser muito importante que eventuais escolas públicas que quiserem aderir ao bilinguismo, que no concurso público incluam prova oral, não apenas prova escrita. Não faz sentido contratar professores de língua estrangeira ou que vão entrar no modelo do bilinguismo, que não sejam fluentes nessa segunda Língua adotada. Então, o processo de comunicação é tão ou mais importante que o escrito. 

Entretanto

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