19/11/2020

O papel do aprendizado no combate ao racismo

João Paulo Reis Soares

A educação é uma força fundamental no combate ao racismo. Não à toa, desde 2003 existe a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica. E neste dia 20 de novembro, esta pauta ganha ainda mais destaque.

O Dia Nacional da Consciência Negra nos coloca a refletir sobre a necessidade de repensarmos nossas práticas sociais e educativas. É importante sempre pensar que o ato educativo é um ato social: não existe uma escola no vazio social, o que ocorre em nossa sociedade respinga em nosso ato de educar, em nossas práticas educativas e em nossos alunos e alunas. Neste sentido é importante pensar que o racismo é algo construído. Ninguém nasce racista, mas devido aos diversos racismos que existem em nossa sociedade, aprendemos e muito com ele. Aprendemos a criar estereótipos, a criar preconcepções, a criar preconceitos, que impedem que vejamos as pessoas como elas realmente são, como seres dotados de história própria, de individualidades e que merecem ser respeitados.

Questionamos neste texto o papel do processo educativo no combate ao racismo. Se faz necessário primeiramente levantar um ponto difícil: o Brasil como instituição e como Estado se construiu em um processo tristemente racista. O processo de escravização de pessoas negras, com posteriores impactos ao acesso a direitos sociais e civis fizeram com que houvesse uma clara distinção entre a oportunidade de direitos entre pessoas não-brancas e pessoas brancas. Temos hoje a necessidade de olhar para trás, pensando no reflexo dessa história no presente. Atualmente a população negra ocupa os piores índices sociais da população brasileira, seja por renda, por violência ou por acesso a educação. E tudo está intrinsicamente imbricado a esta estrutura social em que vivemos. Portanto, precisamos, como educadores, assumir que o Brasil ainda carrega as marcas deste processo e que devemos tratar o racismo no presente, e não como uma coisa do passado. A educação sozinha não tem poder para transformar o mundo, mas ela com toda a certeza exerce um papel fundamental para isso.

Quando trabalhamos estas questões em sala de aula poderemos permitir que a diversidade perpasse por nossas práticas pedagógicas, tal pluralidade de saberes tem o poder de somar e não de esvaziar.

Desenvolver um espaço de educação inclusivo permite que nossos alunos compreendam a organização de nossa sociedade de modo a se inserirem como melhores cidadãos que as gerações anteriores, cidadãos esses capazes de enxergarem as diversidades, mas ao mesmo tempo compreende-las em suas individualidades e contextos, com um desenvolvimento de um sentimento de empatia, tão crucial para a vida em sociedade.

Certa vez a filosofa Djamila Ribeiro, autora do livro “Pequeno Manual Antirracista”, disse que empatia é um exercício cognitivo: aprendemos a internalizar e naturalizar o racismo, algo que não é natural do ser humano, e portanto podemos também aprender a não sermos racistas. Muito falamos das habilidades socioemocionais e seu papel para a formação do cidadão para o século XXI, mas precisamos sobretudo pensar que estas habilidades precisam ser trabalhadas e utilizadas no contexto do confrontamento desta realidade social, contextualizando o aluno e aluna neste mundo que vivemos, desenvolvendo assim um sentimento de empatia e respeito ao próximo.

Por fim, os educadores também devem pensar em seus alunos negros! Quando trabalhamos estas habilidades socioemocionais, também iremos trabalhar a potência nestas crianças oferecendo um espaço de desenvolvimento seguro, sem vieses, sem preconceitos, que ofereça um espaço para se desenvolver e ser um adulto capaz de conquistar seus sonhos e anseios. Em relação as crianças não-negras, é importante o desenvolvimento desta empatia tão mencionada neste texto, pois assim estas poderão também atuarem como agentes de mudança, garantindo um futuro com mais equidade e com igualdade de direitos. Mas é importante que este seja um trabalho diário e que não apenas seja trabalhado na semana do dia 20 de novembro. É importante criar um espaço constante de desenvolvimento cognitivo e social preparado para lidar com as novas demandas sociedade.

Entretanto

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