05/12/2020

Acolhimento e criatividade

Danielle de Souza Costa, Psicóloga, doutora e mestre em Medicina Molecular (UFMG)

Acolhimento e criatividade! Essas foram as duas palavras que a psicóloga Isabela Lima deixou de mensagem final em sua palestra sobre ansiedade, no fim de novembro de 2020. A palestra foi resultado de uma pesquisa apoiada pela Pearson com professoras e professores de sua rede de educação. Nessa pesquisa online, realizada entre setembro e novembro de 2020, buscava-se entender quais questões de saúde mental estavam afetando mais intensamente os profissionais de educação da rede. Entre os participantes, os problemas mais frequentemente relatados foram insônia, ansiedade generalizada, depressão e pânico. Felizmente, a frequência de transtornos mentais relatados não foi maior do que a geralmente encontrada na população em geral, no Brasil.

Na palestra e bate-papo online, a Dra. Isabela Maria Magalhães Lima, terapeuta cognitivo-comportamental em Belo Horizonte, explicou para as professoras e suas famílias uma perspectiva neurocientífica e evolutiva dos transtornos ansiosos, especialmente do Transtorno de Ansiedade Generalizada e do Transtorno de Pânico. Descrevemos um pouco do que foi apresentado nesse encontro, a seguir.

Nós, às vezes, nos esquecemos que somos bichos. O cérebro funciona com o objetivo de você sobreviver. Entretanto, a forma como o cérebro funciona para sobrevivermos pode não ser tão adaptativa agora quanto foi um dia. A ansiedade funciona como um sistema de alerta, para percebermos coisas que podem ser perigosas. É medo, mas de algo que ainda pode vir a acontecer, seja algo que realmente venha a acontecer ou não. A diferença, enfatiza Isabela, é que estamos cada vez mais preocupados (alerta!) com coisas “abstratas”; no passado, a preocupação era com coisas que ameaçavam nossa integridade física. A chegada de um inverno congelante pode não nos manter ocupados de antemão atualmente, porém, frequentemente estamos sobrecarregados pensando em como as pessoas vão nos julgar, nos erros que já passaram, na possibilidade de perder o emprego, num relacionamento que pode acabar. Veja bem! Todas essas coisas podem realmente acontecer, mas, você tentar antecipar tudo o que pode dar errado e se esforçar ao máximo para evitá-las, não é garantia de que nada de ruim aconteça. Da incerteza sobre o nosso futuro não podemos nos livrar.

Aqui, a psicóloga nos chama a atenção para um mecanismo que faz a ansiedade generalizada se manter: a intolerância à incerteza. Advinha só! A vida é feita de escolhas, cujas consequências são probabilísticas. É feita de eventos completamente aleatórios. Não saber o final antes de ele acontecer é algo tão certo quanto a morte e o seu cérebro detesta não saber. Ficar se perguntando “e se…?” e tentando resolver as coisas antes de elas acontecerem é uma tendência do ser humano, é automático: você pode não querer ficar pensando nisso, mas provavelmente vai. O que a psicóloga sugere, então? Não se preocupe em controlar a sua preocupação!

Procure ser menos intolerante às angústias comuns e até justificáveis da vida. Isso é natural, o medo é natural. Acolha os pensamentos e sentimentos ruins, não trate a ansiedade como algo que precisa ser “arrancado do seu corpo”. Se uma onda de pânico parece a caminho, não a tema: vai ficar tudo bem depois, como sempre. Deixa o corpo sentir, mesmo que não seja agradável. Tente aceitar com menos pavor a sua impotência, inclusive de não conseguir ajudar os outros como gostaria. Seja compassivo consigo mesmo (a). Pode parecer pouco intuitivo, contudo, se você se expõe mais àquilo que teme, o medo perde a força. Inclusive se o que teme é a sua própria mente. Além disso, procure ser criativo, flexível. Se está tentando resolver um problema e o problema não vai embora, tente resolvê-lo de uma forma diferente, mude de estratégia. E, claro! Não se esqueça de que o ser humano também é bicho. Cuide de suas necessidades básicas, permita-se dormir bem, comer bem. Leve-se para passear, apenas se estique, exponha-se à luz natural! Preocupação não lhe deixa mais preparado, não motiva, não previne nem resolve seus problemas. Quem ama age, não se preocupa. “Let it go”! MA-RA-VI-LHO-SA! Isabela, muito obrigada pela sabedoria! Já voltei a respirar por aqui.

Ao final, pensando em seus estudantes, as colegas professoras queriam saber como ajudá-los a lidar com a ansiedade de voltar para a escola pessoalmente. A Dra. Isabela disse que tem refletido bastante sobre isso. Para ela, com o isolamento, a memória “física” de como somos capazes de conviver bem com as outras pessoas está ficando distante, desbotada. Então, conviver com os colegas pode ser percebido pelas crianças e adolescentes (ou por nós adultos!) como algo novo, algo que eles não sabem fazer ou que não sabem como vai ser. Essa incerteza, evidentemente, pode gerar ansiedade. A psicóloga sugere que, antes de voltarem às aulas presenciais, que se fale mais sobre esse assunto, que se explique que é natural sentir medo e/ou ficar ansioso. Sugere que as crianças possam falar sobre sua ansiedade, que tirem suas dúvidas, que percebam que não são só elas que se sentem assim, que isso é normal. As crianças podem ser lembradas de como era quando estavam na escola, o que faziam na hora do recreio, como eram as atividades em grupo, quais eram seus amigos mais próximos e do que conversavam quando estavam juntos. Visualizar como elas já passaram por isso e que estava tudo bem, reavivar a memória de que elas são capazes de se relacionar bem com várias pessoas ao mesmo tempo. Isso pode ser feito em videoconferência, depois em pequenos grupos, por exemplo. Uma ambientação por aproximação.

As coisas não estão mesmo fáceis, ficar ansiosa ou ansioso é absolutamente normal! Se estiver tendo prejuízo no seu cotidiano por causa disso, procure ajuda profissional! Fiquem bem.

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