17/06/2021

O que significa “acolher” a diversidade de gênero?

Por: Marina López Moreira*

As palavras “diversidade” e “gênero”, quando usadas na mesma frase, podem arrepiar alguns ouvidos mais conservadores. A outros, talvez cause uma sensação de pertencimento e acolhimento. A verdade é que ainda falta muita informação a respeito do assunto e sobra desinformação que reforça estereótipos limitantes e preconceitos. Quando falo em estereótipos limitantes, não me refiro apenas ao “meninas vestem rosa, meninos veste azul” (apesar de este ser um claro exemplo disso!), mas também ao fato de ainda perceber que há um viés enraizado a respeito dos papéis que mulheres/meninas e homens/meninos devem exercer na sociedade. Ainda causa certa estranheza quando vemos mulheres pilotando aviões ou trabalhando na construção civil, ou quando homens exercem a profissão de professor de educação infantil ou bailarinos.

O acolhimento a essa diversidade começa quando, em vez de comprar para a filha aquele brinquedo que a ensina a cozinhar, lavar a louça, passar roupas e outras atividades relacionadas a tarefas de casa, deixar que a própria menina expresse o seu desejo, mesmo que não esteja em conformidade com aquilo que esperamos do sexo feminino. Nem todas as meninas querem brincar com bonecas, ou de fadas, ou de casinha. Assim como nem todos os meninos querem jogar futebol ou brincar com carros de corrida. E isso não significa que tal incentivo deixará a criança confusa e afetará a sua orientação sexual ou identificação de gênero. Entretanto, mesmo que esse seja o caso, é necessário reconhecer que pessoas LGBTQIA+ também desejam agir e pensar de acordo com suas próprias vivências, e não de modo programado pela sociedade. 

Por isso, é preciso permitir que as crianças brinquem e explorem todos os papéis dos gêneros que desejarem. A opressão a essa expressão pode ocasionar angústia, traumas e comportamentos impopulares, pois o sujeito não se sentirá a vontade para se expressar plenamente em situações sociais, seja heterossexual, seja homossexual ou transgênero.

Na escola, não dá para ser diferente. Em vez de reforçar, por exemplo, que “meninos jogam futebol; meninas jogam vôlei”, os professores podem estimular práticas esportivas mistas e coletivas, para que todos possam aprender sobre os esportes e se divertir juntos. Se notamos, em sala de aula, que um aluno (do sexo masculino) está sofrendo bullying porque se interessa mais pelas aulas de Artes, não podemos reforçar esse comportamento, mas sim incentivar que os alunos percebam em quais áreas se destacam, se interessam, e encarar as diferenças individuais de forma positiva. A escola deve ser um espaço em que as crianças e os adolescentes possam explorar suas possibilidades, e as famílias devem ser orientadas sobre o quanto isso é positivo para o desenvolvimento socioemocional e a autoestima dos alunos. 

Conviver com a diversidade e respeitá-la não significa a obrigação de aceitar ou não essas diferenças. Contudo, o acolhimento é fundamental, tendo em vista que os espaços educacionais devem ser espaços de segurança e conforto para os alunos. Esse acolhimento pode ser exercitado por toda a comunidade, por meio de ações educacionais que visam orientar a população a respeito da diversidade e, também, das práticas diárias, como permitir que as meninas brinquem com robôs, blocos de construção, quebra-cabeças e os meninos com bonecas, panelinhas e outros itens geralmente encontrados nas seções “femininas”. Ao exercer diferentes papéis, as crianças aprenderão, desde cedo, a se colocar no lugar do outro, praticando a empatia e desenvolvendo a compreensão de que homens, mulheres e pessoas não binárias devem ter os mesmos direitos.

 

*Marina López Moreira é Editora New Skills da Pearson, formada em Letras, lésbica e tutora de gatos

Colaboração

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