24/05/2021

A economia do cuidado e o impacto no gap de gênero

Por: Dani Junco

Tentando equilibrar para ouvir o mínimo possível: “Mãe, já acabou” e saber que estou só começando, reservo espaços de tempo da agenda para ter momentos com ele durante o isolamento.

Foram várias fases:

  • Primeiro, me sentindo insuficiente e sempre tendo que escolher as batalhas o tempo todo;
  • Depois negligente. É o terceiro dia sem escola presencial (de novo porque 2020 eu pulei real) e eu simplesmente não consigo deixar ele 4 horas no meu computador e não achei uma saída;
  • Logo em seguida, com raiva. De ter que me explicar o quanto é complexa essa equação para todo mundo ao redor que não entendem que precisam fazer sua parte.
  • E por último culpada, em ter tantos privilégios e me ver sentada chorando sendo que tem tantas mães que falta o básico e tem zero rede de apoio.

Em várias redes sociais e grupos de WhatsApp escutei (e falei) essa frase: “Estou com medo do meu filho ficar para trás”. Principalmente de mães com crianças até 6 anos mais ou menos. Medo, ansiedade, nanos surtos por não estarem cumprindo no online toda a grade, e não é à toa que se chama assim, curricular. E claro, a saída do trabalho e a economia invisível do cuidado não remunerada.

O que contribui para que essas cenas se repitam:
  • Segundo o IBGE, quase metade dos lares brasileiros são sustentados por mulheres, um salto de 45% a partir de 2018. Mais de 5 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e são mais de 12 milhões de mães solo no país, que não têm apoio financeiro e/ou emocional na criação dos filhos;
  • Em várias cidades brasileiras, quase 70% das crianças de zero a três anos não têm acesso à creche. O que as classes sociais mais abastadas estão sofrendo na pandemia com as escolas particulares fechadas, quem depende de creche já vive há anos;  
  • A ONU Mulheres calcula que em 2021 haverá 435 milhões de pessoas do sexo feminino pobres, 11% a mais se não tivesse acontecido a pandemia;  
  • A FGV confirma que 50% das mulheres não voltam a trabalhar após a licença maternidade e tem dificuldade até 2 anos de recolocação; 
  • No que diz respeito a startups, apenas 2,2% do investimento em Venture Capital é para empreendedoras mulheres, de acordo com o “Female Founders Report 2021”, estudo conduzido pela B2Mamy, Distrito e Endeavor.
E qual o resultado disso? 

Em 2017, o Brasil se posicionou na 90ª posição – de 144 países – do ranking global de Gender Gap do World Economic Forum. Enquanto o mundo lentamente progrediu em direção ao fechamento do gap de gêneros nos últimos 5 anos, o Brasil não avançou, ainda pior, regrediu.

E porque isso é relevante: 
  • Não há inovação sem diversidade. Você não vai conseguir respostas diferentes perguntando para as mesmas pessoas; 
  • A primeira infância é a fase mais relevante para os novos cidadãos do mundo. Sem renda, dignidade e/ou distanciamento dos filhos as mães não conseguem ter a saúde mental necessário para essa essa fase de ouro, o que é um problema de saúde pública;
  • A economia precisa girar e não é possível que isso aconteça com 50% da população de fora ou subjugadas com salários 30% menores do que o dos homens. A retomada é diversa, inclusiva e plural. Os países com melhor PIB estão em ótimas posições no Gender Gap do Fórum econômico mundial;
  • Mais políticas publicas, mais investimento da iniciativa privada e mais conscientização da população. Porque podem não ser mães ou pais, mas se tem algo em comum em qualquer lugar do mundo, é que todos nós somos filhos. Todos nós precisamos de uma sociedade mais justa e igualitária.

Dany Junco é mãe de Lucas e fundadora da B2Mamy, uma aceleradora de negócios focada em mães empreendedoras.

Colaboração

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