Aulas Públicas e a Ocupação de Espaço

por: Paulo Roberto Magalhães

Este projeto foi um dos vencedores do prêmio “Territórios Educativos” do Instituto Tomie Othake, de 2016.

Um dos princípios básicos do reconhecimento é a00 ocupação do espaço.

Meu projeto de ocupação do espaço, através de “aulas públicas”, ainda cumpre seu principal objetivo que é o de retomar a presença dos moradores na cidade, garantindo que outras pessoas possam conhecê-la, ou reconhecê-la, como nossa. A repercussão dele foi extremamente positiva e o projeto foi reconhecido por órgãos públicos.

Tudo começou com uma análise de possível transformação da Educação a partir dos muros da escola municipal Duque de Caxias, localizada no bairro do Glicério, em São Paulo, capital. A nossa escola tem 36 classes, 1000 alunos, que estudam nos três períodos (manhã, tarde e noite). À noite, recepcionamos o projeto EJA – Educação de Jovens e Adultos, que é constituído basicamente de refugiados/imigrantes de outros países, além de brasileiros.  Em 2010, iniciei uma ação educativa com a exposição “A cidade esconde o rio”: a história da várzea do rio Tamanduateí , em parceria com a Fundação Energia e Saneamento e a Diretoria Regional de Educação Ipiranga, da Prefeitura Municipal de São Paulo.

 

Primeiramente viabilizamos o desenvolvimento do projeto educativo com nossos alunos da escola Duque de Caxias. O projeto, coordenado por mim e pela equipe do Núcleo de Documentação e Pesquisa, trabalhou com a valorização da história local, a partir de documentos e fotografias do acervo e, como produto final, a elaboração de uma exposição sobre o bairro do Cambuci e a Baixada do Glicério. O trabalho envolveu diretamente 40 estudantes e contou com várias etapas, como estudo de observação da região, visitas ao Museu da Energia de São Paulo, ao Núcleo de Documentação e Pesquisa e à exposição Memória do Gás, além de pesquisas em arquivos e bibliotecas. Ao final, apresentamos a exposição aos demais alunos da Escola. Foram nossas primeiras saídas e o início deste processo de “quebrar” as barreiras do muro da escola. Fomos recebidos com uma certa desconfiança pelos moradores do bairro do Glicério, porém, no final do projeto, apresentamos para a comunidade e os alunos todo o material coletado, com banners contendo fotos e artigos da região.

 

No ano seguinte, demos continuidade ao projeto de pesquisa. Os alunos participaram de oficinas de fotografia e de história oral, fizeram estudo do meio na baixada do Glicério, visualizaram e reconheceram a região através do arquivo histórico da Fundação Energia e Saneamento – o que originou o Programa da Congás. O programa foi o meu primeiro passo com o objetivo de tentar fazer com que nossos alunos ocupassem o espaço da Baixada do Glicério que. por tanto tempo, foi abandonado pelo setor público. Aos poucos, fomos saindo da escola e fazendo visitas monitoradas para locais da região da Sé, como o Catavento,  Sesc Parque Dom Pedro, Câmara Municipal de São Paulo, Instituto Banco do Brasil Cultural e Caixa Cultural, Sala São Paulo, entre outros espaços educativos. Muitos alunos nem conheciam estes locais tão próximo deles, pois a região da Baixada do Glicério, que está localizada no Bairro da Liberdade, região central, antigo distrito da Gloria, foi o ponto de chegada para pessoas que eram marginalizadas pela sociedade desde o começo da fundação da cidade de São Paulo. É um bairro de grande extensão, levando-se em consideração a proporcionalidade espacial.

 

É uma região central, portanto, com características peculiares como, por exemplo, cortiços. O bairro tem um grande potencial econômico, já que o comércio é a principal atividade exercida, além de um fluxo constante de moradores que se instalam ou vão embora, além de imigrantes como bolivianos, paraguaios, chilenos, angolanos e sírios. Ali, também convivemos com problemas sociais, como prostituição, drogas, dentre outros. Como orientador e articulador entre os alunos e a comunidade, a partir desse projeto comecei a vasculhar o território aos poucos. A violência urbana e social era muito presente naquela região, onde viviam famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica.

 

Reconstruir este espaço era uma necessidade. Tivemos, durante esse processo, muitos colaboradores. Um deles é o projeto Criança Fala, que, por meio de metodologia lúdica de escuta, inclui as vozes e olhares (o que querem, pensam, sonham, desejam, suas ideias, necessidades) de crianças e jovens na elaboração e execução das políticas públicas, projetos arquitetônicos, projetos políticos pedagógicos e gestão de espaços e equipamento.

Também contamos com o projeto Brincarte, que promove a ocupação dos espaços públicos por meio de intervenções lúdicas urbanas, ações e atividades culturais para a comunidade, e para todas as idades. Outro parceiro foi o projeto Educacidade, que integra escola e cidade em uma perspectiva de “cidade educadora”, onde o aprendizado pode acontecer em qualquer local.

Agora estamos em 2016, ano em que inovamos os projetos educacionais. Em Junho passado, realizamos cortejos e trajetos em homenagem ao cantor Luís Gonzaga. Participaram 420 crianças e 60 professores. Avançamos com o projeto “Caminhada da Paz”, com confecção de cartazes e faixas que levaram a mensagem universal para todo o bairro: a paz.

 

Entre todas essas atividades, que têm como objetivo a ocupação do território urbano, uma delas me motivou a participar do curso “Potenciais educativos do território Urbano – Rumo à Cidade Educadora”. O curso foi um incentivo à construção de um espaço formativo de sensibilização e vivência no centro de São Paulo, voltado para educadores e desenvolvido a partir de estratégias concebidas e implementadas por diferentes agentes que atuam na região, tais como equipamentos de cultura e meio ambiente, organizados pela sociedade civil, coletivos de ocupação do espaço público, entre outros.

 

Foi justamente essa articulação comunitária a responsável por dar novas cores à região do Glicério. O Criança Fala auxiliou os alunos a pintarem paredes e muros, levando as crianças à rua. Hoje, as paredes da Vila Suíça estão lotadas de grafites, assim como o próprio asfalto. Segundo os moradores, isso mudou drasticamente o uso do espaço. E esta ação singela bastou para que estudantes pudessem pesquisar e conhecer um pouco mais sobre a história do bairro e da cidade em que vivem.

 

O meu sonho estava se concretizando. “Isso aqui é uma aula pública, e a comunidade pode participar”, eu anunciava. O ambiente era muito favorável à troca de conhecimentos. Inaugurada em 1940, a Vila Suíça hoje é um patrimônio tombado da capital paulista. Esta informação partiu de uma moradora que, ao ver os alunos e professores reunidos na rua, quis participar. Tudo mudou a partir daquele dia: o Glicério seria outro e a vida dessas crianças mudaria para sempre.

Basicamente, os temas abordados e apreendidos durante as aulas são o reconhecimento da cidadania a importância de se preservar o espaço público. Os alunos são estimulados a perceberem a si mesmos como atores principais na transformação do cotidiano que os cerca, entendendo Geografia, Histórias, e também compreendendo questões políticas da sociedade brasileira que interferem diretamente na vida deles. Espero que possamos formar verdadeiros líderes sociais.

Para mim, uma boa prática educacional deve vir acompanhada de uma abertura para o aluno se envolver no processo de aprendizagem. Um reconhecimento deste pensamento e deste trabalho que desenvolvemos aconteceu na Semana Mundial do Brincar, que aconteceu entre os dias 21 e 28 de maio deste ano. Foram distribuídos materiais de apoio para os educadores presentes espalharem a ideia da brincadeira ao ar livre.

Revendo tudo isso, acredito que consegui impactar e influenciar outros professores, e até outras escolas da rede municipal de São Paulo, pois os resultados e reconhecimentos apontam que estamos no caminho certo. Conseguimos sensibilizar os alunos, seus pais, os professores, a gestão da escola e toda a comunidade. Transmitimos a ideia de que a transformação social começa no direito à cidadania, e promover uma aula em um espaço público fortalece tanto o processo educacional quanto social. Começamos em um bairro visto como violento e degradado e, com ações simples como uma caminhada, um grafite, ou só uma conversa. Olhamos nos olhos da população e ressaltamos a importância da história local.

Pretendemos continuar com ações inovadoras, e estamos com as portas da escola abertas para sugestões. Acredito no potencial multiplicador deste projeto, que integra tantas pessoas e tantos espaços. Nele, trabalhamos uma das maiores tendências da Educação: a interdisciplinaridade, afinal, professores de disciplinas escolares variadas fizeram parte de todo o processo.

Também contamos com muitos colaboradores, que fizeram com que os jovens enxergassem o valor do trabalho coletivo. E trabalhamos, de forma integrada, a relação com a cultura e com a preservação do patrimônio material e imaterial dos moradores. Hoje, o bairro do Glicério, onde tudo começou, abre as portas para toda a comunidade, incluindo a escolar. Veja mais no vídeo, acima.

Por Paulo Roberto Magalhães, Professor Me. em Urbanismo na PUCAMP, Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Bacharel em Ciências Políticas, também pela Unesp. 

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