Análise: Produtores de tecnologia educacional estão sob pressão

por: Entretanto

Os gestores de tecnologia educacional estão na berlinda, pois enfrentam as demandas dos consumidores e usuários, além das pressões dos fabricantes. Estamos acompanhando o surgimento de ferramentas tecnológicas e aplicativos voltados para a Educação, que estão se proliferando em um ambiente que exige alinhamento constante entre as instituições de ensino e seus alunos, principalmente as de ensino superior. Afinal, está é uma das formas de prepará-los para suas carreiras.

 

Algumas das expectativas em relação ao trabalho desdes gestores são elevar as notas e pontuações, aumentar as taxas de conclusão dos cursos e até mesmo a otimização da graduação como um todo. Não são decisões concretizadas, ainda, mas as evidências são baseadas nos atuais modelos de formação. O que muitos esperam é que a tecnologia educacional seja a fórmula mágica para muitos dos desafios de ensino.

 

Uma pesquisa encomendada pelo site The 74 Million, que trata a respeito de notícias envolvendo a Educação nos Estados Unidos,  quer saber como as decisões em relação à tecnologia educacional estão sendo tomadas e o que pode ser feito para apoiar e melhorar este processo. Para isso, no ano passado, a Edtech Efficacy Research Academic Symposium entrevistou 52 gestores do ensino superior, entre eles, presidentes, diretores executivos de Informação e diretores de aprendizagem online e digital.

Como resultado, os pesquisadores encontraram uma boa quantidade de pessoas que estavam sob pressão e enfrentando um processo complexo de tomada de decisões, procesos este que poderia ser melhorado com uma otimização tecnológica.

 

Os gestores se esforçam para processar um excesso de informações sobre os produtos e as tendências da tecnologia educacional, e são diligentes ao coletarem constantemente estas informações, em grande parte adquiridas dos colegas, nas próprias instituições de ensino superior ou até mesmo em eventos relacionados à tecnologia educacional, como: conferências. O desafio é que os dados obtidos através destas conexões informais são raramente fundamentados por rigorosas avaliações com relação à sua eficácia.

 

As instituições identificadas como “líderes de opinião sobre a tecnologia da educação” também foram as mais propensas a se retirarem dos grupos de pesquisa de ensino superior e “terceirizarem” seus estudos para empresas startups, sem se dicarem sozinhas à superação dos obstáculos de uma implementação tecnológica produtiva.

 

Conclusão: se quisermos fomentar a inovação do ensino superior, precisaremos incentivar as pessoas envolvidas neste processo a correrem riscos. Elas precisam de apoio para coletar evidências boas o suficiente para tomarem decisões, e terem espaço para margens de erro, ou seja, realizarem experimentos.

 

Com a pesquisa, foi descoberto também que o aprimoramento na tomada de decisão deve focar nas necessidades, envolver as múltiplas partes interessadas e procurar por evidências sólidas. Existe uma tensão entre a tomada de uma decisão e as práticas para sua resolução. Em alguns casos, as instituições seguem um modelo (mais ou menos) racional ao tomar uma decisão, primeiro identificando as necessidades e, em seguida, procurando ferramentas de tecnologia educacional apropriadas para solucioná-las.

 

Outras começam com as ferramentas de tecnologia educacional e tentam combiná-las com os problemas não solucionados, mesmo que não haja evidências de que estas ferramentas sejam uma solução adequada. E outras instituições, por fim, trabalham com ambos lados do espectro, mantendo o controle das necessidades em curso enquanto monitoram soluções disponíveis.

 

Um tema comum que surgiu nas entrevistas foi a necessidade de obter a adesão de todos aqueles que serão envolvidos na implementação e na utilização do produto. O desafio é equilibrar a adesão com eficiência e foco. As organizações sem fins lucrativos, por exemplo, visam adquirir as ferramentas durante o processo da tomada de decisão, muitas vezes gastando quantidades excessivas de tempo, dinheiro e esforços para chegar até um consenso para escolherem seus produtos. Já as empresas são mais propensas a tomarem uma decisões de forma centralizada, porém, possivelmente de forma rápida demais.

 

Foi observadas também que algumas decisões eram diretamente enviadas para os indíviduos quando relacionadas aos itens que custam pouco, mas facilitam o trabalho dos pesquisadores e dos educadores. Esta parte traz pontos positivos e negativos. A liberdade de escolha pode levar a uma redundância de funcionalidades das ferramentas adquiridas ou até mesmo para escolhas mal formuladas. Algumas ferramentas tecnológicas apoiam inúmeros produtos, mas não têm a chance de testá-los. E os compradores, inconscientemente, vão clicando em ícones dos acordos de licença que transgridem algumas normas, principalmente a que assegura uma privacidade dos dados de quem acessou o aplicativo. Concluiu-se que encontrar maneiras de padronizar e otimizar as aquisições da tecnologia educacional também é uma prioridade.

 

Indubitavelmente, as decisões em relação à tecnologia da educação devem ser tomadas colaborativamente entre os líderes administrativos, acadêmicos e especialistas de Tecnologia da Informação (TI). Uma maior atenção deve ser direcionada às demandas potenciais, que incluem facilidades como alteração do gerenciamento e a estimativa do custo total da propriedade. Não se trata apenas do preço de compra do produto: há também um suporte contínuo, treinamento e a expansão da infraestrutura digital. Atualmente, os gestores de tecnologia educacional raramente pedem alguma comprovação de que um produto de tecnologia educacional vá melhorar a aprendizagem do aluno. Uma cultura de melhoria contínua precisa ser implantada através de ciclos de tomada de decisões interativos, que coloquem gestores e compradores em um mesmo ambiente.

 

Ao passo em que a pesquisa ocorre, ela deve corresponder ao contexto e a magnitude da decisão. Todos os gestores de tecnologia educacional realizam pesquisas vagamente definidas para informar sua decisões. Mais comumente, isso envolve a contribuição dos docentes, dos funcionários e dos alunos, que podem falar a respeito de suas experiências e necessidades relacionadas à tecnologia. Mas a ênfase está mais na experiência do usuário e na investigação se a tecnologia é bem implementada ou se ela melhora a aprendizagem do aluno.

 

O excesso de dados digitais pode produzir uma falsa percepção de que as decisões da tecnologia educacional estão sendo baseadas em evidências, mas, como muitos pesquisadores argumentam, dados só são úteis quando são questionados. Uma pesquisa de tecnologia educacional com base científica relevante raramente é consultada. Isto ocorre, em parte, porque existem poucas, mas também porque parece existir uma forte preferência pelas informações localmente produzidas pelos próprios gestores.

 

Uma sugestão de boa prática é a criação de um espaço online para compartilhar os resultados dos estudos e dos pilotos de tecnologia educacional. Um conjunto de diretrizes para um design robusto de estudos-piloto também poderia ser útil, por exemplo. Recomendar a inclusão de grupos de comparação entre os resultados de aprendizagem do aluno, em oposição a apenas focar em notas obtidas ou conclusões do curso. As instituições também deveriam colaborar para conduzir estes estudos-piloto. Estes esforços poderiam coletar indicadores comuns de sucesso em larga escala, através de diversos usuários e contextos. Para agilizar o processo de contratação e seleção de tecnologia educacional, este espaço online poderia ser combinado à uma plataforma que facilitasse a aquisição da tecnologia educaciona.

 

Os financiadores poderiam oferecer suporte para a produção de melhores evidências de pesquisa, informando o processo decisicivo da tecnologia educacional e estabelecendo níveis hierárquicos de financiamento de tecnologias educacionais. O grau de rigor metodológico deve espelhar o nível do investimento da instituição de ensino no produto. Por exemplo, a aquisição de um pacote de software pode ser medida através de testes e análises feitas por  docentes e alunos. Por outro lado, os sistemas de aprendizagem adaptativa, em que as universidades podem coletivamente investir uma boa quantidade de dinheiro, mereceriam um estudo controlado em vários locais e em grande escala, que avaliassem o impacto sobre a aprendizagem do aluno. Grandes investimentos também devem ser otimizados por um compromisso interativo de coleta de provas que informem a melhoria contínua do produto.

 

Estas entrevistas com partes interessadas neste projeto para a Educação foram apenas o início do trabalho de alinhamento entre as pesquisas de tecnologia educacional mais eficazes e às decisões tomadas por profissionais e instituições. A esperança do instituto The 74 Million é que as partes envolvidas nessas decisões críticas que impactam os alunos e as instituições estabelecerão um projeto contínuo que vai promover as melhores tecnologias possíveis.

 

Texto originalmente publicado em The 74 Million.

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