Abrace a ciência da aprendizagem

Abrace a ciência da aprendizagem

por: Entretanto

Nas escolas norte-americanas, à medida em que a tecnologia voltada para a Educação cresce, aumentam também as dúvidas de educadores quanto à sua utilização. Sabendo que as ferramentas de aprendizagem são preparadas para avaliar criteriosamente os alunos, devemos pensar em como as pesquisas sobre o ensino e  a aprendizagem existentes podem contribuir para a construção da Educação do futuro. Construir um movimento em torno da pesquisa, e do impacto que ela deve causar, é cada vez mais necessário. Caso contrário, seguimos aquela velha estratégia de “sente e espere acontecer.

Quando fazemos uma refeição, buscamos ter uma ideia a respeito de cada ingrediente e sobre como aquela alimentação contribuirá com nossa qualidade de vida. Da mesma forma, ao criar um conteúdo ou uma ferramenta de
tecnologia devemos pensar em como cada elemento impacta e otimiza a aprendizagem em geral. Por exemplo, o quanto de revisão de uma matéria cujo conteúdo já foi estudado garante a retenção dela na memória?

A ciência abriga diversos estudos sobre como as pessoas aprendem. Nosso entendimento sobre a aprendizagem vem de áreas muito variadas, como a cognitiva, a psicologia educacional, a psicologia motivacional, a neurociência, a economia comportamental e a ciência da computação. São inúmeras teorias novas que aparecem todos os dias. Pensando nisso, se quisermos criar  ferramentas de tecnologia educacional que realmente sejam eficazes, estes estudos devem servir como base.

O que sabemos sobre como as pessoas aprendem? Podemos recorrer a alguns textos fundamentais, como e-Learning and the Science of Instruction, de Clark e Mayer, The ABCs of How We Learn de Dan Schwartz, e Visible Learning de Hattie e Yates.

Alguns exemplos básicos:

  • A prática espaçada: Estudos afirmam que estender o hábito de estudar ao longo do tempo é melhor do que estudar tudo dias antes de um exame.  Ela também reforça a retenção de informações e as mantém frescas ao longo do tempo, interrompendo a “curva do esquecimento”.  A implementação da prática espaçada aliada à tecnologia pode ser bem simples: solicite aos alunos que façam seus próprios calendários de estudo e que, de maneira proativa, apresentem regularmente informações já estudadas para uma revisão periódica.
  • A prática da recuperação: Ao invés de grifar os “pontos mais importantes”, esta prática almeja a real compreensão das informações, mudando a natureza da forma com que a memória fixa o conteúdo. Isso fortalece e consolida a aprendizagem. Um exemplo desta prática é a utilização de “flashcards”, termo que designa os materiais criados pelos próprios alunos para a repetição, associação e memorização.

O Retrieval Practice é um portal que oferece informações e aplicativos úteis para quem deseja saber mais sobre estas práticas. Para quem não é familiarizado com esta linguagem e ainda está iniciando seu caminho na aprendizagem tecnológica, pode ser que seja tentador criar perguntas muito fáceis. No entanto, a aprendizagem será mais eficaz  se os estudantes praticarem livremente, trabalhando o entendimento das informações e não só a busca de respostas.

Elaboração: Aumentar a memória é absorver novas informações e expandi-las, ao associá-las a outras informações e à experiência pessoal. A associação é uma das melhores formas de aprendizagem. Compreender a mesma ideia com explicações diferentes é um excelente método de recuperação e memorização.

Uma maneira de praticar isso é levar as ideias principais, e depois abrir um debate sobre como elas funcionam e porquê. Um outro método é pedir aos alunos que desenhem, ligando visualmente as ideias aos conceitos. Há uma série de ferramentas online que foram desenvolvidas para a criação de desenhos conceituais e também existem pesquisas focadas em descobrir como fornecer um feedback automatizado deles.

Vamos refletir: de que forma os produtos de tecnologia educacional incorporam estas práticas conhecidas? Como eles incentivam os alunos a exercerem estas atividades  educativas de forma sistemática?

Pesquisas norte-americanas falam sobre como as atividades desenvolvidas em sala de aula devem apresentar o novo material antes do início da atividade prática. Elas  sugerem que, de início, seja dado aos alunos um problema relativamente complexo. Os alunos, naturalmente, tendem a resistir a essa atividade, e quase nenhum aluno é capaz de apresentar uma solução ao problema. Na pesquisa, o esforço que os alunos despendem nesta atividade foi
mostrado como necessário para construir uma base de futuras instruções em uma ferramenta educacional tecnológica.

É muito importante que este tipo de atividade seja apresentada aos alunos como uma oportunidade de exploração dos métodos.  Erros e falhas são totalmente compreensíveis, afinal, a prática é quem vai definir o caminho para uma instrução cada vez mais direta, com feedbacks imediatos, passo a passo e dicas.

O que se espera é que os alunos selecionem uma ideia fundamental, partindo de uma atividade em que estão imersos, que criem várias situações para o mesmo fato, até encontrarem uma regra que abrange a todos, e, por fim, que situem tudo em um contexto.

O professor Brett Schwartz, da Universidade de Stanford, testou esta ideia com os alunos que estudavam proporções, porém, sem contar a eles que estavam aprendendo sobre proporções.  Três problemas diferentes foram criados, com base no número de objetos em um espaço. Isto foi traduzido como “um número de palhaços em veículos de
tamanhos diferentes”. Foi aí que e os alunos foram convidados a desenvolverem um “índice de palhaços”, medindo o espaço que cada palhaço preenchia em cada veículo. O conceito de proporção foi transmitido. Leia mais sobre esta história.

Os fabricantes de produtos devem considerar estas questões, ao desenvolverem tecnologias para a educação: A tecnologia facilita o exercício da atividade antes mesmo da instrução?  De onde deve partir esta instrução fundamental? Ela será usada para revisão? Que tipo de formação deve ser dada aos professores que forem trabalhar com estas ferramentas?

Mesmo com diversos estudos sendo feitos, ainda temos muito o que experimentar. Aplicar a ciência da aprendizagem no dia a dia é praticamente uma atividade de engenharia.  Isto pode exigir interações repetidas e avaliações contínuas que um dia podem resultar na ferramenta “perfeita” para um determinado público ou um determinado propósito. É importante avaliar constantemente se alunos e professores conseguem utilizar as ferramentas, suas reais utilidades e como elas serão implementadas.

Com base em evidências, o caminho para a Educação será monitorado e otimizado.

 

Conteúdo originalmente publicado em The 74 Million.

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