Vínculo e Diálogo nos Processo de Aprendizagem na Escola

por: Luciano Meira

O vínculo entre professores e alunos na escola contemporânea emerge como questão que demanda uma releitura e novas problematizações. Isso porque a cultura digital sobre a qual falamos amplamente nos textos anteriores oferece interfaces tecnológicas e uma linguagem que afeta não apenas a relação do sujeito-aluno com o conhecimento, mas talvez principalmente suas relações com o Outro, incluindo claro os educadores.

A questão do vínculo professor-aluno na escola passa fortemente pelo investimento que o professor realiza no ACOLHIMENTO de seus alunos, sendo tolerante com sua DIVERSIDADE, promovendo sua SINGULARIDADE e apoiando as FORMAS VARIADAS PELAS QUAIS APRENDEM, inclusive nos cenários ricamente digitais que fazem parte de seu cotidiano fora da escola e crescentemente dentro dela.

A fim de obter retorno, tal investimento requer que o professor abra mão dos papéis que desempenhou até aqui. Não ocupamos mais o lugar de fonte central de informações, de responsável privilegiado pela validação dos significados em construção na sala de aula, ou mesmo de líder intelectual dos processos de aprendizagem na escola.

Já comentei, em outro texto dessa série, como imagino que nós professores podemos ser empreendedores de nossas salas de aula. Mas, se desejamos mesmo construir um VÍNCULO AFETIVO E COGNITIVO que ajude a garantir para a escola um lugar no imaginário e no desejo dos alunos, devemos agir também como DESIGNERS DA APRENDIZAGEM!

Nesse papel, seríamos responsáveis pelo desenho de práticas de ensino menos demonstrativas e mais imersivas, mais sustentadas por perguntas criativas e interessantes do que em respostas autorizadas pelos livros didáticos. Podemos nos ocupar do desenho de cenários que transformem as listas de conteúdos curriculares em NARRATIVAS MEMORÁVEIS. Afinal, por que Harry Porter ou Percy Jackson ainda não fazem parte do debate literário na escola, na mesma escala e importância com que ocupam o imaginário dos jovens fora dela?

Em particular, consideremos o papel do DIÁLOGO no desenho dessas novas práticas de aprendizagem. Pernambucano de Recife, Paulo Freire foi um dos autores que melhor argumentou acerca do poder do diálogo e da dialogicidade nos processos de transformação do indivíduo pela educação:

“(…) o diálogo é uma exigência existencial. E, se ele é o encontro em que se solidarizam o refletir e o agir de seus sujeitos endereçados ao mundo a ser transformado e humanizado, não pode reduzir-se a um ato de depositar ideias de um sujeito no outro, nem tampouco tornar-se simples troca de ideias a serem consumidas pelos permutantes. (…) É um ato de criação. Daí que não possa ser manhoso instrumento de que lance mão um sujeito para a conquista do outro. A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro.” (Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido, 2010, 49a Ed., p. 91)

A fim de tornar mais claro o sentido de DIÁLOGO em Paulo Freire, assim como no filósofo russo Mickail Bakhtin e outros, sugiro a seguir um pequeno “dicionário prático” da implementação de situações dialógicas na escola:

 

  1. Todo diálogo é COAUTORAL, por isso não faz sentido excluirmos os alunos do desenho da aprendizagem, inclusive na escolha e montagem das atividades acadêmicas. Estabeleça algum regime de colaboração e isso aumentará o pertencimento dos alunos e seu engajamento na escola.

 

  1. O diálogo é um ATO CRIATIVO, por isso devemos acolher a diversidade imaginativa dos alunos e trabalhar com paciência as opiniões que fogem à normatividade das disciplinas acadêmicas. Menos “conteúdo dado” será grandemente recompensando com mais disponibilidade dos alunos para aprender coisas novas.

 

  1. O diálogo na escola deveria também ser um ATO ARGUMENTATIVO, por isso nosso trabalho não é explanar ou mesmo explicar, mas construir situações de aprendizagem através das quais os alunos tornam-se gradualmente capazes de defender opiniões justificando com clareza seus pontos de vista e acolhendo eventuais contra-argumentos.

 

Finalmente, a questão do vínculo professor-aluno na escola remete ao perfil de um educador articulado com o seu tempo, atento aos modos diversificados de produzir significados e que incita cada um a viver na tensão dialógica da posição de autor de seu próprio projeto de vida.

 

* Partes desse texto foram reproduzidas, com modificações, de contribuição de minha coautoria (com Marina Pinheiro) para a Revista Educação.

 

 

Luciano Meira

Professor de psicologia, UFPE

Chefe de Ciência e Inovação, JOY STREET

Bolsista de desenvolvimento tecnológico, CNPq

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