Um estudo sobre a eficácia nas escolas primárias

por: Entretanto

A pedagogia é um termo controverso (Ko & Sammons com Bakkum, 2013). Há inúmeras definições e muito tempo dedicado ao debate de suas sutilezas. A perspectiva adotada aqui é a definição que afirma que a pedagogia se refere à técnicas instrucionais e à estratégias que possibilitem a aprendizagem. A pesquisa se refere ao processo interativo entre professor/praticante e aprendiz, e também é aplicada para incluir a disponibilização de alguns aspectos do ambiente de aprendizagem (incluindo o ambiente de aprendizagem concreto e as ações da família e da comunidade). (Siraj-Blatchford et al., 2002:10).

 

A eficácia é um outro termo controverso. Melhuish afirmou que: As escolas primárias, onde as crianças fazem progressos significativamente maiores do que os previstos, podem ser vistas como as mais eficazes (Melhuish et al., 2006a: 4). O estudo abraçou estas duas definições e explorou as ligações entre a eficácia e a pedagogia.

 

As escolas foram selecionadas por uma escala de pontuação: alta, média e baixa  quanto à sua eficácia, conforme determinado pelas análises de Valor Agregado Contextual (VAC). Os modelos estatísticos do VAC exploram a realização e o progresso cognitivo/acadêmico das crianças em um período de tempo, monitorados por criança (por exemplo, sexo), família (por exemplo, status socioeconômico) e outras características históricas. As avaliações padronizadas foram utilizadas para medir a realização acadêmica da criança na leitura e na matemática na idade de 1 a 5 anos. As informações sobre os processos e as práticas de sala de aula foram coletadas através de dois instrumentos de observação em sala de aula.

 

Da amostra original, 82 escolas primárias, com grupos de dados completos, foram incluídas nas análises. Critérios rigorosos foram aplicados para identificar os três grupos distintos de escolas: excelentes, boas e ruins. A fim de desenvolver o quadro analítico das estratégias pedagógicas, discussões profissionais, com foco no grupo e uma revisão da literatura, identificaram os fatores que contribuem para a prática eficaz em sala de aula.

 

 

A importância da eficácia

 

Cursar o ensino superior é cada vez mais uma necessidade, na medida em que o mundo se torna cada vez mais complexo e os empregos ficam cada vez mais automatizados. O ensino superior é fundamental para todas as pessoas e, consequentemente, para a prosperidade de um país. Certamente, isso já foi percebido por vários analistas, educadores e alunos.

 

Jan Tinbergen, economista holandês que foi agraciado com o primeiro Prêmio de Ciências Econômicas, em 1969, pelo seu trabalho com modelos macroeconômicos, falou de uma disputa entre a educação e a tecnologia por, no mínimo, 40 anos. Assim como ele, muitas pessoas têm tentado descobrir os fatores que estão associados aos resultados de sucesso na educação.

 

A primeira geração de pesquisa sobre a eficácia da educação focou nas características de escolas eficazes. Em algumas escolas, existe o pensamento de que o sucesso está mais relacionado à quantidade de alunos que elas matriculam a qualidade da educação fornecida. Esse foi o argumento principal da segunda geração de pesquisadores sobre a eficácia da educação, que salientaram que os fatores demográficos contam para a maioria das variações do desempenho do aluno, sendo isso analisado em diversos países. No entanto, nos últimos anos, houve um consenso crescente de que resultados de alunos bem-sucedidos no ensino médio dependem, mais do que qualquer outra coisa, do que acontece dentro da sala de aula. A liderança escolar é importante, principalmente, porque os líderes eficientes criam as circunstâncias nas quais os professores continuam a aprender e a desenvolver.

 

Agora, a terceira geração de pesquisa sobre a eficácia da educação lida mais com o “como” do que com o “quê” fazer para que exista uma melhoria na educação. Como é que algumas escolas são mais eficazes na educação de seus alunos do que outras, que são semelhantes em termos de pesquisas, admissões e assim por diante? A dificuldade com tal pesquisa está no seguinte argumento: é muito difícil fazer bem feito.

 

Os estudos em grande escala podem olhar para as aquisições e para os resultados. Na Inglaterra, por exemplo, a qualidade dos dados disponíveis sobre o desempenho do aluno significa que podemos realizar estas análises a nível nacional. O problema é que os dados sobre os processos de educação nas escolas de nível nacional são bastante escassos e, pior, parecem explicar muito pouco.

 

No outro extremo, temos muitos estudos de alta qualidade, em pequena escala, quase “etnográficos”, e que fornecem informações detalhadas sobre um pequeno número de salas de aula. Estes podem sugerir fatores importantes, mas generalizar, a partir dessas pequenas amostras é arriscado

 

 

Subdivindo em etapas

 

É por isso que o estudo da educação eficaz na pré-escola, na escola primária e na escola secundária é tão importante. É um estudo em grande escala e, principalmente, quantitativo, que segue um recorte de mais de três mil alunos, atingindo o período que acontece antes de serem matriculados na escola e chegando até o final da escolaridade obrigatória, utilizando medidas de desempenho do aluno para identificar as escolas nas quais eles alcançariam evoluções progressivas.

 

A análise foi complementada com as centenas de horas de observação em sala de aula, caracterizando as práticas mais eficazes dentro delas. Além disso, devido ao fato de que o estudo usa métodos de observação bem validados, podemos ter a certeza de que as observações não são impressões subjetivas, mas evidências robustas do que está acontecendo tanto nas salas de aula bem-sucedidas quanto naquelas salas de aula não tão bem-sucedidas.

 

Por fim, como a pesquisa foi conduzida por alguns dos líderes mundiais da área, podemos confiar nas suas conclusões. O resultado é um extraordinário compêndio a respeito do que funciona melhor para ajudar as crianças a aprenderem dentro das salas de aula, sintetizado em 10 estratégias de eficácia.

 

Além disso, também foi feito um mapeamento do crescimento e do interesse sobre o impacto da educação nos resultados das crianças. Isso mostra como as comparações de sistemas de ensino internacionais, com base nas variações dos resultados e evidenciadas através de tabelas de classificação que posicionam os países em relação uns aos outros, fornecem insights sobre o quão eficaz (ou não) são seus sistemas de ensino.

 

É o tipo de informação que interessa aos “sistemas de ensino”, por exemplo. Detalha como os movimentos de eficácia e melhoria da educação cresceram, investigando quais os tipos de estruturas e processos, no âmbito do ensino levam à sistemas educacionais de valores agregados. E destaca, principalmente, a crescente mudança no interesse do “o que” fazem os sistemas educativos para “como” fazem.

 

Para os processos educativos, essa mudança no interesse pode levar a melhores resultados da criança e fundamenta a importância de compreender como os professores promovem uma aprendizagem de sucesso. A base principal de evidência da área pedagógica dessa publicação é um estudo na área da pedagogia primária realizado como parte da pesquisa sobre a educação eficaz na pré-escola, na escola primária e na escola secundária.

 

Leia o estudo completo clicando aqui. 

 

As estratégias de eficácia

 

  1. Organização
Escolas de classificação excelente e boa: Os professores foram bem avaliados em suas capacidades de organização. Seus recursos foram preparados com antecedência, bem geridos durante as aulas e adequados especialmente ao uso e às necessidades individuais de seus alunos. Estes professores fizeram uso produtivo do tempo instrucional, mantendo um bom ritmo de aula e garantindo cada segundo de seus tempos disponíveis.  Já os as alunos dessas salas bem organizadas obtiveram a maior pontuação no item “autossuficiência”.
Escolas de classificação ruim: As salas de aula apresentaram baixos números de organização, adequação dos recursos do professor, produtividade do tempo instrucional, clareza das expectativas do professor, gestão das rotinas de sala de aula e no quanto as crianças eram independentes e autossuficientes. As aulas demoraram para começar, o ritmo não foi mantido e o tempo foi desperdiçado durante as transições.
  1. Objetivos Compartilhados
Escolas de classificação excelente e boa: Os professores garantiram que os conceitos e as ideias apresentadas nas aulas fossem compreendidas por todas as crianças. Eles verificaram se as crianças haviam entendido as ideias principais da aula e interviam quando o entendimento não havia sido claro e completo, mesmo que isso exigisse uma mudança parcial da aula ou da atividade. Embora a maioria dos professores tenham garantido que a intenção da aprendizagem da aula/atividade fosse clara (por exemplo: escrevendo os “objetivos de aprendizagem” na lousa). Os alunos dessas aulas foram muito claros a respeito do que eles esperavam alcançar e quanto ao tempo tinham para fazê-lo.
Escolas de classificação ruim: os objetivos, os conceitos de aprendizagem e as ideias foram menos claros. Os professores foram mais lentos na verificação e na correção da compreensão dos principais conceitos e ideias dos alunos. Embora crianças nestas salas de aula estivessem cientes dos seus objetivos em relação à aula, não ficou claro se elas os compreenderam totalmente e nem como alcançá-los, e elas estavam muito menos concentradas e motivadas para alcançarem tais objetivos.
  1. Tarefas
Escolas de classificação excelente e boa: Os professores estipularam tarefas mais significativas e ligadas ao que as crianças estavam aprendendo, de maneira mais clara. Estes professores usaram uma abordagem mais flexível à configuração das tarefas, que foi criada para ampliar e aprofundar a compreensão das crianças.
Escolas de classificação ruim: Nestas, os professores estipularam a tarefa simplesmente porque eram obrigados, e o trabalho em si não pareceu estar ligado expressamente ao que as crianças estavam aprendendo na aula. Não houve nenhum exemplo de professor que utilizou as oportunidades surgidas durante uma aula para estipular a tarefa, além do que já havia sido planejado.
  1. O ambiente
Escolas de classificação excelente e boa: O clima da sala de aula (o sentimento geral na sala de aula demonstrado através das relações entre professor-aluno e aluno-aluno) foi devidamente avaliado através dos alunoas: as crianças gostavam de seus colegas e respeitavam a todos.
Escolas de classificação ruim:  O clima geral de sala de aula foi menos favorável e, por vezes, desagradável. Os professores apresentaram maior propensão a exibirem negatividade (desaprovação, repreensões, expressão de desagrado, etc.) e as crianças das escolas foram menos sociáveis e cooperativas.
  1. Gestão de comportamento

As diferenças entre os três grupos escolares (pré-primário, primário e secundário) foram evidentes ao considerarmos a gestão de comportamento.

Escolas de classificação excelente e boa:  As crianças fizeram menos interrupções e raramente precisaram ser disciplinadas. Nas escolas onde os professores tiveram a necessidade de corrigir o comportamento, eles usaram o humor ou um lembrete silencioso.
Escolas de classificação ruim:  Embora os níveis gerais de indisciplina por toda a amostra tenham sido baixos, as crianças nas escolas classificadas como ruins foram mais disruptivas e os professores precisaram discipliná-las com maior frequência. As ações de disciplina foram realizadas muitas vezes, na frente de todos os colegas. Em algumas, foram envolvidos argumentos que depreciavam as crianças.

 

6. Aprendizagem Colaborativa

 

As crianças passaram relativamente mais tempo, no geral, em situações de aprendizagem colaborativa do que àquelas das escolas classificadas como ruins, embora a quantidade de crianças que passaram o tempo nesses grupos de aprendizagem tenha sido baixa no geral.

 

7. Aprendizagem e Ensino Personalizado

 

Os professores das escolas bem classificadas apresentaram maior propensão à personalização das experiências de aprendizagem de seus alunos. Eles conseguiram isso, agindo de maneira sensível às necessidades individuais das crianças em suas aulas e fornecendo materiais de aprendizagem ricos e variados. No item: desprendimento (por exemplo: distanciando-se de seus alunos, não oferecendo o gabarito, não observando o comportamento ou às necessidades das crianças). estes professores obtiveram uma pontuação muito baixa e no item: fornecimento de apoio social para a aprendizagem do aluno, principalmente na alfabetização, tiveram uma pontuação alta.

 

Estes educadores foram excepcionalmente sensíveis às necessidades das crianças e forneceram materiais de aprendizagem excelentes, especificamente escolhidos e adaptados para os alunos. A abordagem amigável de seus professores fez com que fossem atendidas as altas expectativas, mesmo nas tarefas desafiadoras.

 

8. Dialógica do ensino e da aprendizagem

 

A extensão do ensino dialógico apontou poucas diferenças entre os três grupos de escolas, exceto na matemática. Nesta disciplina, os professores das escolas classificadas como “excelentes” receberam a maior pontuação ao utilizarem o ensino e a aprendizagem dialógica, com análise da matemática e aprofundamento do conhecimento de seus alunos. Eles também obtiveram pontuações mais altas na comunicação, na discussão da atividade e no compartilhamento de suas funções, através de conversas instrutivas.

 

9. Avaliação de aprendizagem

 

Os professores das escolas classificadas como “excelentes” e “boas” forneceram um feedback mais avaliativo do que àqueles das escolas classificadas como “ruins”. Além disso, eles forneceram mais oportunidades aos alunos de refletirem sobre sua aprendizagem, através de suas revisões, do que os professores das escolas classificadas como “ruins”, que não apresentaram diferenças ao fornecerem essas oportunidades.

 

10. Debates

 

Os professores das escolas bem avaliadas incluíram debates em suas aulas, quase duas vezes mais do que àqueles das escolas classificadas como “ruins”. Além disso, os professores das escolas classificadas como “excelentes” apresentaram uma maior propensão à utilização dos afim de explorarem questões da aula de maneira mais aprofundada, estendendo o trabalho e os conceitos abordados.

 

Texto completo publicado em Pearson.

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