Um apelo em favor da inclusão

por: Sara Lopez

O que nos iguala como seres humanos é a nossa humanidade. Esta premissa é de que, como semelhantes, somos igualmente dignos de respeito e inclusão. De resto somos, na verdade, todos, igualmente diferentes!

 

Somos diferentes até naquilo que supostamente nos iguala. Quando por razões diversas nos agrupamos ou somos agrupados pelas nossas semelhanças, no trabalho, na escola, nas estatísticas, nas pesquisas, mesmo aí, dentro dessas supostas igualdades nós divergimos e nossas diferenças clamam.

 

A escola é o exemplo clássico de espaço onde os agrupamentos, os nivelamentos, as turmas divididas em classes perseguem um ilusório ideal de igualdade. Não uma igualdade de direitos, mas uma busca por homogeneidade… nos saberes, nas respostas, nas capacidades, no comportamento…

 

É muitas vezes com pesar e preocupação que nós (me incluo) professores, começamos nossos Conselhos de Classe afirmando que estamos diante de “turmas muito heterogêneas”. E traçamos metas para unificar, nivelar e homogeneizar o grupo, como se todos tivessem que aprender as mesmas coisas, do mesmo jeito e pelos mesmos meios, para que em determinado momento sejam capazes de responder em uníssono às perguntas pré-moldadas de uma prova, de um teste ou qualquer que seja o nome politicamente correto que se queira dar às avaliações.

 

Com a melhor das nossas intenções buscamos uma igualdade que, ao contrário de ser libertadora, torna-se enclausurante, uma igualdade que ignora as singularidades. É como tentar fazer da aprendizagem uma receita de bolo, tentar transformar ingredientes (alunos) diferentes em mistura homogênea. As particularidades não se dissolvem, por mais que sovemos a massa, por mais que a liquidifiquemos e a amassemos, por mais que a acomodemos em moldes e fôrmas e por mais que consigamos fazê-la, a olho nu, parecer homogênea, com um olhar mais apurado, mais aproximado, ao microscópio, as individualidades são visíveis, estão preservadas, e isso não impede que o bolo cresça. Na nossa inquietude por igualar, muitas vezes perdemos a oportunidade de ver nas diferenças o impulso essencial para um verdadeiro salto na prática pedagógica.

 

A inclusão escolar surge como temática que desestabiliza as metodologias engessadas, põe em cheque as fórmulas prontas dos sistemas educacionais e impõe a revisão de condutas há muito tempo acomodadas em um processo homogeneizador. A inclusão do aluno com deficiência em escolas regulares de ensino, prevista por lei, demanda uma discussão contínua e um refazer urgente das práticas em sala de aula. Para que haja igualdade de fato, para que se conquiste uma igualdade de direitos, faz-se necessário olhar com sensibilidade para as desigualdades, para as diferenças, para as deficiências e para a pluralidade.

 

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Segundo Sílvia Ester, especialista no tema, a inclusão é caótica. Ela gera caos no sentido de desestabilizar e “desequilibrar o que parecia estar harmonizado”.00

 

A inclusão escolar só acontece de verdade quando o ensino, ou melhor, quando as formas de viabilizar o aprendizado, as metodologias, passam a ser construídas e pensadas com o aluno, a partir do aluno e para ele. A inclusão demanda empatia. Exige um constante colocar-se no lugar do outro, um treino de enxergar pelo olhar do outro, de estar com o outro, aprendendo com suas diferenças.

 

Pensar na inclusão do aluno com deficiência é pensar também na inclusão do aluno que não tem deficiência. É pensar numa escola plural, onde cada um é visto também pelas suas diferenças e onde essas diferenças não são critérios de segregação, mas oportunidades de tornar o aprendizado mais dinâmico, diversificado, desafiador. Pensar em inclusão é pensar numa escola onde O ENSINO ESTEJA SUJEITO AO ALUNO e não o contrário, a saber, uma escola onde o aluno é sujeito do aprendizado e não um mero receptor e reprodutor de conteúdos.

 

Para que haja inclusão é preciso que se fale sobre inclusão. Mais ainda, É PRECISO QUE SE VIVA A INCLUSÃO, para que, entre o discurso e a prática, não permaneça este abismo que até hoje não fomos capazes de transpor completamente. O abismo do susto, do despreparo, do medo, da insegurança que a convivência com as diferenças ainda gera. A inclusão não deve ser tema recorrente somente nos cursos de formação de professores. A inclusão ultrapassa as fronteiras escolares e se insere nas mais distintas realidades, reclamando o direito de que todas as pessoas tenham as mesmas possibilidades de ser e estar em qualquer lugar sem que suas diferenças sejam vistas como inconveniências. É preciso que o debate sobre inclusão seja pauta nas escolas, que esteja presente na mídia, que ganhe voz nos palcos, que tenha representatividade nas telas e na literatura.

 

É preciso superar a incapacidade de dissertar sobre o assunto numa redação do ENEM, por exemplo. Se a simples proposta de discorrer sobre um tema relativo à inclusão num concurso, como aconteceu na prova deste domingo, já é suficiente para gerar tamanho espanto e uma boa dose de indignação, imagine o transtorno que causa a prática propriamente dita da inclusão! Se já é difícil falar sobre inclusão, por falta de oportunidade, de vontade, de conhecimento ou do que for, imagine o quão difícil é fazer a inclusão acontecer de fato! A tal redação, com o tema Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil, pegou de surpresa a maioria dos estudantes, que apostavam em outras temáticas sociais. O Inep inovou oferecendo ainda, pela primeira vez, o recurso de videolibras para candidatos com surdez, um marco importante na luta pelo acesso dos surdos ao Ensino Superior.

 

Fica claro em muitas situações que temas relacionados à inclusão ainda são tratados de maneira superficial e como assunto de menor importância, quando deveriam ser matéria de conhecimento geral. Enfim, essa crítica, essa autocrítica acima de tudo, essa revisão de conceitos e valores que mais parece um desabafo se faz necessária no meu dia-a-dia como mãe de uma criança com deficiência, mas também se faz necessária no cotidiano de todos.

 

Aqui, sem as limitações protocolares das exigências acadêmicas é que encontra espaço essa mãe que quer que a escola do futuro, de um futuro próximo, urgente, seja a escola também da filha, que com suas limitações não se enquadra nos parâmetros das escolas tradicionais.

 

Aqui tem lugar o apelo da professora que hoje mais do que nunca enxerga em cada aluno excluído dentro da sala de aula uma parte de si que não encontrou lugar de ser. É o rosto da Rebecca que eu vejo estampado em cada carinha desnorteada dentro de sala de aula, de cada aluno que não consegue, que não vai tão rápido, que se atrasa, que se perde, que muitas vezes é deixado de lado, que é visto como entrave, que não se encontra, que não se encaixa…

 

Que sejam vistos! Não aceitos ou tolerados, esse é o apelo! Que sejam vistos. Não como necessitados, mas como necessários para a construção de um mundo igualitário. Uma igualdade de direitos, por meio da pluralidade.

 

 

       Referências:

 

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