Sala de Aula e Inovação

por: Luciano Meira

No texto anterior desta série, argumentei que (a) professores não são resistentes a mudanças e inovações como geralmente se pensa, e que (b) uma educação centrada na construção de relações professor-aluno pode responder melhor aos desafios da escola. Agora, gostaria de discutir o que é inovação educacional e como poderíamos transformar, às vezes de formas bem simples, os arranjos sociais e as práticas didáticas na escola.

Em geral, entendemos inovação como uma novidade sustentável que entrega um valor singular, respondendo aos problemas e desejos de uma audiência que muda seus comportamentos em função da novidade. Observe nessa definição várias características importantes. Para inovar não é suficiente criar algo novo, que não existia antes. Na verdade podemos inovar inclusive apenas organizando de outras formas os componentes de algo que já existia antes. A inovação requer uma audiência, um grupo de pessoas para a qual a novidade resolve um problema ou realiza desejos de forma única, de tal maneira que os comportamentos desse grupo social são radicalmente transformados ao longo do tempo. Além disso, a novidade tem que ser sustentável, ou seja, podemos replicar a novidade com um esforço que se paga no tempo. Posto em outros termos, a inovação deve responder às demandas de um ou vários grupos sociais, ser tecnicamente viável e economicamente sustentável. Assim é com todos os aplicativos e serviços da nova economia digital que usamos para resolver os mais diversos tipos de demandas, tais como conversar (WhatsApp), deslocar-se (Uber), hospedar-se (AirBnb) ou se divertir (Candy Crush).

Em educação, acredito que a inovação deve ser capaz de transformar os atuais arranjos sociais da escola, em todos os níveis de ensino, na direção de mais engajamento, diálogo e melhor desempenho de seus principais atores: professores e alunos, além de gestores, famílias, comunidade. Para tanto, primeira coisa, devemos rever a missão da escola, hoje ainda centrada no ensino e “transmissão” cultural, para algo como a criação de cenários de aprendizagem. Com isso em mente, o que podemos contar como inovação na escola? A chamada sala de aula invertida é um bom exemplo. Nesse método de pedagogia ativa, o professor usa o tempo da aula centralmente para a resolução colaborativa de problemas, durante a qual ele ou ela participa ativamente da construção de aprendizagens práticas e significativas, enquanto os estudos mais conceituais e a “exposição de informações” é deslocada para a atividade individual (eventualmente em grupos) dos alunos fora da sala de aula, em casa por exemplo. Onde está a inovação nessa abordagem? Trata-se de uma novidade em relação às práticas monológicas tradicionais de ensino, nas quais os problemas são principalmente relegados à “tarefa de casa”, quando os professores não estão lá para ajudar! Entrega, portanto, um valor diferenciado e pode transformar radicalmente os arranjos sociais da sala de aula, através da criação de cenários de aprendizagem baseados em desafios e problemas a resolver. Finalmente, é sustentável na medida em que os professores tenham acesso a problemas relevantes e que façam sentido para os alunos, criando neles o desejo de buscar soluções dentro dos campos de conhecimento refletidos no currículo escolar.

Como iniciamos uma dessas práticas didáticas inovadoras na escola? Sugiro que aos poucos e de forma encapsulada. Assim, por exemplo, não deveríamos perguntar como utilizar smartphones na sala de aula, mas como empregar o sistema de geolocalização desses dispositivos para incentivar a leitura de mapas nas aulas de geografia do quinto ano. Observe que a primeira pergunta sobre smartphones em geral coloca um problema tão grande que criamos um obstáculo desnecessário ao processo de inovação. A forma como o segundo desafio é colocado -smartphones num contexto específico de uso, ajuda a compreender melhor o problema e desenhar soluções tratáveis no ambiente da escola e no tempo que o professor tem disponível. Lembrando, não é inovação se eu reunir as crianças e expor sobre como aplicar GPS nos mapas de papel, simplesmente porque eu estaria entregando o mesmo que antes: aulas. Mas, é inovação se minha prática entregar um valor singular, incentivando os alunos a desenvolverem uma nova visão de mundo que reconhece a geografia como um instrumento de reconstrução da cidade e da cidadania.

Finalmente, lembro que nossos alunos, da escola de ensino básico ao ensino superior, circulam com grande frequência nos ambientes da cultura digital, portanto, os novos arranjos sociais inovadores para a escola devem considerar cenários de aprendizagem nesse contexto.

Boa leitura e até bem breve!

Luciano Meira
professor de psicologia, UFPE
bolsista de desenvolvimento tecnológico, CNPq
chefe de ciência e inovação, JOY STREET

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