Carmen Miranda e a representatividade feminina em sala de aula

por: Carolina Boccuzzi

Em fevereiro, temos uma das festas mais importantes do calendário brasileiro: o Carnaval. Na Educação Infantil e nas escolas, é sempre um momento de comemoração, mas será que refletimos também como essa festa é uma manifestação da cultura popular brasileira? Como trabalhar de maneira significativa o Carnaval e, ao mesmo tempo, continuar permitindo que as crianças explorem e vivenciem esse momento de alegria? A figura de Carmen Miranda, os antigos bailes, marchinhas e sambas foram meios encontrados por mim para abordar essa temática carnavalesca e, a partir desta famosa mulher, desdobrar em outras reflexões.

 

O projeto “Reavivando Carmen Miranda: a pequena notável, para além da sala de aula” foi trabalhado na Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Heitor Villa Lobos, durante o período de fevereiro a julho de 2017. A Sala Laranja, composta por 35 crianças de quatro anos de idade, foi a protagonista do processo de vivência e apropriação da história de Carmen, de suas músicas e dança. Primeiramente, músicas e vídeos foram apresentados às crianças, que ficaram intrigadas em saber mais sobre aquela mulher que dançava mexendo os braços e usava roupas coloridas, com bananas e outros acessórios na cabeça. Músicas como “Taí”, “Alô, Alô “e “O que é que a baiana tem” começaram as ser cantadas todos os dias e, durante a comemoração do Carnaval em nossa escola, as crianças criaram um bloquinho da sala chamado “Laranja Carnaval”, no qual cantaram e dançaram estas músicas em meio a confetes e serpentinas.

 

Durante esse período, fizemos intervenções com brilhos, lantejoulas e botões em fotocópias de fotografias de Carmen Miranda. Porém, foi após a passagem da festa que percebemos que o interesse pela cantora tinha ultrapassado os limites da nossa sala de aula. Muitos pais começaram a relatar que seus filhos cantavam as músicas em casa e que pediam para que os pais buscassem na internet mais fatos sobre ela. Então, nosso projeto cresceu e se estendeu, envolvendo toda a comunidade. Baseados no livro infantil de apoio “Carmen: a pequena grande notável”, das autoras Graça Lima, Heloísa Seixas e Julia Romeu, pudemos conhecer mais sobre a vida e obra da artista.

 

Uma das maneiras encontradas para apresentar a história de Carmen Miranda foi trazendo, literalmente, a cantora à vida: me vesti como ela e encenei sua visita à escola em três momentos diferentes. Afinal, para a Educação Infantil, o lúdico, o imaginário e o brincar estão muito presentes e fazem partem dos processos de aprendizagem e de experiência das crianças. Vestir-me da personagem, cantar suas músicas e contar suas histórias foi uma forma de tornar palpável o que podemos chamar de “viver as infâncias” delas.

 

 

Ao trabalharmos projetos na Educação Infantil, tentamos abarcar todos os campos de experiência que estão escritos na Base Nacional Curricular Comum que e servem como um referencial. Durante este projeto, um dos eixos trabalhos foi a questão de gênero e do papel da mulher na sociedade, mostrando como também as meninas podem realizar diversas tarefas, assim como os meninos. Carmen representa esse papel por ter começado a trabalhar desde muito jovem, ter conquistado sua autonomia e até ter costurado e criado suas próprias roupas. Isto foi um longo caminho até se tornar uma das artistas mais bem pagas de Hollywood, superando muitas outras personalidades de sua época.

 

Na parte de escuta, fala, linguagem e pensamento, a contação de história do livro-base esteve presente, o que resultou em um registro de cada página de livro, utilizando uma técnica artística diferente, como: pintura, colagem, intervenção em fotocópia, desenho em diferentes suportes, criação de carimbo, recorte, dança, vídeo com as crianças cantando as músicas, bordados e costura. Ao final, a sala recriou a história do livro através de suas próprias palavras, com a professora servindo como escriba.

 

Outro eixo presente no projeto foi a valorização da cultura popular brasileira, o que aconteceu através das marchinhas interpretadas por Carmen e seus parceiros, como Dorival Caymmi, e com a presença dos sambas de antigamente, além de outras representações.

 

Do início até a finalização do projeto, conseguimos mostrar a trajetória de vida de Carmen Miranda, desde a sua vinda para o Brasil até sua morte, em 1955, mostrando como ela conseguiu mostrar seu talento e suas diversas facetas em uma época em que a abertura social para as mulheres ainda era restrita. Através do interesse das crianças por suas vestimentas, meninos e meninas puderam aprender a bordar e a costurar, assim como ela fazia,  e a customizar as peças de acordo com seus interesses. Desta forma, alguns deles também se relacionaram às suas mães, que costuram e trabalham.

 

Outro resultado percebido foi notar o protagonismo das crianças no projeto, que recriaram e customizaram um livro voltado também para o público infantil. Um objetivo importante alcançado foi a integração entre escola e comunidade, momento no qual os pais puderam fazer parte do processo seja ajudando na continuação do processo em suas casas, através de pesquisa, cantando as músicas e etc…

 

Algumas das mães, participantes de uma oficina de costura, fizeram as saias e coletes para uma das atividades, e ajudaram na preparação da caracterização da personagem, juntamente à professora.

 

Ao reavivar a imagem de uma mulher que teve uma carreira promissora, mas que também teve de lidar com muitas críticas, repensamos algumas estruturas de gênero da sociedade, desde a divisão de brinquedos de “menino” e brinquedos de “menina”, passando pela divisão estrutural das crianças na escola e pela reflexão da realização de tarefas em suas casas, com suas famílias.

 

E como apresentar a história dessa personagem de uma maneira que dialogue, aproxime e torne mais significativo aquele objeto de estudo, dentro das concepções da infância? A caracterização se tornou um meio para me conectar as crianças, assim como eles imaginam suas brincadeiras e ressignificam a sua realidade através do imaginário.

 

A figura de Carmen Miranda, além de contar uma parte da história brasileira, musical e cultural, é uma forma de fazer com que as crianças percebam que não existe um único tipo certo de dança, de música, de corpo, de roupa e de gênero. Meninos e meninas devem ter o direito de escolher se querem aprender a costurar ou a jogar bola, sem os julgamentos e pré-conceitos da sociedade. Meninos e meninas têm o direito de viverem suas infâncias, e esse projeto veio com intuito de que todos e todas podem reavivar Carmen Miranda dentro de si.

 

Aprender um pouco mais sobre este ícone permitiu que as crianças pudessem ter a visão de uma mulher forte que superou críticas e conquistou o mundo. Uma mulher que, apesar de pequena em estatura, era grandiosa em tudo o que fazia, assim como muitas outras são e podem ser. Ao analisarem como suas mães, tias e avós também são mulheres que realizam diversas atividades, elas verificaram que a imagem de Carmen Miranda não estava assim tão distante de suas realidades.

 

Este projeto também valorizou o processo como forma de verificação da aprendizagem significativa. Cada fala de uma criança, em uma roda de conversa, cada cantoria, cada relato dado por ela aos familiares, ver os registros do livro realizado e a confecção deste, ver o encantamento ao encontrar “Carmen Miranda” e a vontade de querer ser como ela, tudo isso fez parte de toda a avaliação que superou as expectativas. Para um projeto que aconteceria apenas durante a época de Carnaval, presenciar que ele se estendeu até julho pelo próprio interesse das crianças é dizer que a avaliação de todo o processo foi mais do que positiva.

 

Acredito que as crianças são seres naturalmente brincantes e tudo isso fez com que eu também fosse uma educadora brincante. Ser professora de Educação Infantil é também saber alimentar o lúdico, as fantasias e compartilhar das descobertas do mundo de cada uma delas. Foi uma maneira de realizar a aprendizagem de uma maneira horizontal, aprendendo também com os alunos.

 

Trabalhar com mulheres, mesmo na Educação Infantil, nem sempre é fácil, pois entramos em questões delicadas sobre o funcionamento da sociedade. Ainda é desafiador, e continuará sendo, dizer que crianças podem brincar do que elas quiserem ou que podem usar a fantasia que tiverem vontade, seja uma saia ou um colete. Talvez por saber que essa questões ainda incomodam, penso que devo continuar nesse caminho dentro da Educação.

 

Assim como Paulo Freire dizia que “o educar é um ato político”, me vestir de Carmen Miranda, ou qualquer outra mulher, é também um ato político, e isso me fortalece como professora.

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