Por uma escola conectada

por: Zairo Soares

Não há como negar que celulares, tablets e outros gadgets eletrônicos tornaram-se partes importantes das vidas profissionais e acadêmicas de adultos, adolescentes e mesmo de crianças, mas será que o professor está preparado para enfrentar uma sala de aula com alunos munidos de tantos aparelhos que desviam sua atenção constantemente? A escola está preparada para dar suporte a esse professor? Essas questões permeiam o debate educacional há muito mais tempo do que imaginamos: já nos séculos XV e XVI o uso de alguns recursos, considerados tecnológicos para o ensino de Geometria causaram discussões acaloradas entre os estudiosos da época.

 

Não é de se espantar que as mudanças causem estranheza ao ser humano que tende a querer manter as coisas como são. Diz um ditado popular: “Em time que está ganhando não se mexe”, mas essa máxima pode não estar sempre certa, afinal, o time todo está ganhando ou apenas alguns jogadores chegam ao final vencedores, enquanto outros ficam pelo caminho?

 

Negar o uso da tecnologia em sala de aula soa como um retrocesso aos jovens que a usam em seu dia a dia para tudo, eles sabem quando não devem usar, se forem bem orientados, irão obedecer às regras, afinal, adolescentes gostam de jogos e jogos têm regras. Nessa corrida educacional não há vilões, o uso da tecnologia pode suavizar as diferenças e aproximar aluno e professor quando bem usada. É mais eficaz dizer a eles quando podem e quando não podem usar, do que simplesmente proibir a todo momento. Cabe ao professor usar as estratégias certas que combinam os meios disponíveis, tornando a sala de aula um ambiente agradável e propício ao aprendizado.

 

Leia mais sobre o uso de tecnologias para professores.

 

Existem duas grandes vertentes para o uso das mídias digitais em sala de aula: a primeira pouco se aplica aos adolescentes, dentro do modelo de escola que temos hoje, ele é chamado de sala de aula invertida, nesse modelo, os alunos estudam o conteúdo em casa por meio de videoaulas ou outros recursos interativos e na sala de aula são postos em prática exercícios e atividades em grupo em que o professor aprofunda o tema participando ativamente e estimulando discussões. Para os pais esse ainda é um modelo inovador demais e confuso, de difícil aceitação e os professores também têm dificuldades em lidar com esse sistema, mas é cada vez mais comum a crença de que esse será o modelo definitivo num futuro não muito distante.

 

O modelo que melhor se aplica a nossa atual realidade é de Ensino Híbrido que mistura momentos em que há uso da tecnologia digital, geralmente online, com situações nas quais a tecnologia digital não está presente. Neste último, os professores propõem atividades que valorizam as interações interpessoais face a face. Nas aulas de tecnologias utilizam-se: redes sociais, RPG, filmes, jogos, desenhos e/ou uma outra infinidade de recursos que podem ser propostos pelo aluno, pelo professor ou pelo grupo.

 

Dentro deste modelo Híbrido é que desenvolvi um projeto voltado ao uso de mídias digitais em sala de aula que tem funcionado há nove anos consecutivos e vem rendendo frutos que repercutem não só na turma que trabalho, mas em todos os níveis da escola.

 

O projeto inicial era bem simples, em verdade, a turma do 3º ano do Ensino Médio produziria um curta-metragem a partir de um clássico da literatura brasileira. A questão é que os professores foram orientados a estimular o uso dos celulares, da sala de informática e de todos os recursos audiovisuais que se fizessem disponíveis, tornando o projeto interdisciplinar e fazendo-o percorrer as mais diversas áreas da escola.

 

Resultados: depois de 09 anos executando o projeto e acrescentando a cada ano mais e mais detalhes (inclusive abandonamos a questão de focar apenas na literatura brasileira e passamos a abranger a inglesa já que nossa escola tem uma proposta bilíngue), o filme produzido em 2017 não foi mais um curta-metragem, e sim um longa com 75 min de duração, baseado nas obras de Sir Arthur Conan Doyle, chamado: O Jovem Sherlock Holmes. A filmagem foi feita com uma câmera profissional, os alunos produziram sonoplastia original, todas as falas do filme foram dubladas em estúdio para obter maior clareza e nitidez, houve preocupação com iluminação, maquiagem, figurinos, adereços.

 

Alunos do 6º ano do Ensino Fundamental II ao 3º ano do Ensino Médio se envolveram no projeto como atores, figurantes, equipe técnica ou simplesmente como ouvintes acompanhantes das gravações (eles queriam ver e aprender como fazer um filme), mas não parou por aí: os alunos do Ensino Fundamental I perceberam a movimentação e ficaram intrigados, começaram a questionar o que estava acontecendo e eis que surgiu a ideia de lançar alguns vídeos promocionais e propor um jogo com os pequenos – quem poderia desvendar o mistério antes do Sherlock Holmes?

 

Leia mais sobre o uso de tecnologia em sala de aula.

 

Foram quase oito meses de trabalho, envolvendo alunos de todos os anos, professores das mais diversas áreas e a culminância aconteceu no dia 12/09/2017, quando o filme ganhou uma sessão especial num cinema comercial dentro de um shopping, depois de diversas sessões no anfiteatro do Colégio, sempre com sala lotada e aplaudido de pé, por uma plateia formada por pais, amigos, alunos, mas também por um público externo que se interessaram pelo projeto e foram prestigiar em todas as exibições.

 

Os alunos aprenderam a usar o celular, as câmeras, o computador de forma inovadora, onde muitos deles estão fazendo cursos nas áreas de edição de imagens, de som e vídeo. A escola ainda respira Sherlock Holmes, a turma do 2º ano já se prepara para a produção de seu longa metragem em 2018 e começa agora debater o assunto, escolher roteiro, elenco, locações e recursos.

 

A tecnologia tornou-se uma aliada e não uma concorrente do professor, e os resultados podem ser vistos no canal do youtube produzido pelos alunos que contém vídeos promocionais, entrevista para TV e o filme completo que compartilho com todos os leitores:

 

Clique aqui para assistir ao filme completo!

 

Muitos dos recursos usados nas gravações foram provenientes dos alunos, outros o Colégio forneceu. Como o envolvimento família-escola é grande, os pais também participam oferecendo ajuda e se aproximando mais da instituição. No final, todos saímos ganhando, o Colégio se transformou num local de trânsito intenso de informações e conhecimentos e o projeto já mostra frutos, pois os professores aprenderam a usar os recursos de tantas outras formas que as aulas estão cada vez mais conectadas e interativas. Essa é uma receita de sucesso.

Receba nossa News