Os meninos são melhores do que meninas em matemática?

por: Entretanto

Dizem que as meninas não aprendem matemática tão bem como os meninos. Isso é verdade?

 

A morfologia encefálica de meninos e meninas em áreas relacionadas aos lobos parietais é muito semelhante dos 7 aos 17 anos de idade, sugerindo que, durante o desenvolvimento, o desempenho em tarefas cognitivas que ativam estas regiões cerebrais, tais como as habilidades numéricas, deve ser equivalente em ambos os sexos. Então, por que algumas pessoas dizem que as meninas não são boas em matemática?

 

Quanto ao desempenho das crianças entre 7 e 16 nas tarefas de aritmética, estudos cognitivos encontraram as três possíveis alternativas: i) meninos melhores do que meninas, ii) meninas melhores do que meninos e iii) desempenho igual entre meninos e meninas. Então, em pelo menos dois terços dos estudos científicos, não há evidência substancial de que por uma limitação da capacidade de aprendizagem as meninas executem não tão bem quanto os meninos, os exercícios matemáticos em seus respectivos anos escolares.

 

Um estudo americano observou que no início do ensino fundamental meninos e meninas desempenham igualmente em testes de cálculo solução de problemas. No entanto, a partir do quarto ano algumas diferenças podem surgir com melhor desempenho para os meninos. O que poderia mudar o curso do desenvolvimento matemático?

 

A primeira tentativa de explicar por que as meninas podem obter menos sucesso nesta questão foi dizer que elas são mais suscetíveis à ansiedade e depressão. No entanto, estudos posteriores mostraram que a presença destas condições clínicas não é determinante de falhas na cognição numérica. Há uma condição particular que pode afetar meninos e meninas, conhecida como “ansiedade à matemática” – é uma reação de estresse físico, emocional e cognitivo a qualquer experiência relacionada com a matemática. Embora as meninas britânicas tenham relatado mais sintomas de “ansiedade à matemática”, elas mostraram um desempenho tão bom quanto o dos meninos em tarefas aritméticas. Portanto, o estado emocional não parece ser a explicação.

 

Dois fatores parecem desempenhar um papel nessa controvérsia. Um diz respeito ao estilo cognitivo , pois, os meninos tendem a usar mais suas habilidades visuais e espaciais, e a recordação de fatos aritméticos; e estas estratégias facilitam a realização de tarefas computacionais e a solução de problemas. O outro fator é cultural, pois quando o ensino da matemática é muito estimulado, como na Finlândia, China e Japão, o desempenho de todos os estudantes do ensino médio, independente de gênero, é melhor do que em países com reduzidos recursos pedagógicos. Isto sugere que com educação de qualidade, as diferenças quanto aos gêneros em matemática tendem a desaparecer nas gerações futuras.

 

De fato, em países como Noruega, Suécia e Islândia onde as mulheres são economicamente independentes, autônomas e participativas nas decisões, não há diferenças de gênero em habilidades numéricas. Por outro lado, em alguns países, as mulheres ainda são proibidas de estudar, trabalhar e votar. Mesmo nos países em que aparentemente há paridade, as adolescentes geralmente recebem menos incentivo de suas famílias para optar por profissões nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática do que para profissões das ciências sociais.

 

Então, enquanto houver pouco investimento em educação em algumas nações, bem como os meninos forem educados para serem exploradores do mundo e meninas como princesas indefesas, as diferenças de gênero na aprendizagem da matemática continuarão a ocorrer.

 

Dra. Flávia Heloisa Dos Santos é especialista em psicologia infantil. Professora Associada da Universidade de Murcia, Espanha e da UNESP, campus Bauru, Brasil. Autora do livro “Discalculia do Desenvolvimento”, publicado no Brasil pela editora Pearson em 2017, no qual os estudos referidos neste artigo foram descritos em detalhes.

 

Texto originalmente publicado em Pearson Clinical. 

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