O futuro das habilidades e qualificações profissionais

por: Vincent Bonnet

Muitas vozes têm alertado o público sobre os riscos dos avanços da tecnologia. Os mais pessimistas, como Stephen Hawking, acreditam que a Inteligência Artificial poderia aniquilar a humanidade. Outros, como Bill Gates, têm se preocupado com as consequências no mercado do trabalho a ponto de pedir a criação de um imposto sobre os Robôs. Na Europa, as propostas de criação de um salário mínimo passaram a ser consideradas de forma séria e viável para contrabalancear a “destruição do trabalho” decorrente das inovações tecnológicas.

 

Esse pessimismo tem geralmente ignorado as tendências históricas e o incrível poder de adaptação do ser humano já demonstrado ao longo da sua história. Além disso, descarta as consequências globalmente positivas que a tecnologia pode ter sobre a melhoria de vida de milhões de pessoas em todo o mundo, revertendo declínios globais de produtividade e combatendo a crescente desigualdade de renda.

 

O futuro ainda há de ser escrito, é claro, mas podemos afirmar que o sucesso da raça humana virá da sua capacidade em incorporar e se adaptar a uma nova forma de trabalhar com as máquinas

 

Uma recente pesquisa de Pearson realizada em parceria com a  NESTA e a Oxford Martin School, chamada “Future of Skills Employment in 2030” explora justamente essa temática. Ela combina grandes tendências identificadas por especialistas que vão além da simples automação, incorporando a evolução da globalização, da urbanização e das mudanças demográficas entre outras, com as análises de algoritmos sobre as evoluções das habilidades e das qualificações associadas a esses fenômenos. O estudo que por hora está limitado aos Estados Unidos e ao Reino Unido oferece uma visão mais sutil e positiva do futuro.

 

Os resultados do estudo mostram que os robôs não irão tomar nossos postos de trabalho, mas que a tecnologia está mudando as economias e o mercado de trabalho. Essas mudanças nos obrigam a reavaliar quais serão as habilidades necessárias para um indivíduo prosperar no novo contexto e os sistemas educativos destinados a desenvolvê-las. O ponto de partida do estudo foi identificar as habilidades e os conhecimentos que possam estar em maior demanda no futuro e as combinações dessas habilidades que poderiam aumentar a demanda por empregos futuros. A partir disso, foi possível prever quais empregos e competências terão um aumento ou uma queda da demanda até o ano de 2030.

 

As ocupações que crescerão até 2030 

 

As previsões da pesquisa estabelecem que 20% da força de trabalho está em ocupações que irão provavelmente encolher ou desaparecer até 2030, enquanto 10% está em ocupações que irão crescer em setores como educação e saúde, onde o efeito de substituição da tecnologia será associado a uma melhoria nos resultados, e não uma redução na força de trabalho. Os 70% restante da força de trabalho está em postos de trabalho ou setores de atividade que irão sofrer profundas mudanças exigindo das pessoas reciclagens.

 

Reino Unido  Estados Unidos
1 – Profissões ligadas a preparação de alimentos e à hospitalidade  1 – Professores de Educação Infantil, de Ensino Fundamental e de educação especial
2 – Professores e Profissionais Educacionais  2 – Trabalhadores de cuidados com animais e serviços
3 – Profissões ligadas aos esportes e fitness  3 – Advogados, juízes e trabalhadores relacionados
4 – Profissionais de Ciências Naturais e Sociais  4 – Professores de Ensino Médio
5 – Gerentes e Proprietários em  hospitalidade e serviços de lazer   5 – Engenheiros
6 – Gerentes e Diretores de instituições de Saúde e Serviços Sociais  6 – Profissões ligadas aos cuidados e aparência pessoal
7 – Profissões artísticas, literárias e de mídia  7 – Cientistas Sociais e Trabalhadores Relacionados
8 – Serviços Públicos e Outros Profissionais Associados  8 – Conselheiros, assistentes sociais e outros especialistas em serviços comunitários e sociais
9 – Outras profissões de serviços elementares  9 – Bibliotecários, curadores e arquivistas*
10 – Profissionais de terapia  10 – Artistas, intérpretes, atletas e trabalhadores relacionados

 

* Alguns resultados são surpreendentes à primeira vista. Como explicar que Bibliotecários estejam em 9º posição do ranking dos empregos do futuro nos Estados Unidos? As bibliotecas tradicionais passaram e ainda passam por transformações maciças ligadas a evolução da maneira com qual criamos, compartilhamos e armazenamos informações. Porém o estudo mostra que ainda precisaremos de pessoas especializadas em ajudar as pessoas a navegar pelas informações antigas e novas. O estudo também mostra que, como muitas ocupações futuras, as tarefas, ferramentas e a proficiência de um bibliotecário mudará substancialmente nos próximos anos.

 

As habilidades, qualificações e conhecimentos associados às ocupações em crescimento no futuro 

 

A pesquisa leva a uma compreensão mais refinada sobre quais habilidades estarão em maior demanda nos próximos anos. Vemos uma crescente importância das habilidades cognitivas, tais como a resolução de problemas complexos, originalidade e fluência de idéias. No Reino Unido, as habilidades relacionadas ao pensamento de sistemas orientados (ou seja, a capacidade de reconhecer, entender e agir em conjuntos complexos de informações), tais como julgamento, tomada de decisão, análise de sistemas e avaliação de sistemas, também possuem um lugar de destaque.

 

Talvez o mais interessante, enquanto o foco atual em STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics) é justamente associado com trabalhos na demanda hoje, vemos que para o sucesso no futuro os indivíduos precisarão de uma base mais ampla de conhecimento. Áreas como o idioma Inglês, história, filosofia e sociologia são associados fortemente com ocupações projetadas para um aumento na quota de mercado de trabalho futuro.

 

Reino Unido  Estados Unidos
1 – Julgamento e tomada de decisão  1 – Estratégias de aprendizado
2 – Fluência de Idéias  2 – Psicologia
3 – Aprendizagem ativa  3 – Instrução
4 – Estratégias de aprendizado  4 – Percepção social
5 – Originalidade  5 – Sociologia e Antropologia
6 – Avaliação de Sistemas  6 – Educação e treinamento
7 – Raciocínio dedutivo  7 – Coordenação
8 – Solução de problemas complexos  8 – Originalidade
9 – Análise de sistemas  9 – Fluência de Ideias
10 – Monitoramento  10 – Aprendizagem ativa

 

Implicações para o futuro do setor educativo 

 

Esta pesquisa tem também o potencial de fornecer um plano para reformar a Educação para a era digital. As oportunidades oferecidas por um melhor uso da tecnologia na educação são imensas e permitirão aos educadores melhorar os resultados de aprendizagem dos alunos de uma forma mais personalizada.

 

Essa pesquisa sobre o futuro dos empregos e das habilidades tem implicações para sistemas educacionais, empregadores e indivíduos. Algumas das idéias descritas abaixo já estão sendo exploradas; outras são novas áreas e devem ser exploradas por todos interessados na educação.

 

Para Sistemas de Educação

Para Empregadores

Para Indivíduos

Ir além da definição tradicional e genérica de “Habilidades do século 21”.
Os sistemas educacionais precisam apoiar uma melhor compreensão, prática de ensino e avaliação das habilidades granulares que serão mais demandadas.Desenvolvimento de pedagogias para apoiar o conhecimento dinâmico e o desenvolvimento de competências.
As instituições educacionais precisam fornecer apoio aos educadores, pois são convidados a ensinar essas novas habilidades.

 

Adaptação mais rápida às necessidades do mercado de trabalho.O ritmo das mudanças continuará a acelerar, portanto os sistemas educacionais desenvolvidos há 20 a 30 anos precisam planejar os próximos 20 a 30 anos.

 

Oferecer trajetórias mais flexíveis e adaptativas.À medida que o ritmo da mudança se acelera, os alunos exigirão mais maneiras de converter a aprendizagem em ganhos. Embora seja provável que haja ainda alguma demanda por experiências tradicionais, mais alunos irão demandar percursos acelerados e/ou flexíveis.

Redefinir os papéis e responsabilidades para balancear recursos humanos e tecnológicos.O caminho para maximizar a produtividade será através do uso efetivo da tecnologia para complementar habilidades exclusivamente humanas. Na educação, falamos sobre tecnologia que complementa (não suplanta) o educador para personalizar a aprendizagem. Isso também será verdade em muitas outras indústrias e os empregadores precisarão redesenhar proativamente os trabalhos em risco.

 

Ir além do diploma universitário como principal sinal de empregabilidade.  À medida que os sistemas educacionais oferecem caminhos mais flexíveis e adaptativos para os alunos, os empregadores também precisam aprender a identificar e desenvolver os talentos. O diploma universitário tem sido um sinal imperfeito para a preparação para o emprego e isso provavelmente se tornará ainda mais complexo.

Desenvolver habilidades que são exclusivamente humanas.Embora o avanço da automação e da inteligência artificial possa parecer uma batalha perdida para alguns, os indivíduos precisarão focar no desenvolvimento das habilidades exclusivamente humanas identificadas nesta pesquisa, como originalidade, fluência de idéias e escuta ativa.

 

Compromisso com aprendizagem contínua e requalificações.O ritmo da mudança econômica, não garante mais que um único diploma obtido na adolescência ou uma carreira escolhida com 20 anos seja eterna.

 

 

Saiba mais no site Future Skills.

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