Normose e a valorização da diversidade

por: Etienne Janiake

O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência em ser você mesmo (Jean Yves Leloup)

 

Olhando ao redor, facilmente observamos a imensa variedade que nos constitui: brancos, pardos, negros, altos, baixos, magros, gordos, sérios, introvertidos, tímidos, receosos, fãs de Beatles, de pagode, de literatura, enfim, poderíamos passar horas descrevendo as inúmeras diferenças que nos formam e, ainda assim, não terminaríamos de citá-las.

 

Somos diversos pela nossa carga genética, pela cultura do local onde nascemos e fomos criados, pela base familiar que tivemos, pelas oportunidades educacionais e culturais às quais tivemos acesso, pelos relacionamentos que cultivamos ao longo da vida, pelos nossos sonhos e desejos. Somos diversos, porque somos seres humanos, porque pensamos, temos consciência do mundo ao nosso redor e nos relacionamos com esse mundo a partir dos nossos referenciais internos, que estão em constante transformação. Somo diversos, porque sentimos e percebemos o mundo de forma única, autêntica, apesar de sermos constantemente influenciados pelo meio social ao nosso redor.

 

Antes da globalização, essas diferenças culturais eram muito mais demarcadas e explícitas, as culturas regionais eram vivenciadas, preservadas e transmitidas entre as gerações de forma natural e inquestionável. O avanço dos meios de transporte e das comunicações, a inter-relação cultural, a economia mundial, a mídia, colaboraram por
aproximar pessoas e povos. Tal aproximação tem imenso impacto psicológico e cultural, sobre o qual os pesquisadores das ciências humanas têm se debruçado para estudar.

 

Notamos no cotidiano que muitos padrões, ideias, hábitos e costumes, antes circunscritos a determinado grupo, têm tomado dimensões planetárias e influenciado grande número de pessoas de forma instantânea. Esse fenômeno está trazendo nova perspectiva para a humanidade, tem possibilitado a emergência de uma consciência global, de uma percepção das pessoas dos outros povos e culturas como mais próximas e parecidas conosco. Nesse aspecto, esse movimento tem sido bastante profícuo. Observamos a emergência de vários movimentos, de várias conexões benéficas de pessoas de diferentes partes do mundo em diferentes campos de conhecimento e atuação.

 

Por outro lado, há algumas consequências preocupantes, que apontam a necessidade de recondução de rumos, para que o desenvolvimento da sociedade feliz e sustentável que almejamos possa se concretizar.

 

Com o alcance planetário da mídia e das redes sociais, temos criado e perpetuado padrões de comportamento homogeneizados, impulsionados pelo mercado de consumo, que, de forma rápida e eficiente, são difundidos e seguidos pelas pessoas, muitas vezes, de forma não refletida. Esses padrões constituem a regra – o ideal de homem e sociedade – e estabelecem uma condição de normalidade, à qual as pessoas são constantemente estimuladas a aderir.

 

Importantes pensadores como Pierre Weil, psicólogo francês, Jean-Ives Leloup, filósofo, psicólogo e teólogo francês, e Roberto Crema, psicólogo e antropólogo brasileiro, denominam esse movimento de homogeneização cultural de “Normose”. Para eles, a Normose é a perpetuação irrefletida de padrões de conduta nocivos, devido à influência cultural. A normalidade é o sintoma da mesmice, da repetição sem elaboração, das atitudes sem propósitos, pensamentos padronizados, determinações, normatividades e falta de questionamento ou reflexão.

 

A contribuição desses autores vem subverter a ordem vigente de associar doença apenas ao anormal, à disfunção, em que o sujeito normal seria aquele que melhor se adapta. Eles constataram que a normalidade em demasia, o excesso de esforço e sacrifício pessoal para se adequar ao padrão vigente, é um problema, pois impede o encaminhamento do desejo no interior de cada um, interrompendo o fluxo evolutivo e gerando estagnação.

 

Além disso, outra questão fundamental que esses autores apontam é que alguns desses conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar e agir, que são aprovados por consenso ou por maioria em determinada sociedade, provocam sofrimento, doença e morte. Por exemplo, já foi normal duas pessoas se digladiarem até a morte para entreter a multidão. Também já foi normal queimar mulheres na fogueira por bruxaria, fazer pessoas trabalharem sem remuneração com direito a castigos físicos só pela cor da pele e casamentos sem amor. Tais situações hoje nos parecem absurdas, mas não eram para as pessoas das respectivas épocas.

 

Alguns padrões que temos hoje, como passar 40 horas da semana fazendo algo que se detesta, mentir para ganhar dinheiro e devastar florestas inteiras em busca de um suposto desenvolvimento, talvez sejam considerados absurdos daqui a alguns anos. Assim, quem seria a pessoa mais sã? Aquela que se adapta e propaga esses padrões nocivos, ou aquela que irrompe a ordem e constrói, com sua trajetória de vida, uma opção alternativa de estar e viver em sociedade, de forma a causar menos danos  ter mais satisfação? A pessoa normótica, para Weil, Leloup e Crema, é aquela que se adapta a um contexto e a um sistema doente e passa a agir como ele.

 

A grande preocupação dos autores é que, atualmente, essas pessoas são a maioria. A educação é um meio fundamental de transformação dessa realidade nociva ao proporcionar aos alunos a possibilidade de conceberem a diversidade como essencial e constitutiva. Na escola, é possível formar com base na autoaceitação e aceitação do outro, a partir das diferenças que os constituem.

 

Nesses espaços, podemos ensinar, na prática, que a única coisa que todos temos de igual é que somos todos diferentes. Não aprendemos da mesma forma, não lidamos emocionalmente da mesma maneira com um mesmo problema, não temos as mesmas preferências e habilidades. A compreensão dessa concepção deve ser determinante no desenvolvimento do trabalho de toda a escola, desde a preocupação com a acessibilidade até o cuidado com as intervenções de cunho acadêmico e atitudinal com alunos, pais e funcionários.

 

A valorização e o cultivo do respeito à diversidade formam o alicerce de uma constituição pessoal e relacional inclusiva, isto é, da formação de pessoas que se reconhecem e reconhecem o outro em sua autenticidade. Ao nos reconhecermos em nossa unicidade e acolhermos o outro como ele é, estabelecemos relações de florescimento e fortalecimento das inúmeras qualidades que temos e das infinitas possibilidades de criações e construções coletivas.

 

A cura da normose é um trabalho individual, calcado no autoconhecimento, mas a educação pode prevenir a propagação intensificada deste padrão. A escola pode ser o lugar que instiga as crianças a descobrirem suas verdadeiras vocações em vez de tentar padronizar os alunos e convencê-los a serem “normais”.

 

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