Ladeira acima ou ladeira abaixo?

por: Bia Granja

Não sou especialista em educação. Minhas noções sobre o assunto se compuseram de forma empírica, por conta dos vários anos em que passei em instituições de ensino e, agora, pelo pouco que tenho estudado a respeito por ter que tomar decisões escolares para meu filho. Se sei pouco sobre educação, hoje, 3 anos depois do nascimento do Nico, posso dizer que sei “um pouco menos que pouco” sobre ser mãe.

Escrevo esse texto enquanto vejo o Nico brincar no tapete. Ele agora está calmo. Se diverte com seus carrinhos e de vez em quando usa minha perna pra desafiar seus veículos a subirem a ladeira “ingui” (íngreme, na língua dele). Mas não faz nem 10 minutos ele estava chorando, muito emburrado e muito sentido porque não estava sendo capaz de explicar e (ou?) eu não estava sendo capaz de entender a maneira como minha perna deveria ficar posicionada pra criar essa tal de “ladeira íngui”.

A luta estava quase perdida. Eu perguntava, ele respondia, mas a gente não tava se entendendo. Ele chorando, eu já falando em CAPSLOCK: “SOCORRO NÃO SEI O QUE VOCÊ QUER COMO É ESSA LADEIRA PELO AMOR DA DEUSA”. Ele chorando mais, eu quase me trancando no banheiro… até que tive uma ideia.

Fui até o quarto dele, peguei dois bichinhos de pelúcia que ele gosta e comecei uma cena, onde um perguntava pro outro sobre uma tal de ladeira que deveria ser construída com a perna da mamãe. Rapidamente, Nico parou de chorar, se interessou pela história e assumiu a atuação de um dos bichinhos. E foi assim que a “Juju” e o “Potó” permitiram que eu e Nico falássemos a mesma língua e chegássemos JUNTOS a uma solução para a ladeira.

O que esse pequeno causo me mostrou? A) Que nem sempre o domínio do português é suficiente pra estabelecer uma conversa, B) Que nem sempre a dinâmica de “pergunta-resposta” é suficiente pra estabelecer uma comunicação, C) Que existem outras ferramentas menos óbvias que podem nos ajudar a estabelecer uma conexão.

Muito bem. Corta pra esse texto aqui, que deve discutir as diferenças entre a língua falada pelo professor e pelo aluno em sala de aula, e creio que temos uma situação muito parecida. Como disse acima, não sou especialista em educação, mas pesquisando pra escolher escolas pro Nico, percebi o quanto esse assunto mudou pouco em relação à minha época, ao passo que o mundo mudou PRA CARAMBA. O Brasil então nem se fala. Estamos passando por um baita processo de questionamento de valores – sociais, culturais, políticos, comportamentais, econômicos, etc. Talvez a única constante que temos hoje seja a mudança. Tudo está mudando. Mas a educação está lá, parada no tempo.

É complicado exigir que professores falem a mesma língua dos alunos se todo o sistema educacional não fala a língua do mundo de hoje. Quais são as certezas que temos? Uma pesquisa da Oxford University disse que 47% dos empregos que conhecemos hoje não existirão mais daqui 3 anos. Por outro lado, já vemos pessoas se apresentando como Gestor de Tráfego de Dones, a palavra “Youtuber” entrou no dicionário no ano passado e já é uma carreira almejada, e profissões que pareciam muito do futuro já estão sendo desenhadas, como “Treinador de robôs domésticos”.

O que eu sinto sobre essa questão da falta de diálogo entre professor e aluno, é que na realidade, o que falta é um diálogo entre o sistema educacional e o mundo hoje. Professor e aluno tentam se entender, falam o mesmo português, perguntam, respondem, se questionam, mas o instrumento que deveria fazer com que a conexão acontecesse está errado. Falta a Juju e o Potó.

A educação é insuficiente, é limitada, é construída com base em um conceito velho, industrial, cartesiano. O mundo, como já falamos no meu texto anterior aqui no site, é esse emaranhado de mil abas abertas no nosso navegador. Pra falar a mesma língua do aluno, temos que mostrar a ele esse mundo. Aliás, temos que mostrar pra ele O mundo. Mostrar uma variedade imensa de coisas, porque se eles forem no Google, é uma variedade imensa de coisas que eles vão achar. Não fazer isso é meio que deixá-los no escuro, é escolher o que eles devem saber, como eles devem pensar e, a gente sabe, não estamos vivendo mais esse momento.

O momento é de desconstrução, de começar a pensar usando as nossas próprias sinapses, de construir nosso mundo do nosso jeito, de maneira ativa. Que tipo de mensagem os alunos recebem quando entram na sala de aula e percebem que ali, onde eles deveriam ser incentivados a pensar, eles estão sendo obrigados a ficar dentro da caixa – o mais dentro possível – e “por favor não faça muitas perguntas porque vai atrapalhar meu plano de aula”?

Se o professor está preso dentro de um plano de aula do século passado, sugiro que ele hackeie a sala de aula, que encontre Jujus e Potós que permitam que role uma conexão, uma conversa, uma troca. E que assim professor e aluno possam construir suas ladeiras e se desafiarem a subi-las JUNTOS. Não o contrário.

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