A influência do perfil sensorial no dia a dia das nossas crianças

por: Entretanto

Todo mundo vê, ouve ou sente da mesma forma? Facilmente respondemos que não e isso está correto. Porém, você já pensou como alterações no sistema sensorial podem interferir na forma como interpretamos e reagimos ao que vemos, ouvimos ou tocamos?

 

Para melhor compreender como processamos as informações sensoriais, Dunn (1997) propôs um modelo conceitual que mostra a relação entre o limiar neurológico e as respostas autorregulatórias. Em outras palavras, tentou-se compreender a associação entre a intensidade sensorial de um estímulo que como reagimos a ele. O modelo de Dunn é composto por dois eixos: um eixo vertical para o limiar neurológico e um eixo horizontal para respostas autorregulatórias.

 

Olhando para os extremos do eixo vertical do gráfico, vemos um alto e baixo limiar neurológico. Pessoas que apresentam um alto limiar precisam ou que o estímulo tenha uma alta intensidade para ser percebido (alto limiar), já aquelas com baixo limiar precisam de uma pequena intensidade do estímulo para ser notado. Quando analisamos o eixo horizontal percebemos que há dois extremos de reação à esses estímulos, a reação passiva e a reação ativa. Quando respondemos de forma passiva, não realizamos nenhuma ação sobre o estímulo. Em contrapartida, se respondemos de forma ativa, nos envolvemos em comportamentos que gerenciam ou controlam a entrada sensorial (Dunn, 1997).

 

Para deixar tudo isso mais claro, vejamos alguns exemplos: imagina uma criança que fica fascinada com estímulos que brilham, como a lâmpada. Ela fica vários minutos olhando fixamente e até mesmo começa a se movimentar ao redor do estímulo. Outras vezes essa mesma criança, toca por muito tempo alguns objetos e até mastiga coisas inapropriadas para o consumo.

 

Isso seria um exemplo de uma criança com alto limiar neurológico e resposta autorregulatória ativa, pois ela gasta muito tempo frente ao estímulo, pois ela precisa que ele tenha uma intensidade maior, e também se engaja em atividades para aumentar essa sensação. Agora, imagina uma outra criança que se irrita facilmente com sons agudos e por consequência começa a chorar e tampar o ouvido quando ouve estes sons. Este seria um caso de baixo limiar com respostas ativas, pois uma pequena intensidade já é suficiente para ser percebido e, por isso, frente à estímulos muito intensos (barulho), se engaja em atividade para diminuir o volume do som.

 

Alguns Transtornos do Neurodesenvolvimento apresentam alterações sensoriais semelhantes às descritas acima, especialmente o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Existem dois grandes núcleos de dificuldades associados ao TEA, (1) déficits na comunicação social e (2) comportamentos restritos e repetitivos. As alterações sensoriais são vistas como comportamentos repetitivos que se manifestam como uma hiper ou hiporreatividade sensorial.  No TEA frequentemente se observa hipersensibilidade a barulhos, ao toque ou a  cheiros. Adicionalmente, pode se observar hiposensibilidade a dor  ou  à temperatura (Júlio-Costa & Antunes, 2017).

 

Quando os limiares para perceber os estímulos são muito extremos ou quando a forma para lidar com esses estímulos é exacerbada, há um impacto na vida diária da criança, causando prejuízos na sua adaptação e funcionalidade. Imagina como é difícil para uma criança com hiperrativade a barulho ficar em uma sala de aula ou ir a uma festa com os pais!

 

Sabendo do impacto que alterações sensoriais podem ter na vida das crianças, os profissionais precisam estar instrumentalizados para detectar tais problemas, para, consequentemente, conseguir desenvolver planos de intervenção eficientes. Até então, não tínhamos instrumentos apropriados no Brasil, mas a a Pearson Clinical vendo esse cenário trouxe para nosso país o “Perfil Sensorial 2”! Este instrumento fornece um conjunto de ferramentas padronizadas para avaliar o processamento sensorial da criança no contexto da vida cotidiana. Ele foi desenvolvido para a faixa etária de 0 a 14 anos e oferece informações sobre o perfil sensorial relacionado à visão, audição, tato, movimento, posição do corpo e sistema oral. Além disso, auxilia na descrição dos padrões comportamentais relacionados aos estímulos sensoriais. Não percam este lançamento!

 

 

Texto escrito por:

Andressa M. Antunes – Psicóloga

Sócia e Diretora do núcleo de intervenção do iLumina Neurociências

Membro da Diretoria da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (Gestão 2015-2017)

Doutoranda e Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente – UFMG

 

Referências:

Dunn, W. (1997). The Impact of Sensory Processing Abilities on the Daily Lives of Young Children and Their Families: A Conceptual Model. Infants & Young Children, 9(4), 23-35.

Julio-Costa, A. & Antunes, A. M. (2017). Transtorno do Espectro Autista na prática clínica. São Paulo: Pearson Clinical

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