Empatia: arte de compreender emoções

por: Rosemari Glowacki

Leitor (a): você já teve uma experiência empática hoje?

 

 

Para não ter dúvidas ao responder a questão, é sempre bom (re)visitar o conceito: “empatia sf. 1 Psicol Habilidade de imaginar-se no lugar de outra pessoa. 2 Psicol Compreensão dos sentimentos, desejos, ideias e ações de outrem …” – Dicionário Michaelis.

 

 

Melhor ainda é saber a origem da palavra. No caso do vocábulo “empatia”, este teve sua origem no termo grego empatheia, que significava “paixão”.  Empatia pressupõe uma comunicação afetiva com outra pessoa e é um dos fundamentos da identificação e compreensão psicológica de outros indivíduos.

 

 

Agora sim,  vamos lá: Empatia significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo.

 

 

Em uma palavra: emoção. Em muitas:  altruísmo, identificação, envolvimento, entendimento, sensibilidade, escuta ativa. Em outras:  conexão afetiva.

 

 

Vamos falar de experiências empáticas?

 

 

Quando acordou, como de costume,  saiu para a rua comprar o pão de queijo quentinho que tanto gosta.  Na entrada da padaria estava lá aquele mesmo homem de todo dia, pedindo alguns centavos para comprar o seu pão sem manteiga. Como você se sentiu? Não, não quero aqui iniciar uma discussão social sobre quem trabalha e àquele que escolheu não fazê-lo.  Apenas peço que sinta, ou relembre o que sentiu!

 

 

Enquanto “viajava” para seu local de trabalho. Lembrou o projeto que iria apresentar e deu aquele frio na barriga. Ainda bem que a sua fala era a última, assim daria tempo para concentrar-se e manter a calma. Um colega iniciou a reunião e estava muito nervoso, mal  articulava as palavras, menos ainda os argumentos e esclarecer objetivos e metas. Foi um desastre! Como você se sentiu?

 

 

Final do dia! Hora de relaxar um pouco e comemorar que tudo correu bem na sua apresentação. Nada melhor do que aquele café com bobagem em companhia do melhor amigo. Enquanto saboreava seu cappuccino observou uma mulher obesa tentando recolher uma chave que estava no chão. Muito esforço, nenhum resultado. O que pensou? Levantou-se e ajudou?

 

 

Ao chegar em casa, seu par está agitado. Começa a falar e cita um rosário de questões vividas durante o dia. O que seria um retorno feliz ao lar, passa a ser uma “DR” interminável. O que você sentiu?

 

 

Bem, poderia ficar por horas exemplificando situações em que ser empático (a) faria toda a diferença. Se você respondeu que a situação do homem à porta da padaria sensibiliza;  se procurou dar apoio ao colega e lhe disse que da próxima vez pode contar contigo para ajudar a elaborar a apresentação; se conseguiu perceber o quanto uma pessoa pode ter dificuldade em fazer coisas simples como pegar um objeto do chão e foi compreensivo com ela: e, finalmente quando (e se conseguiu) teve escuta ativa, demonstrou ter conexão afetiva. Sim, você teve experiência (s) empática (s).

 

Caso não tenha lidado bem com algum desses exemplos, é preciso (re)pensar sua experiência empática. A empatia pode ajudar não só os outros, como também a nós mesmos. Isso porque  é a capacidade de se colocar no lugar do outro e compreender o que se passa na sua mente, contudo sem utilizar a nossa perspectiva e sim na tentativa de pensar como essa pessoa, com suas crenças, suas limitações e especialmente seus valores.

 

Contrariando o que se costuma entender por empatia, que seria uma espécie de “colocar-se no lugar do outro”, uma pessoa empática, para lidar e utilizar, de forma equilibrada, sua capacidade de compreender o outro, precisa não se confundir com o outro, para não se perder de si mesmo. Deve sentir e fazer algo para colaborar. Esse “ algo” pode ser um simples olhar confirmador,  um abraço, a escuta ativa ou uma ajuda efetiva e concreta.

 

 

Então, resumindo… Partir da aceitação do outro, compreendendo seus sentimentos e emoções não como se fosse o outro a senti-los, mas como se fôssemos nós mesmos. Mesmo que sua atitude não combine com a que escolheríamos em uma situação semelhante. A literatura que estuda essas interfaces da aprendizagem x teoria x prática é bastante significativa. Temos muitos autores trabalhando o tema, pensadores da Educação como Henri Wallon e Edgar Moran; psicólogos como Anita Abed e Zilda Del Prette/Almir Del Prette; pesquisadores como Anita Nowak e Howard Gardner, dentre muitos outros.

 

 

Existem pessoas que têm muita facilidade nestas situações. Outras, entretanto, ainda precisam trilhar um longo caminho. Talvez a própria educação precise ser repensada quando se trata da educabilidade do ser, e em especial, para a necessidade da intervenção humana no desenvolvimento de competências como a da empatia.

 

 

Agora, um convite: vamos abordar a teoria ?

 

O desenvolvimento de habilidades sociais na infância é importante ferramenta para que sejam desenvolvidos jovens e adultos mais saudáveis emocionalmente no futuro. Claro, isso se justifica no impacto positivo que será notado nas relações interpessoais, prevenção de comportamentos considerados inadequados, como o bulliyng, e ao ajustamento psicológico e social nas demais fases da vida.

 

Assim, caro (a) leitor (a), “treinar” habilidades sociais na escola objetiva desenvolver diferentes classes de comportamentos no repertório do estudante. DEL PRETTE e DEL PRETTE (2013) afirmam que tal treinamento pode ser: terapêutico (tratamento, método, cura, remédio, intervenção, terapia, terapêutica, curativo, medicação) , profilático (preventivo, defensivo, preservativo, protetório, profiláxico) ou de capacitação profissional (qualificação, preparação, treino ).

 

Ah, as palavras! Esses ecossistemas vivos da língua! Costumo dizer aos meus alunos que as palavras são reveladoras, que são autoexplicativas, que condensam sentidos. Ao observar os sinônimos, acima destacados nos parênteses, é possível visitar uma trilha do processo de construção da teoria sobre empatia. Trilha essa que passa pela questão terapêutica e de tratamento das questões oriundas da falta de empatia; profilática no sentido de prevenir ações e quando, se preciso, a utilização de medicação; e, a forma mais completa de prevenção que vem da qualificação e preparação dos educadores para intervenção preventiva e positiva.

 

Trabalhar esse assunto com crianças pode ser útil na superação de entraves de relacionamento e adaptabilidade destas na sala de aula e, ao trabalhar com jovens e adultos, aumenta a probabilidade de relacionamentos pessoais mais saudáveis e produtivos.

 

Trabalhar com profissionais da educação tem um impacto ainda maior porque eles são formadores de opinião. Sem falar que sua atuação em sala de aula abrange um número ainda mais expressivo de pessoas impactadas. A comunicação interpessoal se configura como uma esfera essencial da atividade humana em todas as fases da vida, pois na maior parte do tempo as pessoas se encontram interagindo: seja presencialmente, seja virtualmente.

 

A área das habilidades sociais constitui-se em um campo de conhecimento e aplicação. Por isso, alguns conceitos são importantes para a compreensão do treinamento de habilidades sociais e para o desenvolvimento e avaliação da competência social nos diferentes contextos da vida humana.

 

 

Em síntese:

 

 

–  desempenho social “refere-se a qualquer tipo de comportamento emitido na relação com outras pessoas. Ele inclui tanto os desempenhos que favorecem como os que interferem na qualidade dos relacionamentos”;

 

 

– habilidades sociais são as “diferentes classes de comportamentos sociais do repertório de um indivíduo, que contribuem para a competência social, favorecendo um relacionamento saudável e produtivo com as demais pessoas”.

 

 

As habilidades sociais “são aprendidas e as demandas para o seu desempenho variam em função do estágio de desenvolvimento do indivíduo”. Podem ser compostas por dois elementos comportamentais: molares ( habilidades globais: expressão dos sentimentos, antecipação de consequências e capacidade de empatia) e moleculares ( volume de voz, contato visual, entonação, expressão facial e uso do eu e outros  componentes verbais. DEL PRETTE e DEL PRETTE (2013).

 

 

O desempenho social é algo que pode ser aprendido, configurando um padrão de desempenho interpessoal. Quando existe o “treinamento” das ações amplia-se e aperfeiçoam-se ações positivas. Não só as ações, mas também nosso olhar deve ser “ treinado” para desenvolver a empatia. Desse modo, a competência social é a capacidade de atrelar os pensamentos, sentimentos e atitudes em função de metas pessoais, da exigência da cultura e de demandas do ambiente, gerando consequências reforçadoras para a pessoa e para o relacionamento interpessoal.

 

As habilidades sociais podem ser divididas em sete classes: autocontrole e expressividade emocional; civilidade; assertividade; fazer amizades; solução de problemas interpessoais; habilidades sociais acadêmicas; empatia.

 

Cabe aqui, neste espaço teórico, uma breve articulação com a fenomenologia, que quer conhecer a estrutura essencial, fundamental do ser. Uma situação existencial é aquela que nos faz sermos filhos de nosso tempo; somos seres que têm uma historicidade e o modo de viver de hoje está relacionado ao que fomos ao longo de nossos anos. BOEMER (1984).

 

Enquanto a “Ciência” se preocupa com os fenômenos que se convertem em fatos, a fenomenologia se preocupa com os fenômenos tais como eles aparecem, buscando a verdade para chegar ao núcleo essencial do fenômeno. Na linguagem fenomenológica, empatia significa sentir, com o outro, aquilo que ele sente, sem que necessariamente estejamos vivendo o que ele está vivendo (em = em, dentro + phatos = união).

 

Essa discussão teórica vai longe, leitores… Poderíamos falar sobre HUSSERL e citar CAPALBO,  ainda ROGERS e sua obra “ Para tornar-se pessoa”.  Então, convido agora para outra trilha, tão importante quanto a primeira: a viagem para conhecer o “ outro “. Menos teórica,  mais prática.

 

Sem empatia não há relacionamento humano, pois ela é a disposição pessoal de ida ao outro.

 

 

Teoria ou Prática ?

 

De uma forma bastante poética, Levy Moreno, o criador do psicodrama assim resume  a teoria (talvez a própria ação da empatia):

 

Um Encontro de dois:
olhos nos olhos,
face a face.

E quando estiveres perto,
arrancar-te-ei os olhos e
colocá-los-ei no lugar dos meus;

E arrancarei meus olhos
para colocá-los no lugar dos teus;

Então ver-te-ei com os teus olhos
e tu ver-me-ás com os meus.

 

Leitor (a), eis o recorte teórico deste momento:  falar sobre empatia implica em falar sobre emoções. Entendê-las, estudá-las; aceitando que fazem parte da vida e que a forma como olhamos para suas manifestações mudo tudo. A emoção de olhar para o outro e ver as possibilidades: vê-lo sem máscara, ver  a mim mesma em um dèja vu!

 

De fato, “arrancar os olhos do outro” e colocá-los no lugar dos meus e vice-versa! Assim, ambos veremos melhor.

 

Sim, não basta sentir é preciso agir! Cada um na sua vivência diária mudando o seu olhar sob o outro.  Pois o nosso próximo  não é só aquele que está na França, EUA ou Coréia. Nosso próximo é aquele que está mais próximo de nós: nós mesmos em primeiro lugar, nossa família, alunos, amigos. Olhe para o lado neste momento, observe pessoas!  Cada uma delas tem sua história, suas dores.

 

“Epitáfio” nos leva a  outra reflexão, o que o eu-lírico ( eu e tu = nós) deveria ter feito para ser ( ou ter sido, pois a música parece um inventário de emoções ) mais feliz:

 

“Queria ter aceitado
As pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria
E a dor que traz no coração”

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABED, Anita Lilian Zuppo. O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem. São Paulo: 2014.

BARNETT, M. A. Empatía e respuestas afines en los niños. En N. Eisenberg & J. Strayer (Orgs.), La empatia y su desarrollo (pp. 163-179). Bilbao: Desclée de Brower. 2008.

BOEMER, M. R. Empathy — a phenomenological approach. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, 1984.

CABALO, V.E. El papel de las habilidades em el desarrollo del las relaciones interpessoales. SP: ARBytes, 1997.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2012a. _______. Linguagem e discurso: modos de organização. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2012b.

Del Prette, A. & Del Prette, Z. A. P. (2013). Habilidades sociais, desenvolvimento e aprendizagem: questões conceituais, avaliação e intervenção. São Paulo: Alínea.

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MORENO , J. L. Fondements de la sociometrie. Boulevard, Presses Universitaires de France, 1970.

———————- Psicodrama. 3 ed. Buenos Aires, Ediciones Horme S.A.E., 1974.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003.

PORVIR (Desenvolvido em parceria com o Instituto Ayrton Senna). Especial Socioemocionais. Disponível em: <http://porvir.org/especiais/socioemocionais/>. Acesso em: 31 junho. 2018.

UNESCO. Educação: Um tesouro a descobrir. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0010/001095/109590por.pdf>. Acesso em: 03 de junho. 2018.

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