Como personalizar os estudos e ampliar a aprendizagem?

por: Juliano de Melo Costa

Nos últimos anos, especialmente a partir dos anos 1970 na Europa e EUA, e no Brasil a partir principalmente do final dos anos 1980, configurou-se a ideia fundamental de que o objetivo geral da avaliação escolar não seria verificar o acúmulo de conteúdo aprendido, mas sim tornar esses mesmos conteúdos mais fáceis de serem assimilados, de serem lidos (nas suas mais diversas linguagens) e também de serem trabalhados no sentido de promover uma aprendizagem significativa com a realidade contextual em que o estudante estava inserido.

Nesse contexto, imaginar a avaliação como parte de um processo – e não como a finalização dele – faz com que ela seja inserida entre as diversas fases da educação regular do estudante, e não ao término de planejamentos lineares ou de ciclos escolares. Daí a necessidade de se transformar o processo avaliativo clássico, dos séculos XIX e XX, baseado em verificação conteudinal e cumulativa, em um processo dinâmico, vivo, capaz de se reconfigurar e de se reavaliar ele mesmo a partir das experiências obtidas durante a trajetória de aprendizagem, e não ao “final” dela.

Porém, levantar reflexões nesse sentido gerou nas duas últimas décadas mais perguntas que respostas, especialmente por conta das alterações que se deram fora da escola, esclarecendo, as alterações que promoveram a mudança geracional para uma nova infância e adolescência, a da juventude do século XXI.

Tratando-se dessa nova juventude, também chamada de Geração Z, um fator é primordial para entendermos as formas de aprendizagem atuais e, por conseguinte, as propostas de avaliação. Esse fator é o uso intensivo de tecnologia, nas suas mais variadas formas. Esse uso intensivo de tecnologia, que teve início com os aparelhos eletrônicos de uso doméstico, atingiu a indústria do entretenimento, adentrou as empresas e, finalmente, está chegando com força total na educação, e tem exigido de gestores, administradores e educadores em geral, respostas rápidas e imediatas para demandas que chegam ao ambiente escolar na velocidade do click de um dedo em uma tela touchscreen.

A transição do papel impresso para seus diversos formatos digitais (pdf´s, digibooks, livros eletrônicos, etc.), adicionando novas possibilidades de aprendizagem e avaliação, integrando ferramentas educacionais inovadoras e permitindo aos professores um acompanhamento just-in-time e uma personalização maior de aulas e currículos, está sendo sem dúvida a mais impactante e imediata transformação ocorrida no ambiente escolar. É possível, ainda que não saibamos exatamente como, apesar de termos muitas ideias, utilizar essa nova gama de possibilidades de interação na relação professor-aluno para promover uma aprendizagem mais rápida, mais efetiva e menos dispendiosa para os agentes educacionais.

Mas como a avaliação, inserida nesse novo contexto, pode auxiliar na personalização dos estudos e nos processos de aprendizagem? Vamos descrever três princípios gerais que podem ser usados para nortear nosso pensamento.

 1. Acompanhar o aluno passo-a-passo

Com as ferramentas que a tecnologia disponibiliza atualmente, é possível promover o acompanhamento tanto do desenvolvimento da leitura teórica, seja em texto, vídeo, animações, infográficos, fóruns, blogs, quanto da produção e resolução de atividades propostas ou atividades autodidáticas.

Através da integração entre o planejamento escolar (representado pelo plano político-pedagógico, pelo estatuto da escola e pelos diversos planejamentos de segmento), a prática docente, o trabalho discente e os novos softwares embarcados em notebooks, netbooks, tablets e smartphones, os educadores são capazes de visualizar imediatamente os progressos (ou a falta deles) feitos pelos alunos na medida em que eles promovem suas atividades escolares diárias, ou seja, a medida em que são avaliados. Softwares especialmente projetados para esse fim estão surgindo no mercado com uma frequência cada vez mais rápida, promovendo melhorias qualitativas e, também, uma queda nos preços que favorece a popularização desses produtos digitais e dessa sistemática de acompanhamento da vida escolar.

Com esse acompanhamento imediato é possível aos educadores constituir currículos personalizados a partir das observações e dos resultados concretos obtidos pelos alunos nas avaliações, individualmente. Aliado a um gerenciamento de aprendizagem, definindo metas a serem alcançadas pelo modelo pedagógico adotado, a escola pode saber a curva de aprendizagem específica de cada estudante, elaborando então estratégias particularizadas e reformando, dia a dia, o currículo do aluno e até mesmo a prática pedagógica dos professores.

Essa sistemática apresentada acima pode parecer (e atualmente ainda é) difícil de ser implementada nas escolas brasileiras. Porém, gostaríamos de falar a respeito do segundo ponto para avançarmos em direção à uma avaliação auxiliadora, e não classificadora.

2. Usar as Inovações em Dados Automatizados

Por meio das constantes inovações tecnológicas que têm ocorrido dentro da educação, o processo de personalização de currículos, de aprendizagem e de avaliação podem ser cada vez mais automatizados e eficientes em gerar dados estatísticos que permitam a um educador capacitado interpretar os dados coletados, identificar as deficiências e, a partir daí, elaborar novas estratégias de ação em prol da aprendizagem.

Scores automatizados tem a grande vantagem de permitir a leitura dos resultados just-in-time, fazendo inclusive processos de avaliação anteriores ao desenvolvimento de conteúdos, competências e habilidades, durante esse desenvolvimento e mesmo depois, permitindo então que todos os dados estatísticos obtidos (prévios, durante e posteriores) sejam comparados para medir, de forma objetiva, como se deu o processo de aprendizagem e seu desenvolvimento.

Além disso, novas ferramentas online de desenvolvimento/avaliação da aprendizagem, constituídas em múltiplas plataformas midiáticas, vão permitir ao educador uma gama de possibilidades que podem garantir um acompanhamento do desenvolvimento de habilidades já existentes e daquelas habilidades que estão surgindo ou estão para surgir na aurora do século XXI.

Fundamentalmente, como exposto anteriormente, currículos personalizados em plataformas de aprendizagem digitais podem se transformar – de maneira automática – em sistemas de avaliação também automatizados e, acima de tudo, particularizados, levando a uma educação de massa em que a massa escolar, mesmo frequentando o mesmo ambiente de sala de aula, o mesmo conjunto geral de matérias estudadas, possa ser acompanhada individualmente, e que os problemas pedagógicos enfrentados por cada estudante sejam resolvidos com fórmulas individuais, e não com modelos gerais.

Finalmente, dados automatizados permitem também uma universalização do acompanhamento estudantil, pois os professores, funcionários do sistema escolar, pais e comunidade em geral podem partilhar esses resultados (ainda que de forma bruta e generalista, preservando as identidades individuais) e perceber como anda o desenvolvimento da educação como um todo em sua região, dialogando, refletindo e discutindo em fóruns, em blogs, em redes sociais, em intranets que podem ser um grande pool de ideias capazes de auxiliar na formação dos estudantes daquela comunidade e propor soluções adequadas a problemas locais, geralmente fora dos currículos oficiais.

3. Aprender com os Jogos Eletrônicos

Imaginar construir qualquer processo duradouro e inovador no ambiente da internet é concluir que, mesmo a despeito de qualquer tipo de preconceito em relação à associação que surge, devemos buscar, de forma humilde e disposta, o apoio dos desenvolvedores de jogos online.

Em termos de participação da Geração Z, de envolvimento e de disposição para adentrar ao que se propõe como objetivo de aprendizado, o mundo dos gamers é, sem sombra de dúvida, o melhor laboratório de experiência em todos os tipos de realidade que não seja a física comum (realidade virtual, ampliada, aumentada, digital etc.). Os jogos eletrônicos conseguiram captar “o espírito do mundo” das duas últimas gerações, e conseguiram promover a criação de ambientes planetários completamente novos, repletos de informações digitais que são maiores – se compilados linearmente – que qualquer livro didático que se encontre no mercado. Ao mesmo tempo, criaram ferramentas de troca de informações e de experiências (grupos, guildas, chats, boxs virtuais, fóruns, blogs etc.) tanto dentro quanto fora dos jogos, que permitiu a criação de redes de relações em cima daquilo que os educadores tanto buscam: conhecimento e desenvolvimento da aprendizagem.

Buscar nos jogos eletrônicos o expertise necessário para poder criar ferramentas e estratégias de aprendizagem e avaliação é beber da mesma fonte que a Geração Z bebe para entender o mundo que eles vivem. É acompanhar o linguajar, os formatos de relações, o modo de se vestir, de marcar encontros, de avaliar o que se sabe e de reelaborar estratégias de sucesso nas suas vidas virtuais e, ainda que de forma não mensurada, suas vidas pessoais. Esse conhecimento acumulado pela indústria de jogos em geral, marcada por criatividade, inovação, estética, qualidade e, acima de tudo, competitividade, pode permitir aos educadores criar mecanismos de avaliação que sejam mais “agradáveis” aos estudantes, mais confortáveis e, ao mesmo tempo, que sirvam como norteadores para criação de estratégias de aprendizagem baseadas em dados coletados.

A construção de laboratórios de aprendizagem virtual, de realidades alternativas propostas, a reconstrução de fenômenos históricos em projetos 3D, a imersão em mundos microcósmicos, a expansão da visualização de espaços inalcançáveis pela prática pedagógica clássica são apenas alguns exemplos de como o mundo digital pode oferecer infinitas possibilidades de aprendizagem e de avaliação dessa aprendizagem. Condições técnicas e tecnológicas existem, estudantes dispostos ao uso existem, resta apenas ao mundo escolar (e a seus educadores) assumir a tarefa de vanguarda e passar a tratar tecnologia como parte do modelo de educação do século XXI.

Assim, a aprendizagem e os processos de avaliação estão em imediata desconstrução reflexiva. Sabemos o que queremos fazer com ela, mas não sabemos exatamente como fazer. Porém, o primeiro passo é efetivamente repensar os fundamentos concretos sobre os quais repousam as práticas pedagógicas avaliativas atualmente, para poder construir formas de evoluí-las em direção a uma educação cada vez mais inclusiva, personalizada, individual e efetiva.

Essa reflexão geral não pode dispensar a maior riqueza que se apresenta nesse início de século XXI: as tecnologias digitais e o mundo virtual. Renegar essas ferramentas e suas possibilidades é agir de forma negligente, até mesmo omissa, no que tange ao objetivo fundamental da educação, que é o de preparar as pessoas para tornar o mundo um lugar sempre melhor.

 

Esse artigo foi originalmente publicado na revista Direcional Educador

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