Como a escola pode se beneficiar com a avaliação neuropsicológica?

por: Entretanto

A avaliação neuropsicológica (AN) é uma poderosa ferramenta na promoção da qualidade de vida de pessoas com transtornos psiquiátricos ou do neurodesenvolvimento, pois direciona os passos futuros que devem ser tomados. Devido aos seus benefícios, cada vez mais a AN é indicada para pessoas que apresentam algum tipo de dificuldade na vida diária, no trabalho ou estudos e nas relações sociais.

Entre o público infantil uma das dificuldades mais notadas é o baixo rendimento escolar. Déficits de desempenho escolar são recorrentemente encontrados nos transtornos do neurodesenvolvimento, sendo esta característica muito sensível nessas condições, porém ela é pouco específica. Isso significa que o desempenho escolar é facilmente afetado por diferentes fatores (alterações cognitivas, comportamentais, sociais e família) e sinaliza que há algo de errado no desenvolvimento da criança (sensibilidade). Todavia, somente com essa informação não é possível decifrar as causas dos problemas (pouca especificidade) e é neste ponto que a AN entra como uma aliada da família e da escola. Através dos seus procedimentos e métodos de descrição minuciosa das dificuldades é possível identificar a origem das dificuldades da criança e propor estratégias de intervenção, sendo isso documentado em um laudo.

Para ficar mais claro, é preciso compreender o que é uma avaliação neuropsicológica e quais são seus objetivos. Este é um procedimento que procura investigar detalhadamente as funções cognitivas, emocionais e sociais da criança. Todas essas características são influenciadas por fatores genéticos, familiares (incluindo práticas parentais), escolares e culturais e, por isso, precisam ser bem interpretadas. O objetivo da avaliação é traçar o perfil neuropsicológico do indivíduo (potencialidades e fraquezas) com o intuito de identificar as causas dos problemas observados e, assim, direcionar a criança para as intervenções adequadas.

Vamos ver um exemplo para compreender melhor o benefício da AN. Imagine duas crianças com a mesma idade (8 anos) e demanda: dificuldade de aprendizagem da leitura. Após a investigação neuropsicológica, o laudo da primeira criança sintetiza que há um déficit de processamento fonológico, sendo uma das principais dificuldades observadas a associação do grafema (letra) com o fonema (som) e sugerindo um quadro de Dislexia do Desenvolvimento. Já a segunda criança o laudo descreve boas habilidades fonológicas, mas há presença de desatenção e impulsividade. Apesar das mesmas dificuldades (leitura), o manejo é diferente porque a origem do problema é outro.

No caso da primeira criança, a intervenção adequada seria a estimulação cognitiva do processamento fonológico juntamente com a utilização do método fônico para alfabetização. Já a segunda criança também se beneficiaria de uma intervenção psicopedagógica, mas como as dificuldades escolares são um desfecho secundário dos déficits de atenção e de autorregulação, ela precisaria de outras intervenções. Seriam necessárias intervenções comportamentais que atuassem sobre os déficits primários.

Nosso exemplo é bem simplista, mas o objetivo é apontar como um laudo de avaliação neuropsicológica pode ser útil para a escola e também para todos que trabalham com o indivíduo avaliado. Quando as crianças apresentam problemas de aprendizagem, mais importante que identificá-lo é entender suas origens para que assim sejam utilizadas práticas de intervenção mais personalizadas e baseada em evidências científicas.

Por fim, lembre-se que a AN não se resume à aplicação de testes e escalas. Ela é muito mais ampla e global e pressupõe o trabalho em equipe. A escola, família e profissionais são aliados nessa empreitada que tem como objetivo final trabalhar em conjunto em prol da criança com algum tipo de transtorno ou dificuldade.

Texto escrito pelas Profª Me. Annelise Júlio-Costa e Profª Me. Andressa M. Antunes.

Conteúdo publicado originalmente em Pearson Clinical.

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