Aprendizagem significativa e mapas conceituais

por: Paula Gobato

Quando falamos de aprendizagem ativa, ou seja, a aprendizagem que coloca o aluno no centro do processo educativo, considerando sua capacidade de desenvolver novos saberes, podemos considerar um grande rol de possibilidades, atividades, cenários, dinâmicas, etc. No meu último texto publicado aqui na Entretanto, falei sobre a Aprendizagem Baseada em Problemas, que tratou sobre uma metodologia de ensino ativa e que conta com o aluno, trabalhando colaborativamente, como protagonista e o professor como um facilitador e mediador entre o conhecimento e o aprendiz através da resolução de problemas previamente estruturados e contextualizados.

 

Levei algo para aquele texto de maneira muito discreta, mas que será o tema principal deste artigo: a aprendizagem significativa. Continuando na linha da aprendizagem ativa, vou explorar um pouco sobre outras ferramentas desta modalidade, como os organizadores gráficos, mais especificamente os mapas conceituais, fazendo sua relação com o conceito de aprendizagem significativa.

 

A elaboração de mapas conceituais e a sua interpretação vão além da simples visualização de informações gráficas, pois também envolve habilidades de interpretação que têm seu desenvolvimento iniciado logo na etapa de alfabetização do indivíduo. É importante que a alfabetização ocorra na perspectiva do letramento, que se preocupa com a aplicação da leitura de símbolos, frases e textos no convívio em sociedade e permite ao indivíduo compreender seu espaço e sua participação na comunidade, ou seja, por meio do letramento, desenvolvemos habilidades de leitura e escrita relacionadas às práticas sociais do nosso meio (SOARES, 1999).

 

Em consequência, a informação visual é interpretada por nós, porém, depende de toda nossa bagagem psicológica, cultural e social, e são estes aspectos que irão definir como nos relacionamos com os fatos e como os interpretamos (DONDI, 2003). Essa percepção visual nos permite fazer interpretações de informações contidas em gráficos, imagens e, claro, mapas conceituais (BRANCO, 2003). A partir daí, o leitor mobiliza conhecimentos prévios a respeito do tema e novos significados surgem a partir da interpretação, ressignificando a imagem e reestruturando as ideias (CARVALHO, MONTEIRO, CAMPOS, 2010).

 

Dessa forma, ao unir imagens com a leitura, surgiram os organizadores gráficos, que têm, como principal foco, a organização visual de informações e conceitos de modo a facilitar a compreensão e a interligação entre eles. São estruturas que foram criadas baseadas na Teoria da Aprendizagem Significativa, desenvolvida por David Ausubel na década de 1960 (AUSEBEL, 1963).

 

 

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Com esta teoria, Ausubel propõe, resumidamente, que a base do processo de aprendizagem do indivíduo é o relacionamento entre aquilo que ele já sabe, que são seus conhecimentos prévios e que já estão incorporados à sua estrutura cognitiva, com as novas informações advindas de seus estudos, sua atuação científica, social, pessoal, educacional, social e etc., gerando significado.

 

Ao confrontar as novas informações com aquilo que já sabe, novos significados são gerados, assim como novas compreensões, resultando no aprendizado. Ausubel ainda aponta que a aprendizagem que ocorre sem a atribuição de significados pessoais e advindos da trajetória do sujeito é uma aprendizagem mecânica e não significativa (MOREIRA, 2010).

 

Neste sentido, os organizadores gráficos, em especial os mapas conceituais, foram criados com o objetivo de auxiliar na organização do pensamento, no cruzamento de conhecimentos prévios e novos, e as conexões entre si, além de permitirem a visualização gráfica e a aprendizagem ativa do aluno. Podemos citar aqui alguns organizadores gráficos eficientes, porém, nosso foco são os mapas conceituais:

 

Diagrama de Ishkawa (ou espinha de peixe): um diagrama de causa e efeito, que propõe a conexão de causas a um efeito em comum através de um Brainstorm e organizados em uma estrutura semelhante a uma espinha de peixe, sendo a cabeça o evento principal e cada ramo da espinha as causas possíveis.

 

Diagrama de Venn: é composto por dois círculos com uma intersecção entre eles. Este diagrama compara dois elementos, em cada círculo são descritas as características exclusivas de cada um e, na intersecção, as características que ambos têm em comum.
Quadro S-Q-A: um quadro de três colunas que permite a coleta de conhecimentos prévios, as expectativas em relação a um assunto e o que foi aprendido de fato. Na primeira coluna (S) o autor do quadro insere o que já sabe sobre o assunto em pauta, na segunda coluna (Q), são descritas as questões e expectativas em relação o que o autor gostaria de aprender e, na terceira coluna (A), o que foi aprendido.

 

Além dessas, ainda podemos citar linhas do tempo, circulo de conceitos, diagrama V (ou diagrama de Gowin) e os próprios gráficos numéricos e infográficos que estamos acostumados a utilizar e a ler em notícias de jornais, revistas, online, etc.

 

Os mapas conceituais foram desenvolvidos na década de 1970 por Joseph Novak como uma ferramenta que atende diferentes estilos de aprendizagem e baseada na teoria da aprendizagem significativa de Ausubel e que permite o desenvolvimento de habilidades intelectuais, cognitivas, organizacionais, entre outras.

 

É importante diferenciar mapas mentais de mapas conceituais: o primeiro organiza palavras e frases que estão conectadas, porém, não são realizadas associações e não há uma organização hierárquica. Já os mapas conceituais incluem flechas, conectores, símbolos e frases ou palavras de conexão para mostrar o relacionamento entre os elementos do mapa.

 

O mapa conceitual tem uma estrutura hierárquica, que se desdobra de cima para baixo, do conceito principal para os conceitos secundários que o compõem e que estão relacionados a ele. As conexões são realizadas por flechas, linhas contínuas ou tracejadas e palavras de ligação. Quando dois ou mais conceitos são relacionados por um conector e palavras de ligação, forma-se uma unidade semântica chamada de preposição (PEÑA et al., 2005). A partir desta estrutura básica, o autor do mapa conceitual pode criar outras regras para atingir o objetivo do organizador, como definir figuras geométricas que alojam conceitos diferentes, comprimento das linhas conectoras que indica maior ou menor relação, entre outras que dependem da criatividade e da mensagem que se deseja transmitir.

 

A partir desta estrutura, é possível que o aluno (ou qualquer outro indivíduo, já que mapas mentais são utilizados em diversos contextos) organize seu pensamento e relacione novas ideias com aquilo que ele já compreendia, além de exercitar e desenvolver habilidades relacionadas a esta tarefa. Também exercita a interpretação visual e a visualização de dados gráficos, ampliando seu conhecimento e compreensão do meio em que está inserido.

 

Os mapas conceituais também podem ser utilizados como ferramentas avaliativas, mas sempre considerando que, assim como proposto na teoria da aprendizagem significativa, o conhecimento tem a influência das experiências pessoais e prévias, significando que dois mapas conceituais sobre o mesmo assunto e elaborados por pessoas diferentes nunca serão iguais. Muitas vezes, nem mesmo dois mapas realizados pelo mesmo indivíduo podem ser iguais, pois o aprendizado e a estrutura cognitiva são dinâmicos, resultando, assim, em diversos pontos de vista e interpretações. Dessa forma, a avaliação deve levar em conta que não existe um mapa conceitual correto e preocupar-se em avaliar qualitativamente o conhecimento e aprendizagem significativa que são transmitidos pelos conceitos e interligações representados nos mapas (MOREIRA, 2010).

 

Enfim, a aprendizagem significativa, intimamente ligada aos organizadores gráficos, representa uma gama de possibilidades de trabalho em sala de aula, sempre procurando atender ao diferentes modos de aprender e valorizando aquilo que nossos alunos já conhecem, tornando-os protagonistas da própria aprendizagem e dando maior significado àquilo que estão vivenciando. É uma atividade que se permite ser trabalhada em grupo, colaborativamente, para sua construção.

 

E você? Costuma utilizar alguma ferramenta que valoriza o conhecimento do seu aluno?

 

 

Para saber mais sobre mapas conceituais e aprendizagem significativa:

 

 

Referências Bibliográficas

 

MOREIRA, M. A. Mapas conceituais e aprendizagem significativa. São Paulo: Centauro Editora, 2010.

 

AUSUBEL, D. P. The psychology of meaningful verbal learning. New York: Grune & Stratton, 1963.

BRANCO, V. M. A. Visualização como suporte à exploração de uma base de dados pluviométricos. 2003. Dissertação (Mestrado em Ciências da Computação e Matemática Computacional) – Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2003.

CARVALHO, L. M. T. L.; MONTEIRO, C. E. F.; CAMPOS, T. M. M. Aspectos visuais e conceituais envolvidos na interpretação de gráficos. Revista Iberoamericana de Educación Matemática, n. 24, p. 135-144, 2010.

DONDI, D. A. Sintaxe da linguagem visual. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

MOREIRA, M. A. Mapas conceituais e aprendizagem significativa. São Paulo: Centauro Editora, 2010.

 

PEÑA, A. O.; BALLESTEROS, A.; CUEVAS, C.; GIRALDO, L.; MARTÍN, I.; MOLINA, A.; RODRÍGUEZ, A.; VÉLEZ, U. Mapas conceituais: uma técnica para aprender. São Paulo: Edições Loyola, 2005.

SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. São Paulo: Autêntica, 1999.

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